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27/04/2005

Questões de comportamento que ajudaram Bush não ajudam conservadores britânicos

The New York Times
Adam Nagourney

Em Londres
Enquanto os conservadores americanos estão em ascensão, o Partido Conservador britânico está à deriva. Prejudicado por brigas internas e sem um tema que o defina, está com dificuldades para derrotar um concorrente relativamente impopular, o primeiro-ministro Tony Blair, nas eleições daqui a nove dias.

A maior parte das pesquisas e analistas dizem que o Partido Conservador, liderado por Michael Howard, está se dirigindo para uma derrota histórica, a terceira consecutiva contra o Partido Trabalhista, no dia 5 de maio.

Essa perspectiva é ainda mais digna de nota dada a vulnerabilidade de Blair em questões como confiança e liderança, depois de insistir que seriam encontradas armas de destruição em massa no Iraque na guerra liderada pelos EUA, que ele apoiou com tanto vigor e que continua impopular no Reino Unido.

A situação política mostra o que os analistas descrevem como uma divergência crescente entre os movimentos conservadores no Reino Unido e nos EUA, uma década e meia após o fim da era de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Ela reflete as diferenças fundamentais entre a formação política do Reino Unido e dos EUA, mas também a capacidade que tiveram Blair, na esquerda --e o presidente Bush, na direita-- em redefinir o cenário político, segundo os analistas.

As questões sociais que se provaram críticas ao sucesso de Bush nos EUA têm pouca ressonância neste país. Diferentemente de Bush, Howard não conseguiu usar o aborto e o casamento gay para transcender as questões econômicas nos apelos aos eleitores.

Além disso, em um dos pontos que os membros do Partido Trabalhista julgam ser mais vulnerável de Blair, o Iraque, ele votou a favor da guerra.

"Tony Blair recolocou o Partido Trabalhista como centrista, que abarca a todos. Uma das dificuldades de Michael Howard é que nem ele nem nenhuma figura do Partido Conservador tem uma noção clara de precisamente o que o partido deve defender. Depois de uma década, eles ainda não definiram o que querem dizer", disse Anthony King, professor de governo da Universidade de Essex.

Irwin M. Stelzer, acadêmico conservador do Instituto Hudson em Washington e colunista do jornal "The Sunday Times" de Londres, disse: "Não há razão para votar nos conservadores. Eles não estão oferecendo nada diferente em política tributária; não estão oferecendo nada diferente em política de segurança."

"O que os tories (conservadores) não foram capazes de fazer --parcialmente porque Blair teve tanto sucesso em roubar suas roupas-- foi criar uma política claramente diferente", disse Stelzer.

Em uma conferência com a imprensa na manhã da última segunda-feira (25/04), Blair provocou Howard com a memória de Thatcher, afirmando que o atual Partido Conservador ainda não tinha estabelecido um programa que oferecesse um contraste com o Trabalhista.

Em sua própria conferência com a imprensa, na sede de seu comitê de campanha na mesma rua do de Blair, Howard fez uma careta quando Andrew Marr, editor político da BBC, perguntou a ele se sua declaração de que o Reino Unido estava prestes a "entrar como sonâmbulo em outros cinco anos de Partido Trabalhista" eram as palavras de "alguém que acredita que está perdendo a campanha".

"Isso não é absolutamente o que eu penso", respondeu Howard que, como o rosto do Partido Conservador nesta intensa campanha, forneceu uma alternativa notavelmente incolor ao sempre enérgico e fotogênico Blair.

De muitas formas, o Partido Conservador em sua era pós-Thatcher é como o Partido Democrata pós-Clinton. Os dois lutam para encontrar um novo tema definidor diante da queda do apoio e de um eleitorado que muda ideologicamente.

Desde que Reagan e Thatcher revigoraram o conservadorismo político dos dois lados do Atlântico, nos anos 80, seus partidos seguiram direções notavelmente diferentes.

