UOL Notícias Internacional
 

28/04/2005

Chefões do escândalo de Abu Ghraib saem ilesos

The New York Times
Bob Herbert

Em Nova York
NYT Image

Bob Herbert é colunista
Quando os soldados em uma guerra não são propriamente treinados e supervisionados, as atrocidades são inevitáveis. Esta é uma das razões pelas quais a estrutura do comando militar é tão importante. Houve uma época, e não faz tanto tempo, em que os comandantes eram responsabilizados pelo comportamento de seus subordinados.

Isso mudou. Sob o comandante-chefe das Forças Armadas George W. Bush, a noção de responsabilidade do comando foi descartada. No mundo de guerra de Bush, os culpados são os soldados rasos. A punição é reservada para os que estão embaixo.

As pessoas do topo que cometem infrações são promovidas.

Há um ano, no dia 28 de abril, as histórias e fotos dos abusos chocantes da prisão de Abu Ghraib vieram à tona. Foi um escândalo que minou a reputação dos militares e rebaixou a estatura dos EUA no mundo.

Logo ficou claro que as fotos dos presos nus, encapuzados e humilhados eram evidências de um problema muito maior. O sistema de interrogatório, detenção e processo de prisioneiros em Abu Ghraib e em outras partes do Iraque estava perigosamente fora de controle, e a estrutura de comando responsável por ele tinha desmoronado. Os detidos foram torturados, surrados, sexualmente molestados e, em alguns casos, mortos. Muitos presos nem deveriam ter sido encarcerados, já que não tinham cometido ofensas.

Então o que aconteceu?

Meia dúzia de soldados foi levada à corte marcial, um major Marine foi afastado e o Exército planeja lançar um novo manual de interrogatório que proíbe certas técnicas violentas. Não houve uma repressão generalizada do comportamento criminal.

Soubemos na semana passada que, depois de uma investigação de alto nível, o Exército tinha liberado quatro dos cinco principais oficiais responsáveis pelas operações das prisões no Iraque. O quinto oficial, a general Janis Karpinski da Reserva do Exército, já tinha sido liberada de seu comando da unidade de polícia militar em Abu Ghraib. (Ela reclamou, não sem razão, que foi o bode expiatório dos erros de superiores.)

Como escreveu Eric Schmitt aqui no NYT: "A não ser que surjam novas evidências, o inquérito do inspetor-geral do Exército fecha efetivamente o caso de responsabilização dos oficiais no Iraque durante o escândalo da prisão de Abu Ghraib pelas falhas de comando descritas em revisões anteriores."

É assim que as atrocidades são tratadas no mundo de guerra de Bush. Os oficiais responsáveis por treinar, supervisionar e disciplinar as tropas --em outras palavras, os chefões que presidiram o sistema que fugiu vergonhosamente ao controle-- escaparam virtualmente ilesos.

Os abusos em Abu Ghraib, que pareceram assustadores na época, provaram-se sintomáticos da tortura, abuso e injustiça institucionalizados que permearam as operações do governo Bush em sua assim chamada guerra ao terrorismo. Eufemismos como rendição, interrogação coerciva, ajuste de sono e mergulho são hoje amplamente conhecidos. Sim, é política americana seqüestrar indivíduos e enviá-los para regimes especializados na arte da tortura.

Duas coisas são necessárias.

Primeiro, uma comissão verdadeiramente independente, nas mesmas linhas do conselho bipartidário de 11 de setembro, deve ser criada para investigar detalhadamente as operações americanas de interrogatório e detenção e fazer recomendações para corrigir abusos.

Segundo, o governo americano deve deixar claro, longe de qualquer dúvida, que a tortura e outros tratamentos desumanos de prisioneiros é errado, simplesmente errado, e não serão tolerados sob nenhuma circunstância.

"Em nosso mundo contemporâneo, a tortura é como o mercado de escravos ou a pirataria em 1790. A tortura é um crime contra a humanidade. É algo que tem que ser absolutamente proibido", disse Michael Posner, diretor executivo do grupo Human Rights First, que está processando o secretário de defesa Donald Rumsfeld pelo abuso de prisioneiros.

Se o presidente deixasse claro que homens e mulheres em toda a estrutura de comando seriam responsabilizados pelos abusos que ocorrem sob sua supervisão, sua prática cairia drasticamente. Em vez disso, a mensagem que o governo enviou é que a responsabilidade será limitada a alguns soldados miseráveis mal treinados.

Os chefões que presidiram o comportamento que envergonhou os EUA diante do mundo podem contar com o apoio deste presidente. Poucos militares --e de baixa patente-- são punidos pelos abusos Deborah Weinberg

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