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28/04/2005

Combate ao narcotráfico na Colômbia não reduz fluxo de droga para os EUA

The New York Times
Joel Brinkley

Em Bogotá
Após cinco anos e o investimento de US$ 3 bilhões na mais agressiva operação antinarcóticos já ocorrida aqui, autoridades norte-americanas e colombianas dizem que erradicaram uma área recorde de quatro milhões de hectares de plantações de coca. Porém, a cocaína continua tão disponível como sempre nas ruas dos Estados Unidos, e talvez até mais disponível.

"É muito preocupante", disse um funcionário graduado do Departamento de Estado que visita o país com a secretária de Estado Condoleezza Rice, em uma viagem de cinco dias pela região.

Os traficantes colombianos ainda fornecem 90% da cocaína usada nos Estados Unidos, e 50% da heroína, assim como faziam cinco anos atrás, diz o governo.

"Indicadores fundamentais da disponibilidade doméstica de cocaína revelam uma estabilidade ou um ligeiro aumento da quantidade da substância nos mercados de droga de todo o país", admitiu em fevereiro o departamento de políticas antidroga da Casa Branca. As autoridades acrescentaram que os preços permaneceram estáveis e a pureza aumentou.

Várias autoridades graduadas disseram estar perplexas e desapontadas. O relatório da Casa Branca diz: "Há pouco consenso entre agências para explicar essa disparidade".

No decorrer dos últimos cinco anos e meio, os Estados Unidos gastaram quase US$ 3 bilhões em uma série de programas para combater o tráfico de drogas, treinar as forças armadas da Colômbia para o combate aos insurgentes que controlam grande parte do comércio de drogas, e aperfeiçoar as instituições de governo. Essa iniciativa se chama Plano Colômbia.

A peça central dessa iniciativa tem sido uma pequena força aérea, composta de 82 aeronaves, que tem como função pulverizar herbicida sobre as plantações de coca cultivadas em pequenas áreas e em grandes fazendas espalhadas pelo país.

No decorrer dos últimos cinco anos, mais de cinco milhões de hectares plantados com coca e 210 mil hectares com papoula --matéria prima do ópio-- foram destruídos, em operações que tiveram alto custo financeiro. Os traficantes abateram pelo menos cinco aviões, causando a morte de três pessoas.

Sobram teorias para explicar a disparidade entre os números da erradicação e as estimativas de disponibilidade da droga, assim como não faltam teses a respeito de como lidar com o problema. Luis Alberto Moreno, embaixador colombiano nos Estados Unidos, disse acreditar que as equipes colombianas de repressão ao tráfico deveriam estar arrancando os pés de coca, ao invés de pulverizá-los com herbicidas.

O funcionário graduado do Departamento de Estado disse suspeitar que os traficantes estejam armazenando grandes quantidades de cocaína inserindo a droga no mercado lentamente.

O deputado Dan Burton, republicano de Indiana, que é presidente do Subcomitê para o Hemisfério Ocidental, disse achar que os colombianos deveriam usar um herbicida mais poderoso. E o departamento de políticas antidroga da Casa Branca acredita na possibilidade de que os dados governamentais a respeito das plantações de drogas não sejam precisos.

O general Jorge Daniel Castro, diretor da polícia nacional colombiana e um dos principais especialistas da Colômbia no problema, descreveu o paradoxo do combate às drogas segundo o Plano Colômbia como sendo "um fenômeno complexo", mas acrescentou, quando pressionado, que acredita que os traficantes estão simplesmente replantando a coca e a papoula tão logo os aviões carregados de herbicidas deixam as áreas de cultivo.

Mesmo com os resultados contraditórios dos últimos cinco anos, o governo Bush está pedindo ao Congresso que prorrogue o Plano Colômbia por pelo menos um ano. A proposta orçamentária do presidente pede mais US$ 734 milhões para o ano que vem, além dos US$ 2,9 bilhões já gastos.

Um funcionário graduado do Departamento de Estado que está envolvido no programa para a Colômbia disse: "Nos dêem mais um ano e vamos ver se não há um efeito".

