UOL Notícias Internacional
 

30/04/2005

OEA terá como líder um socialista chileno que sofre oposição dos EUA

The New York Times
Larry Rohter

No Rio de Janeiro
Em uma rejeição aos esforços do governo Bush de pressionar a América Latina a adotar uma posição mais dura contra Cuba e Venezuela, um socialista chileno despontou nesta sexta-feira (29/04) com a escolha de consenso para se tornar o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos.

A OEA deverá se reunir na segunda-feira, em Washington, para a eleição formal do chileno, o ministro do Interior Jose Miguel Insulza, 62 anos. Seu oponente, Luis Ernesto Derbez, o ministro das Relações Exteriores do México e o candidato preferido de Washington, se retirou da disputa na tarde de sexta-feira, depois de negociações em Santiago, que envolveram a secretária de Estado, Condoleezza Rice, e vários de seus pares das América do Sul e Central.

É a primeira vez que um candidato que contou com a oposição dos Estados Unidos liderará o grupo regional composto por 34 membros. Até ficar claro que os números não lhes eram favoráveis, os Estados Unidos buscaram por duas vezes bloquear Insulza, primeiro apoiando um salvadorenho e depois Derbez.

O processo de seleção foi perseguido por disputas e impasses por meses. Ele finalmente foi a votação em 11 de abril, mas cinco rodadas de votos terminaram em um empate de 17 a 17 entre Insulza e Derbez, uma divisão em grande parte entre Norte e Sul.

Funcionários americanos descreveram Rice, que estava na capital chilena, como tendo intermediado o acordo que permitiu que Insulza declarasse vitória.

Mas alguns diplomatas sul-americanos sugeriram na sexta-feira que a mudança na posição dos Estados Unidos foi um recuo calculado em resposta a alertas a Rice no Brasil e na Colômbia, nesta semana, de que Washington estava correndo o risco de uma derrota potencialmente embaraçosa.

"A secretária Rice apoiou o consenso, e portanto agora sou o candidato dos Estados Unidos", disse Insulza em uma coletiva de imprensa na sexta-feira, ao lado de Rice e Derbez. "Por este motivo, ninguém deve se sentir derrotado."

Insulza também disse que a organização deve ampliar sua missão e começar a "responsabilizar governos que não são governados de forma democrática" por suas ações. Assessores de Rice disseram que ela insistiu em tal linguagem, que claramente é direcionada ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o crítico mais aberto do governo Bush na América do Sul.

A OEA foi fundada em 1948, parte do mesmo esforço americano pós-Segunda Guerra Mundial para construir uma política externa multilateral que também levou à criação de entidades como a Otan.

Os Estados Unidos contribuem com cerca de 60% do orçamento anual de US$ 76 milhões da organização e tradicionalmente exercem um papel dominante no grupo, cujas missões incluem o monitoramento de eleições e mediação de disputas políticas nos países membros.

A decisão de Washington de recuar e apoiar Insulza encerra uma disputa que se tornou "uma verdadeira bagunça, um combate amargo", disse Michael Shifter, um analista sênior de política do Diálogo Interamericano, um grupo de pesquisa sediado em Washington.

"Será necessário muito trabalho, muita diplomacia, para reparar as coisas, mas este processo não tornou exatamente as alegrias do multilateralismo no Hemisfério Ocidental benquistas pelas autoridades americanas", disse Shifter.

O impasse começou a ganhar forma em outubro, quando o recém-escolhido secretário geral, que era apoiado por Washington, o ex-presidente da Costa Rica, Miguel Ángel Rodríguez, renunciou duas semanas após tomar posse para enfrentar as acusações de corrupção em casa.

Os Estados Unidos transferiram seu apoio a outro centro-americano, o ex-presidente de El Salvador, Francisco Flores, mas encontraram imediatamente ampla resistência. Grande parte disto ocorreu devido ao apoio de Washington a Flores ter sido amplamente visto como uma recompensa pelo papel de El Salvador como único país da América Latina a enviar tropas ao Iraque.

Ficou claro que Flores não tinha chance de vencer, e em 8 de abril ele se retirou da disputa. A eleição foi então transformada em uma disputa substituta em torno de Cuba, que foi expulsa da OEA depois que Fidel Castro tomou o poder, e sua principal aliada latino-americana, a Venezuela.

Os Estados Unidos têm repetidamente citado o Chile como exemplo de estabilidade econômica e política para o restante do continente, e um acordo de livre comércio entre os países entrou em vigor no ano passado.

Mas mesmo sendo considerado um moderado, Insulza é nominalmente um socialista, e não apenas defende medidas para trazer Cuba de volta à orgauização como também conta com o apoio de Chávez.

O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, visitou a América do Sul no mês passado, no que foi visto como um esforço para costurar uma coalizão anti-Chávez, mas nada conseguiu.

Rice veio à região nesta semana com praticamente a mesma missão e recebeu a mesma recepção fria de governos para os quais os princípios de não-intervenção e soberania são quase sagrados.

"É contraproducente tanto o que ela está dizendo sobre a Venezuela quanto o que estão fazendo na OEA, mas os Estados Unidos parecem não entender a realidade política e diplomática", disse Riordan Roett, diretor do programa para Hemisfério Ocidental da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados, em Washington.

Se Washington quiser que a América do Sul aja como interlocutora com Chávez, ele acrescentou, "teria sido mais fácil retirar nosso apoio a Derbez e buscar um consenso na OEA".

Ainda assim, Chávez tornou a situação difícil para seus aliados com insultos dirigidos aos Estados Unidos e à organização. Novo secretário-geral defende postura branda com Fidel e Chávez George El Khouri Andolfato

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