UOL Notícias Internacional
 

30/04/2005

Onda de ataques no Iraque mata 40 e fere 100

The New York Times
Richard A. Oppel Jr. e Robert F. Worth*

Em Bagdá, Iraque
Insurgentes determinados a desestabilizar o novo governo do Iraque executaram uma série devastadora de ataques coordenados às forças iraquianas nesta sexta-feira (29/4), detonando 12 carros-bomba na grande Bagdá e atingindo alvos militares pelo país. Ao menos 40 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas.

Alan Chin/The New York Times

Homem passa ao lado de pneu de carro-bomba na região de Bagdá
Os ataques, uma afronta direta ao novo governo dominado por xiitas formado na quinta-feira, tiveram como alvo policiais e guardas nacionais iraquianos, em suas bases ou em comboios, no norte e no sul de Bagdá e em Madaen, 25 km a sudeste da capital.

Morreram pelo menos 23 policiais e soldados iraquianos. Alguns relatórios estimaram o total de mortos em até 50 pessoas.

Mais para o fim do dia, carros-bomba atingiram Diyarah, 32 km ao sul de Bagdá, matando dois soldados americanos. Perto de Taji, ao norte de Bagdá, um suicida matou um soldado americano e feriu dois outros.

Um soldado americano também foi morto e quatro ficaram feridos por uma bomba caseira na noite de quinta-feira em Hawija, 240 km ao norte de Bagdá.

Os ataques na sexta-feira de manhã ocorreram depois de um dia importante e tumultuado para o novo governo. Depois de três meses de atrasos, que deram nova força à insurgência, segundo as autoridades americanas, a aliança dominante xiita conseguiu a aprovação de um novo ministério --não sem antes irritar os líderes políticos sunitas, que disseram que foram trapaceados.

Os xiitas também prometeram uma limpeza de ex-baathistas do governo, medida que certamente levará a um maior distanciamento entre xiitas e sunitas, que conduzem a maior parte da atividade insurgente. Os árabes sunitas dominaram o governo baathista de Saddam Hussein e em grande parte boicotaram as eleições de janeiro.

Com os ataques de sexta-feira, pelo menos 480 policiais e soldados iraquianos foram mortos por insurgentes nos últimos dois meses, de acordo com os números de empresas de segurança ocidentais, autoridades iraquianas e da imprensa local.

Em declarações na Internet, seguidores de Abu Musab Al-Zarqawi, o terrorista mais procurado do Iraque, assumiram a responsabilidade por uma dúzia dos ataques da sexta-feira.

O grupo também divulgou uma gravação de 18 minutos que seria de Al-Zarqawi, estimulando os combatentes, advertindo contra a negociação de paz com os EUA e citando dados do Pentágono sobre as dificuldades em recrutamento militar americano.

Nas ruas, os insurgentes voltaram a usar uma tática cada vez mais comum: explosões seguidas, para matar não só as vítimas da explosão inicial, mas também policiais e transeuntes que correm para ajudar os feridos.

Os ataques começaram pouco após as 8h de sexta-feira, dia sagrado da semana para a maior parte dos iraquianos, com quatro carros-bomba no bairro Adhamiya, distrito sunita no norte de Bagdá, lar de antigos baathistas.

Sete guardas nacionais iraquianos, dois policiais e quatro civis foram mortos e 50 outros ficaram feridos, disse uma autoridade do Ministério do Interior. Outros relatórios disseram que até 20 pessoas tinham morrido.

A primeira bomba de Adhamiya explodiu perto de um restaurante popular, quando passava por ali um comboio iraquiano, disse a polícia. A explosão jogou os destroços do veículo a mais de 30 metros, onde a polícia mostrou partes do corpo do suicida dentro dos destroços carbonizados.

Várias poças de sangue cercavam uma minivan em frente ao restaurante destruído. Um bicho de pelúcia escurecido pela explosão e sandálias de mulher estavam espalhados.

"Foi terrível", disse Muhammad Kadham, trabalhador de 27 anos que correu para a cena. "Havia partes de corpo humano espalhadas. As ambulâncias estavam carregando os feridos." Em meio aos gritos dos policiais ansiosos que tentavam afastar as pessoas, ele disse: "Foi uma loucura."

Poucas horas depois, um carro-bomba foi detonado no distrito de Ghadeer, no sul de Bagdá, ao lado de um comboio que passava com tropas da guarda nacional iraquiana. Quinze minutos depois, um segundo-carro bomba explodiu no mesmo lugar, matando um civil e ferindo quatro soldados e quatro civis, disse uma autoridade do Ministério do Interior.