Os americanos combinaram uma filosofia de mercado livre com um apelo religioso e uma ênfase em questões de comportamento. Mas os conservadores britânicos estagnaram-se, após terem refeito o que era essencialmente uma democracia social européia, até mesmo com indústrias estatais, fornecendo abertura para Blair.

Blair dominou o centro em questões como impostos, segurança, imigração e Iraque, deixando Howard com pouco espaço de manobra, enquanto tenta persuadir os eleitores a derrubar os trabalhistas na próxima semana.

Qualquer esforço que faça para explorar a guerra no Iraque é prejudicado por seu voto e o de muitos outros conservadores em seu favor.

Mais fundamentalmente, como ficou claro desde a partida de Thatcher, há um apetite muito mais forte aqui do que nos EUA por programas sociais do governo. Isso restringe a tradicional bandeira conservadora de defender o corte nos gastos do governo e nos impostos.

Como resultado, Howard tem falado tanto em aumentar os gastos do governo --em um evento mundial de pobreza no domingo, defendeu um aumento de 700 milhões de libras na ajuda externa-- quanto em cortar gastos e impostos.

Tony Travers, analista político da Faculdade de Economia de Londres, observou que os conservadores propuseram cortar apenas 4 bilhões de libras do orçamento de 450 bilhões de libras proposto pelos trabalhistas --uma diferença que o "The Sun", jornal conservador, descreveu como "patética".

"Um dos problemas que Blair apresentou aos conservadores é que conseguiu se posicionar à direita do centro político britânico --em um partido que tende a estar à esquerda do centro político", disse Travers. "Não é como Bush e Kerry, onde se tinha uma enorme diferença em sua forma de ver o mundo."

Travers argumentou que os conservadores não conseguiram acompanhar as mudanças sociais que varreram o Reino Unido nos últimos 30 anos, quando evoluiu de "uma sociedade bastante reprimida" para uma sociedade claramente mais liberal. "O Partido Conservador ainda acha difícil operar nesse tipo de mundo", disse ele.

Howard levantou a questão do aborto por um milésimo de segundo --somente para sugerir que o período em que o aborto é permitido deveria ser reduzido de 24 semanas para 20 semanas. E quando apareceu no púlpito do Tabernacle Christian Center, nos subúrbios de Londres no domingo, não mencionou Deus ou religião, durante um discurso de 20 minutos, uma omissão que teria sido impensável para Bush ou Kerry.

A questão social que Howard usou para tentar atrair os eleitores --uma defesa forte de duras restrições de imigração-- gerou grande reação mesmo entre alguns de seus partidários. Os críticos sugeriram que seu apelo, encapsulado no lema de campanha "Você pensa como nós?" era no mínimo canastrão.

"Você não pode usar a onda conservadora americana aqui. O líder do mundo livre é um conservador consciente, mas baseia-se em idéias estranhas ao Reino Unido", disse Stanley Greenberg, analista do Partido Democrata dos EUA que está assessorando Blair.

Em um sinal dos males que afligem o partido, o "The Sun", de Rupert Murdoch, endossou Blair na semana passada, no que foi considerado um exemplo do pragmatismo de Murdoch (historicamente, ele costuma associar-se ao vencedor) vencendo a ideologia. "Quando os conservadores começarem a agir como conservadores, talvez mereçam nosso apoio", disse o jornal.

Enquanto é difícil caminhar pela sede do Partido Trabalhista sem ver algum rosto familiar do Partido Democrata ajudando na campanha --Bill Clinton apareceu por satélite para falar em apoio de Blair em um comício no domingo-- poucos republicanos estão ajudando os conservadores, talvez nenhum. Bush, agradecido pelo apoio determinado de Blair no Iraque, manteve-se longe da disputa.

Howard pareceu exasperado na segunda-feira, quando lhe perguntaram qual presidente americano apoiava sua campanha. "Estou mais interessado no apoio do povo britânico do que no dos presidentes americanos", disse ele. Religião, aborto e casamento gay não mobilizam o Reino Unido Deborah Weinberg

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