UOL Notícias Internacional
 

29/04/2005

Aos 99 dias de mandato, Bush enfrenta fase difícil

The New York Times
Todd S. Purdum

Em Washington
Com a sua presidência na melhor das hipóteses assentada --e na pior, sitiada--, apenas 99 dias após o início do segundo mandato, o presidente Bush aproveitou o poder de horário nobre característico de uma entrevista coletiva no Salão Leste da Casa Branca pela quarta vez neste ano, em uma tentativa de demonstrar que ainda é capaz de fazer aquilo que sempre fez quando enfrentou as tempestades à sua volta: criar o seu próprio clima.

Doug Mills/The New York Times

Bush responde a jornalistas durante coletiva em que insistiu em seus planos para a previdência
Mas quando terminou o seu encontro com os repórteres na noite de quinta-feira (28/04), a atmosfera permanecia turbulenta. As mudanças sugeridas por ele para ajudar a manter a viabilidade econômica do Social Security (previdência social) parecem ter pouca chance de resolver o impasse no Congresso sobre a revisão do sistema.

Ele admitiu que não possui uma solução fácil para os altos preços da gasolina, e tampouco um prazo específico para trazer de volta para casa as tropas norte-americanas que estão no Iraque.

E a sua enérgica defesa de John R. Bolton, o seu aguerrido nomeado para o posto de embaixador nas Nações Unidas, não neutralizou as questões relativas à forma como Bolton lidou com dados de inteligência ou tratou os seus subordinados.

Bush deu a entrevista coletiva porque a peça central da sua proposta doméstica --a reforma do Social Security-- está estagnada apesar dos 60 dias em que ele se desloca por todo país procurando vender o seu plano de criação de contas pessoais de investimento; o nome que indicou para a ONU está cercado de controvérsias; o seu esforço no sentido de obrigar um Senado inconstante a aprovar os juízes que indicou parece contar com pouca possibilidade de sucesso, e o seu índice de aprovação popular é o mais baixo dos seus 51 meses na presidência.

Mas esse presidente jamais ficou parado em frente a um obstáculo.

"Não me surpreendo com o fato de algumas pessoas se esquivarem de fazer um trabalho árduo", disse Bush, respondendo à primeira pergunta, sobre a possibilidade de estar frustrado com o lento progresso da sua agenda.

"Mas como presidente tenho o dever de definir problemas enfrentados por nossa nação e pedir às pessoas que ajam".

Assim, Bush fez aquilo que mais gosta: levou a sua argumentação diretamente ao povo.

Mas com os altos preços da gasolina e as elevadas taxas de juros e a desaceleração do crescimento econômico; com alguns deputados inquietos no Congresso preocupados com seus futuros eleitorais (e não com o do presidente); com a suspeita de deslizes éticos pairando sobre o líder da maioria na Câmara, Tom DeLay; e com o status de presidente impotente o ameaçando a cada mês que se passa, a questão agora é saber se Bush é capaz de prevalecer simplesmente perseverando, ou se ele terá que dar para receber.

Ele disse que está "tocando o processo em frente" no que diz respeito ao Social Security ao propor que os futuros benefícios cresçam mais rapidamente para as pessoas menos afluentes do que para aquelas que estão em melhor situação (uma forma muito delicada de sugerir futuros cortes de benefícios para os ricos como forma de evitar a insolvência).

Mas ele não deixou de insistir que qualquer reforma terá que incluir contas privadas de investimentos --algo ao qual os democratas se opõem firmemente-- declarando: "Tenho a forte sensação de que é preciso haver contas de poupança pessoal voluntária como parte do sistema do Social Security".

Bush falou calma e confiantemente, sorrindo ocasionalmente devido ao seu próprio bom humor, mas estava menos jocoso e exuberante do que na sua primeira coletiva à imprensa após a reeleição.

Ele fez objeções diretas a certas figuras proeminentes do seu partido que procuraram obter a oposição dos democratas aos seus indicados conservadores para o Judiciário, considerando isso uma questão de hostilidade aos crentes religiosos, e declarando: "Creio que essas pessoas estão se opondo aos nomes que indiquei porque elas não apreciam a filosofia judicial dos indivíduos por mim indicados".

O motivo para isso pode ser o fato de o presidente saber que poderia conquistar mais pontos políticos junto à sua base ainda que Bolton ou os seus indicados para o Judiciário fossem derrotados.

Porém, seria bem mais difícil para Bush cantar vitória quanto à reforma do Social Security caso não pudesse contar com algum tipo de conta pessoal de poupança para a aposentadoria como parte do programa.

A perspectiva de que ele tenha sucesso parece ser menor agora, após a sua campanha para conquistar o apoio popular à iniciativa, do que era no início do mandato. E os democratas se recusam a ceder.

"Em sua defesa, eu diria que é muito cedo para determinar se o plano está morto ou não", afirma Charles O. Jones, pesquisador da Brookings Institution e especialista em Congresso e presidência. "Mas, certamente, no curto prazo, isso parece ser ruim. A única coisa que esse sujeito tem na mente após o 11 de setembro como parte da sua liderança é a persistência. Mas alguém poderia também chamar isso de teimosia, e é muito fácil saltar desse patamar para a arrogância".

A última pesquisa de opinião Washington Post-ABC News revelou um índice de 75% de desaprovação à forma como o presidente lida com a questão do Social Security e, pela primeira vez nessas pesquisas, foi registrada maior rejeição do que apoio à proposta das contas privadas.

Uma nítida maioria da população também se opõe aos esforços republicanos para eliminar as obstruções no Senado à votação dos nomes indicados para o Judiciário.

E no exato momento em que Bush vem sendo obrigado a reconhecer que as suas propostas contas pessoais nada fariam para garantir a futura viabilidade do Social Security (pelo menos no curto prazo), ele admitiu que a proposta para o setor energético que deseja que o Congresso aprove em nada contribuiria para baixar o preço da gasolina neste verão.

"Este é um momento muito crítico para o presidente", diz o ex-senador John B. Breaux, democrata pela Luisiânia, o tipo de figura política que passa a sua carreira procurando fazer acordos, às vezes com o próprio Bush.

Bush afirmou várias vezes que ouviria as boas idéias de qualquer partido, que procuraria soluções independentemente das questões partidárias e se referiu inesperadamente a si próprio como um baby boomer (membro da geração nascida entre 1946 e 1964, quando houve um grande aumento da taxa de natalidade nos EUA) em processo de envelhecimento e que caminha para a aposentadoria.

Mas ele também deixou claro que a sua convicção fundamental sobre a forma como conduz a presidência não mudou, e defendeu a reputação de grosseiro de Bolton dizendo: "Às vezes as pessoas também dizem que sou um pouco grosseiro".

Seria uma tolice descartar alguém assim tão determinado. "Entre as coisas a favor do presidente está o fato de ele ainda ser o presidente", diz o ex-senador por Nebraska, Bob Kerrey.

A última entrevista coletiva do presidente em horário nobre foi há mais de um ano, quando a violência no Iraque parecia estar fugindo ao controle e algumas vozes nervosas do seu próprio partido pediam que ele fosse mais agressivo frente ao desafio representado pelo senador John Kerry. O seu desempenho provocou reações diversas, mas ele não admitiu nenhum erro e não cedeu.

E na eleição, sete meses depois, foi ele que riu por último. Seu principal projeto --privatização da previdência-- sofre oposição Danilo Fonseca

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