Em Madaen, uma cidade de choques entre xunitas e xiitas que viu intensa violência sectária e atividade guerrilheira, três carros-bomba explodiram em um ataque coordenado que matou três comandos de polícia, quatro soldados iraquianos e dois civis. Trinta e oito pessoas ficaram feridas, disse a autoridade do ministério.

Em Baquba, um clérigo proeminente, Abdul-Razzaq Hamid Rashid, explodiu a si mesmo com uma granada de mão quando forças de segurança iraquianas tentaram prendê-lo na sexta-feira, disse um policial. Duas bombas caseiras foram detonadas na sexta-feira pela manhã a poucos quilômetros ao norte de Basra, segunda maior cidade do Iraque, matando um guarda de fronteira iraquiano e ferindo outro.

Segundo as forças armadas americanas a violência destinava-se claramente a desacreditar o novo governo. A onda mostrou que mesmo com a calmaria observada depois das eleições de 30 de janeiro os insurgentes continuam de posse de recursos e de estrutura organizacional para montar ataques disciplinados e desmoralizadores.

"Os terroristas provaram que ainda podem executar ou aumentar repentinamente sua capacidade de conduzir ataques limitados", declararam os militares americanos.

O comandante americano das tropas de Bagdá, general William G. Webster Jr., da 3ª Divisão de Infantaria, descreveu os ataques em uma entrevista na CNN como "outra tentativa desesperada de tentar descarrilar o governo democrático emergente".

"Hoje tivemos mais um dos surtos que ocorrem ocasionalmente", disse Webster, acrescentando que sua "mensagem para Zarqawi é que ele não vai vencer".

O número de mortos de sexta-feira poderia ter sido maior. Cinco carros-bomba destinados a delegacias de polícia e outros alvos em Salman Pak e ao leste de Bagdá foram interceptados pela policia iraquiana, disse o coronel Clifford Kent, porta-voz militar em Bagdá. Sete iraquianos suspeitos de envolvimento nos ataques de sexta-feira foram capturados e outro foi ferido, disseram os militares.

Autoridades americanas revelaram novos detalhes de uma cova comum previamente divulgada perto de Samawa, no sul do Iraque, nesta semana. Pelo menos 113 corpos foram exumados, a maior parte crianças e mulheres curdas, de acordo com um relatório fornecido por autoridades americanas. A maior parte das vítimas tinha sido morta por tiros de rifles Kalashnikov.

Há duas semanas, as autoridades iraquianas haviam revelado que o local continha os restos de cerca de 2.000 membros curdos do clã de Massoud Barzani, mortos pelo governo de Saddam.

Foi impossível na sexta-feira verificar a autenticidade da gravação de Zarqawi, mas especialistas disseram que parecia autêntica. O terrorista nascido na Jordânia, que tem uma recompensa de US$ 25 milhões (cerca de R$ 63 milhões) sobre sua cabeça, fez um amplo discurso contra os esforços de "abrir um diálogo" com as forças lideradas pelos EUA. Oficiais americanos confirmaram nesta semana que por pouco não capturaram Al-Zarqawi perto de Ramadi, em fevereiro.

Algumas pessoas que diziam representar grupos insurgentes buscaram os oficiais americanos em Bagdá para iniciar um diálogo, mas foram encaminhadas às autoridades iraquianas. Não está claro como o novo governo negociará com os insurgentes ou como lidará com pedidos de anistia.

"Eles tentaram puxar o tapete de baixo dos pés dos mujahedeen", disse a gravação sobre os governantes. "Eles fizeram uma oferta a alguns derrotistas que fingem ser mujahedeen de estabelecer o núcleo do exército iraquiano em áreas sunitas."

A gravação também discute as dificuldades de recrutamento americano e cita um artigo publicado no Washington Post no dia 19 de março. Desde março que o grupo de Al-Zarqawi faz uma campanha de mídia e costuma divulgar várias declarações em um único dia.

Junto com exortações à luta armada, a declaração incluía uma referência incomum a injustiças cometidas contra árabes sunitas pelo exército e policiais xiitas.

Apesar de Al-Zarqawi e outros insurgentes inicialmente terem voltado seus ataques e oratória contra os americanos, cada vez mais estão atacando os xiitas, que predominam no novo governo e nas forças de segurança iraquianas incipientes.

*Colaboraram Zaineb Obeid e Alan Chin, de Bagdá. Para autoridades dos EUA, objetivo é enfraquecer o novo governo Deborah Weinberg

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