UOL Notícias Internacional
 

30/04/2005

Oposição de Taiwan promete cooperar com China

The New York Times
Joseph Kahn*

Em Pequim
Os líderes do Partido Comunista da China, e do Partido Nacionalista, que é oposição em Taiwan, os dois adversários que se enfrentaram na guerra civil na China, colocaram formalmente um fim a seis décadas de hostilidades na sexta-feira (29/04) com um aperto de mão transmitido em rede nacional de televisão e a promessa de que atuarão em conjunto para enfraquecer o movimento pela independência de Taiwan.

Durante uma elaborada cerimônia no Grande Salão do Povo, em Pequim, transmitida ao vivo pela televisão na China e em Taiwan, Hu Jintao, o líder comunista chinês, elogiou uma visita de uma semana de Lien Chan, de Taiwan, à China afirmando tratar-se de uma reconciliação histórica entre comunistas e nacionalistas, que fugiram para a ilha em 1949, após perderem a guerra civil. Os nacionalistas governaram Taiwan até 2000, e ainda controlam a legislatura.

O encontro é o primeiro entre os líderes dos dois partidos em 60 anos; a última vez que isso aconteceu foi na fortaleza militar de Chongqing, quando Chiang Kai-shek e Mao Tse-Tung fizeram um esforço final e fracassado para chegar a um cessar-fogo.

As duas partes teriam usado a viagem para tentar isolar o presidente de Taiwan, Chen Shui-bian, que venceu duas eleições com base em uma plataforma voltada para a independência do país. Ele agora enfrenta uma aliança incomum entre o partido de oposição da ilha e a liderança comunista chinesa, que o governo de Taiwan ainda chama de inimiga.

Hu se ofereceu para reduzir as taxas de importação, abrir um diálogo militar e conceder um status diplomático ampliado a Taiwan. Mas tais medidas somente entrariam em efeito se o presidente taiwanês aceitasse os termos do acordo ou se os nacionalistas retornassem ao poder em futuras eleições.

Os líderes de Taiwan rejeitaram o acordo, chamando-o de tentativa grosseira de dividir os partidos políticos taiwaneses e de minar o governo eleito.

"As forças armadas da China ainda ameaçam as vidas do povo taiwanês", diz Joseph Wu, presidente do Conselho de Assuntos sobre a China Continental, uma instituição do governo de Taiwan. "E elas não poupam esforços para isolar Taiwan na comunidade internacional".

O galanteio feito à oposição taiwanesa ocorre depois de a China ter aprovado uma lei anti-secessionista que oficializou a antiga ameaça de Pequim de usar "meios não pacíficos" caso Taiwan procure obter a independência formal. Essa medida aumentou drasticamente as tensões na região.

As aberturas têm como intenção suavizar a reação contra a lei anti-secessionista em Taiwan e no exterior, ao abrirem novos canais de comunicação com os políticos da ilha. Mas a China obteve poucos resultados no passado quando tentou influenciar o democrático, e às vezes volátil, sistema político de Taiwan.

"Este é um encontro histórico entre os líderes dos nossos dois partidos", disse Hu após ele e Lien apertarem as mãos em frente às câmeras que transmitiam o evento para os dois países. "Enquanto os as duas partes derem importância aos interesses da nação chinesa e à prosperidade comum dos compatriotas dos dois lados do estreito, seremos capazes de superar as nossas diferenças".

Lien disse que os dois partidos pavimentaram o caminho para a paz e desafiaram Chen, que derrotou Lien em duas eleições presidenciais consecutivas, a aproveitar a oportunidade.

"Acredito que a porta foi aberta", disse Lien aos repórteres.

Hu e Lien disseram ser a favor da retomada de uma aproximação frustrada entre Taiwan e China, que teve início em 1992. Àquela época, a China e os nacionalistas, que estavam no poder, encontraram uma fórmula para dar início a negociações que contornaram as suas diferentes interpretações quanto à soberania de Taiwan.

"Os partidos chegaram a um entendimento mútuo ao sustentarem o consenso de 1992, se opondo à independência taiwanesa e buscando a paz e a estabilidade no mar de Taiwan", disseram comunistas e nacionalistas em um comunicado conjunto divulgado no final da tarde de sexta-feira.

O comunicado disse que segundo esses termos as duas partes trabalhariam para abrir mais o mercado chinês aos produtos taiwaneses, assinar um acordo formal de paz, estabelecer laços entre as forças armadas, e permitir que Taiwan ingresse em instituições internacionais, como a Organização Mundial de Saúde.

A China ofereceu incentivos similares a Taiwan no final do ano passado, caso o governo taiwanês aceitasse a demanda do vizinho continental pela soberania da ilha, algo ao qual Pequim se refere como sendo a sua política de "uma só China".

