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27/04/2005

Tropas sírias deixam o Líbano após 29 anos

The New York Times
Hassan M. Fattah*

Em Riyaq, Líbano
As últimas tropas sírias deixaram o Líbano nesta terça-feira (26/04) após uma cerimônia melancólica a apenas alguns quilômetros da fronteira, colocando fim a uma presença militar que por boa parte dos últimos 29 anos ajudou a Síria a controlar o Líbano e a confrontar Israel por meio de milícias aliadas.

Norbert Schiller/The New York Times

Soldados sírios saem do Líbano após ocupação
No entanto, alguns políticos libaneses e autoridades em Washington manifestaram preocupação com a possibilidade de a Síria continuar exercendo influência aqui por meio de oficiais de inteligência e seus aliados políticos libaneses.

O secretário-geral Kofi Annan expressou preocupação na Organização das Nações Unidas (ONU) quanto ao fato de as milícias libanesas, incluindo o Hezbollah, não terem sido ainda desarmadas e controladas.

Enquanto os soldados remanescentes, completando uma retirada que durou sete semanas, cruzavam a fronteira ingressando na Síria --devido à pressão internacional e às manifestações libanesas nos últimos dois meses-- os políticos daqui também admitiam que agora um Líbano mais independente se depara com desafios sérios, incluindo uma democracia prejudicada por divisões sectárias e pelas amargas memórias da guerra civil.

O primeiro teste a ser enfrentado pela democracia libanesa se aproxima rapidamente, já que o atual gabinete deve convocar novas eleições antes do fim do mandato dos atuais parlamentares, em 31 de maio.

Na manhã de terça-feira, oficiais militares libaneses e sírios se reuniram em uma base aérea nesta cidade do Vale de Bekaa, a cerca de 16 quilômetros da fronteira entre Líbano e Síria, para dar adeus a aproximadamente 300 soldados sírios uniformizados e oficiais graduados de inteligência, e a centenas de outros soldados que guardavam a estrada até a fronteira.

Bandas militares dos dois países executavam hinos e marchas marciais enquanto os comandantes trocavam medalhas em frente a uma audiência formada por dignatários e adidos militares de vários países, incluindo Estados Unidos, França e Coréia do Norte.

"Irmãos de armas, obrigado pelo seu sacrifício", disse o general Michel Suleiman, comandante do exército libanês, que deu adeus aos soldados com um termo árabe que significa "até que nos encontremos novamente". "Juntos continuaremos sendo irmãos de armas face ao inimigo israelense".

Uma figura proeminente na audiência era o general de divisão Ruston Ghazali, o mais graduado chefe de inteligência sírio no Líbano - um posto que se acredita ter possibilitado à Síria controlar a política libanesa durante anos.

A base de Ghazali na cidade de Anjar foi abandonada na segunda-feira, e ocupada por tropas libanesas, que agora deverão ser a força militar preeminente no país.

A Síria entrou no Líbano pela primeira vez em 1976, um ano após o início da devastadora guerra civil libanesa, como parte de uma força árabe de paz.

Mas com o passar dos anos, o papel sírio assumiu um curso tortuoso. O governo do falecido Hafez Assad, pai do atual presidente, Bashir Assad, protegeu e traiu várias facções, e nos últimos 15 anos a Síria foi o poder dominante no Líbano.

Os sírios foram convidados pela primeira vez pelo então presidente Suleiman Frajieh, um católico maronita, para contrabalançarem a influência dos guerrilheiros palestinos que se aliaram a forças muçulmanas esquerdistas.

Mas os cristãos mais tarde se tornariam inimigos dos sírios e, nos últimos anos, passaram a ser os seus maiores críticos. Nesse ínterim, enquanto defendiam ostensivamente a causa palestina, os sírios lançaram milícias xiitas muçulmanas submissas contra os campos de refugiados palestinos nos anos 80.

Eles foram acusados pela maioria dos libaneses de assassinarem figuras políticas proeminentes, como Bashir Gemayel, o líder da milícia cristã de direita, e Kamal Jumblatt, o chefe esquerdista druso.

A invasão israelense de 1982 pareceu, a princípio, que acabaria com a influência síria. Mas a situação mudou quando Bashir Gemayel, aliado de Israel, foi assassinado em um atentado à bomba pouco após ser eleito presidente, e a sua milícia ter massacrado refugiados palestinos.

Os Estados Unidos enviaram uma força de paz ao país, mas os norte-americanos bateram em retirada depois que 242 fuzileiros navais e marinheiros morreram em um ataque suicida a bomba contra as suas instalações.

As tropas israelenses retrocederam para uma região na fronteira sul do país e acabaram se retirando sob ataques do grupo xiita Hezbollah, ou Partido de Deus.

Após mais cinco anos de lutas sangrentas entre as várias facções libanesas, chegou-se a um acordo em 1989 para o fim da guerra e a retirada dos sírios.

Mas a Síria postergou essa retirada e, a seguir, consolidou o seu poder em 1990. Naquele ano, Estados Unidos e França, por sua vez, fizeram vistas grossas à atividade da Síria no Líbano em troca de um envio simbólico de tropas à coalizão liderada pelos norte-americanos que se agrupava para lutar contra o Iraque na Guerra do Golfo Pérsico.