Moreno disse: "Os traficantes aumentaram a sua produtividade, mas creio que estamos chegando perto do ponto de inflexão". Ele está fazendo lobby junto ao Congresso para que este renove o financiamento.

Uma importante delegação congressual esteve na Colômbia nesta semana para verificar se o Plano Colômbia estaria produzindo resultados correspondentes ao seu custo.

"Queremos ter certeza de que o dinheiro que estamos gastando está sendo bem aplicado", afirmou Burton, cujo subcomitê avaliará o pedido de orçamento feito pelo Departamento de Estado.

O deputado Gregory W. Meeks, democrata de Nova York, é um outro membro do subcomitê que participou da viagem desta semana, e ele também disse que deseja avaliar como o dinheiro está sendo gasto. "Especialmente porque nos bairros em que moro simplesmente não estou vendo efeito algum", afirmou.

O Plano Colômbia nasceu no final do governo Clinton, após uma década durante a qual o tráfico de drogas da Colômbia aumentou exponencialmente. Um relatório do Departamento de Estado de 2000 disse: "A situação há muito é desafiadora, mas ela atingiu a proporção de uma crise nos últimos anos".

Quando o Plano Colômbia chegou à sua mesa em 2000, o presidente Bill Clinton disse: "Com esta verba, seremos capazes de apoiar as corajosas medidas antidroga da Colômbia, que poderá, por sua vez, ajudar a conter o fluxo de drogas para a nossa nação".

Naquele primeiro ano, os colombianos, com o auxílio dos Estados Unidos, erradicaram 470 mil hectares de plantações de coca de um total estimado em 1,36 milhão de hectares - ou um terço da área cultivada.

Cada missão é uma operação complexa envolvendo um avião militar convertido em pulverizador agrícola e cinco ou seis outras aeronaves, incluindo helicópteros de combate, que proporcionam proteção. Os aviões pulverizam glifosato sobre as plantações.

Esse é o nome genérico do herbicida vendido comercialmente como Roundup. Ele mata as plantas, mas afirma-se que não deixa resíduos no solo.

No início deste ano, o Departamento de Estado relatou que 2004 foi "um outro ano de sucesso". Os aviões pulverizadores erradicaram 1,35 milhão de hectares de plantações de coca. Mas isso pareceu uma façanha meio inútil.

Mas ou menos no mesmo período, o departamento de políticas antidroga da Casa Branca anunciou que 1,13 milhão de hectares de plantações de coca continuam intactos, uma área que ficou "estatisticamente estável" em relação ao ano passado.

Segundo autoridades norte-americanas e colombianas, o motivo aparente para isso é que o arbusto da coca pode crescer rapidamente, passando de uma pequena muda até uma planta possível de ser colhida em apenas quatro meses.

Castro diz que um plantador de coca pode colher as folhas de um arbusto três ou quatro vezes por ano. Como resultado, se um cultivador replantar os seus arbustos após o avião pulverizador partir, ele poderá perder apenas uma colheita.

"Além do mais, se erradicarmos aqui, eles se mudam para lá para fazer o replantio, e depois para lá e para lá", afirma Castro, apontando para pontos de uma mesa de café, como se esta fosse o mapa da Colômbia. "Eles estão sempre replantando".

A Colômbia tem mais ou menos o triplo do tamanho do Estado de Montana. Embora a área cultivada tenha permanecido estável nos últimos dois anos, o departamento antidroga da Casa Branca diz que a produção de cocaína caiu 7% no ano passado porque muitos traficantes fizeram colheitas em arbustos recentemente plantados, que não são capazes de produzir muitas folhas.

Castro esteve em Washington para fazer pressão junto ao Congresso pela renovação do financiamento do Plano Colômbia, dizendo aos parlamentares e funcionários do governo: "Estamos, pouco a pouco, fazendo progressos".

Burton, o presidente do subcomitê, disse que está inclinado a acatar o pedido do presidente pela renovação do financiamento do Plano Colômbia.

Mesmo assim, com um ar resignado, ele observou: "Esta é uma batalha sem fim". Americanos investiram US$ 3 bi na repressão à produção de coca Danilo Fonseca

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