O significado do acordo de sexta-feira foi que os nacionalistas, que nunca alegaram que Taiwan e China são países separados, trabalharam em conjunto com os comunistas para delinear os benefícios que seriam obtidos caso Taiwan e China parassem de bater-boca quanto à questão da soberania.

Os comunistas e os nacionalistas também aprovaram a idéia de enterrar formalmente a rivalidade mútua, que vigorou durante a Segunda Grande Guerra e a Guerra Fria.

Hu começou a cortejar Lien no início de março, pouco após a China aprovar a lei anti-secessão. Lien, que tem 69 anos de idade, disse que planeja se aposentar neste ano do cargo de presidente do Partido Nacionalista. Um outro político de oposição, James Soong, do pequeno Partido Primeiro o Povo, visitará a China na semana que vem, também a convite de Hu.

A visita de oito dias de Lien começou na terça-feira por Nanjing, a antiga capital nacionalista, e continuará em Xian, o local de nascimento do líder oposicionista, e a seguir em Xangai. Ele teve uma recepção mais pomposa do que aquela concedida à maioria dos chefes de Estado.

A mídia chinesa cobriu extensamente as suas reuniões e comentários públicos. Os editores disseram que o poderoso Departamento de Propaganda ordenou aos jornais que excluíssem qualquer comentário negativo sobre Lien e que transcrevessem as suas falas de forma acurada, deixando de lado a prática comum de modificar ou remover frases que contradizem a política oficial.

As autoridades removeram diversas bandeiras vermelhas chinesas com a foice e o martelo que geralmente pairam acima da Praça da Paz Celestial, de forma que Lien não fosse fotografado tendo ao fundo o símbolo comunista.

Uma foto gigantesca de Sun Yat-Sen, que tanto os comunistas quanto os nacionalistas vêem como um herói chinês, foi colocada em local proeminente na praça, de frente para um retrato de Mao.

Lien não desapontou os seus anfitriões. Ele enfatizou repetidamente os interesses comuns de China e Taiwan em "obter paz e reconciliação".

Durante um discurso sem censura e televisionado ao povo chinês, feito em um salão lotado da Universidade de Pequim, Lien desafiou muito discretamente a China a abrir o seu regime político. Mas, de forma geral, ele defendeu a estratégia do "ganhar-ganhar" para a preservação do status quo nas relações entre os dois lados do estreito e a luta contra o movimento pela independência de Taiwan.

Ele reservou as suas críticas mais contundentes para Chen, a quem acusou de estimular o ódio étnico entre os taiwaneses nativos e os residentes de Taiwan nascidos no continente, como é o seu caso.

"Taiwan costuma ser um local coesivo", disse Lien. "Mas, com o objetivo de manipular os grupos étnicos para a eleição, algumas figuras políticas geram divisões na sociedade".

Os Estados Unidos, que são o maior aliado de Taiwan e que há muito atuam como árbitro das relações entre os países dos dois lados do estreito, aprovaram, em princípio, a viagem de Lien, mas solicitaram à China que abra um diálogo com Chen.

"Esperamos que esse seja o início da iniciativa de Pequim para encontrar novas maneiras de conversar com o presidente Chen e o seu gabinete, já que qualquer solução de longo prazo só será encontrada caso Pequim negocie com a liderança eleita em Taiwan", afirmou na última quarta-feira o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan.

Mesmo assim, analistas chineses elogiaram a viagem, afirmando que ela foi uma iniciativa pioneira, e previram que Chen enfrentará pressões para encontrar a sua própria reconciliação com Pequim.

O impacto da viagem de Lien sobre a política de Taiwan é difícil de ser descrito. A maior parte dos taiwaneses diz ser a favor da posição de Lien quanto às relações entre os dois países. Os nacionalistas conseguiram a maioria legislativa na ilha nas eleições de dezembro passado, e agora estão nitidamente se apresentando como o partido capaz de oferecer benefícios imediatos caso retornem à presidência em 2008.

Mas a maioria dos eleitores disse também que se considera taiwanesa, e não chinesa, e poucos manifestaram interesse na reunificação com a China.

Os nacionalistas correm alguns riscos ao vincularem os seus destinos políticos à China, segundo alguns analistas de Taiwan. Chen ainda conta com flexibilidade para conversar com a China ou manter distância, dependendo do clima doméstico, dizem os analistas.

"O efeito final da viagem de Lien pode ser limitado", diz Pan His-tang, especialista em negociações entre os dois países e professor da Universidade Tamkang, em Taipei. "Isso é algo que pode abrir o diálogo entre os dois partidos, mas não entre os dois lados do estreito".

*Colaborou Chris Buckley, em Pequim. Líder do Partido Nacionalista reúne-se com o presidente Hu Jintao Danilo Fonseca

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