Foi quando, na luta anárquica que se seguiu, o exército libanês, liderado pelos cristãos, se voltou contra, e massacrou, a milícia adversária.

Os sírios, por sua vez, atacaram e esmagaram o exército libanês, enviando o seu líder, general Michel Aoun, para o exílio. Depois disso, a guerra civil libanesa chegou ao fim com a Síria consolidada no poder.

Em setembro passado, a ONU, com a Resolução 1559, exigiu a retirada da Síria e o desarmamento de todas as milícias no país. No final do ano passado, o primeiro-ministro Rafik Hariri renunciou ao seu cargo e pediu à Síria que atendesse à exigência da ONU.

Ele foi assassinado em 14 de fevereiro, o que provocou manifestações populares alimentadas pela crença generalizada de que a Síria estava envolvida no assassinato. Os protestos só fizeram aumentar a pressão internacional pela retirada da Síria.

"Agora a Síria atendeu àquela demanda e também obedeceu à sua porção do acordo de Taefe de 1989", disse na quarta-feira o general Ali Habib, comandante do exército sírio.

"A Síria nunca alimentou quaisquer desejos ou ambições quanto ao Líbano, com a exceção da vontade de preservar a unidade do país".

Pouco antes do fim da cerimônia de duas horas de duração, Ghazali e seus subordinados entraram em carros e cruzaram a fronteira, seguidos por ônibus e jipes cheios de soldados. Os quatro últimos soldados sírios no Líbano, que estavam de guarda na fronteira, embarcaram em uma van da TV síria e, atravessando a fronteira, voltaram a seu país.

Uma equipe da ONU foi incumbida de verificar se os sírios se retiraram completamente do Líbano. O enviado especial da organização, Terje Roed-Larsen deverá divulgar em breve um relatório sobre a situação.

"Respeito os sírios por terem partido sem entrarem em qualquer conflito conosco", disse Tanious Abu Hamad, prefeito da cidade de Saghbin, no Vale de Bekaa, que participou da cerimônia da terça-feira. "Mas agora tudo converge para nós. Os nossos problemas são agora realmente nossos".

E os problemas são numerosos. O presidente do Líbano, que conta com o apoio da Síria, Emile Lahoud, continua no poder, apesar dos pedidos generalizados para que renuncie.

Os serviços de segurança ainda são modelados segundo o padrão sírio e têm a reputação de serem corruptos. E a confiança nas instituições governamentais diminuiu no decorrer da última década à medida que a presença síria se consolidava no país.

O sistema político libanês continua fundamentado no sectarismo. O presidente precisa ser um cristão e o primeiro-ministro um muçulmano xiita, a maioria dos partidos também se orienta segundo linhas sectárias.

Nas Nações Unidas, Annan disse que a retirada dos sírios representa um "progresso significante e notável" no sentido de atender aos termos da retirada expressos na resolução do Conselho de Segurança, de 2 de setembro, sobre o Líbano e a Síria. Mas ele disse que há outras demandas quanto as quais "não houve progressos".

Em um relatório ao Conselho de Segurança, ele observou particularmente que não houve ação do Líbano no sentido de desarmar as milícias, os grupos palestinos armados e os vigilantes, conforma expresso na resolução.

Ele disse ainda que o governo de Beirute não deu atenção à solicitação de medidas para ampliar a sua autoridade até às áreas no sul do Líbano que foram abandonadas pelos israelenses em maio de 2000, e que agora estão sob o controle da maior das milícias, o Hezbollah.

Ele disse que o Hezbollah mantém uma rede de postos de controle móveis, posições fixas e patrulhas na área e que o grupo criou novos postos e pontos de observação, contando, aparentemente, com a tolerância do governo. "Essa posição é incompatível com as resoluções do Conselho de Segurança", disse Annan.

Enquanto isso, o exilado Aoun e o encarcerado líder da milícia cristã, Samir Geagea, devem retornar ao cenário político do Líbano, inflamando ainda mais as paixões por aqui.

O futuro da economia, que depende fortemente do turismo e dos investimentos estrangeiros, continuará incerto enquanto a confiança no governo e as perspectivas de segurança continuarem sendo objetos de dúvida.

"Nós claramente tivemos sucesso na nossa revolução pela soberania, mas ainda não fomos bem sucedidos na nossa revolução democrática", afirma Chibli Mallat, diretor do Centro para o Estudo da União Européia e um advogado famoso em Beirute.

"A revolução só será bem sucedida quando o presidente renunciar e o confessionalismo na política der lugar à representação nacional". No jargão libanês, "confessionalismo" significa sectarismo.

Mas na noite de terça-feira, o parlamento libanês ainda não se entendia quanto a uma lei distrital, faltando apenas dois dias para o encerramento do prazo para a definição da data das eleições até 29 de maio, conforme prometeu o primeiro-ministro Najib Mikati.

"Todos estamos aguardando as eleições como um pré-requisito para a definição do papel do Líbano", disse Nayla Mouawad, um legislador da oposição. "Não pense por sequer um minuto que tudo acabou. A história mal começou".

*Colaborou Katherine Zoepf de Damasco, John Kifner e Warren Hoge de Nova York. Mas a influência da Síria no país pode ainda não ter chegado ao fim Danilo Fonseca

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