UOL Notícias Internacional
 

01/05/2005

A longa jornada da espaçonave chegou ao fim

The New York Times
Dave Itzkoff
No setor do planeta Terra conhecido como Hollywood, foram apenas negócios como de costume nos estúdios da Paramount. Em um dia ensolarado no início de março, alienígenas de pele verde com zíperes inseridos em seus rostos almoçavam, operários desmontavam a iluminação conhecida "Risco de Isótopo de Tório", e todos se esforçavam para ignorar o fato de que os motores de dobra da espaçonave Enterprise logo seriam desativados, talvez para sempre. "Bem-vindo aos últimos dias de Pompéia", disse um segurança com grande ironia.

Em 13 de maio, o canal UPN exibirá os últimos dois episódios de "Jornada nas Estrelas: Enterprise" (exibida no Brasil pelo canal AXN), a mais recente série derivada daquela que ajudou o definir o gênero ficção científica, criada por Gene Roddenberry há quase 40 anos. As cenas filmadas em março encerrarão a história de uma espaçonave futurista e sua tripulação intrépida, mas o fim de "Enterprise" também coloca em dúvida o futuro de uma venerável franquia de entretenimento que está entrando em um reino onde nenhuma franquia jamais esteve.

Quase desde o momento em que foi cancelada pela NBC em 1969, a "Jornada nas Estrelas" original começou a desafiar as convenções da televisão: um fracasso por três temporadas no horário nobre, ela se tornou um sucesso em "syndication" (a venda para reprise em emissoras locais), gerando uma série de filmes para cinema, um império de merchandising e três seqüências para televisão (os sucessos em syndication "Jornadas nas Estrelas: A Nova Geração", "Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine" e "Jornada nas Estrelas: Yoyager", que ajudou a lançar a rede UPN em 1995, e que são exibidas no Brasil pelo canal Universal).

"Enterprise", uma "prequel" concebida pelos produtores veteranos da série Rick Berman e Brannon Braga, deveria ser a série que conduziria a franquia ao futuro explorando seu passado. "Nós sabíamos que no século 23 o capitão Kirk e o sr. Spock explorariam o universo e estavam à vontade no espaço", disse Berman, que ficou encarregado das propriedades de cinema e televisão após a morte de Roddenberry em 1991. "Mas quem foram as primeiras pessoas a experimentarem um teletransporte? As primeiras pessoas a entrar em contato com espécies alienígenas hostis; quem hesitava em dar estes primeiros passos na galáxia?"

Situada 100 anos antes da primeira série "Jornada nas Estrelas", a bordo de uma versão embrionária da nave que posteriormente conduziria Kirk, Spock e companhia pela galáxia, "Enterprise" fez sua estréia na UPN em 26 de setembro de 2001, para mais de 12,5 milhões de espectadores. Mas ao final de sua primeira temporada, sua audiência foi reduzida pela metade, e ao final da segunda temporada aproximadamente um terço dos espectadores originais ainda estavam assistindo. "As pessoas nunca realmente se interessaram por 'Enterprise'", disse Ronald D. Moore, um membro da equipe de roteiristas das seqüências de "Jornada nas Estrelas" na televisão e que agora é produtor executivo da nova "Battlestar Galactica" do Sci Fi Channel (exibida no Brasil pela TNT). "Ela nunca agarrou as pessoas visceralmente e as segurou, como as outras séries fizeram."

Como explicou Jolene Blalock, que interpretou a oficial vulcana T'Pol em "Enterprise": "As histórias careciam de um conteúdo intrigante. Elas eram tediosas". Uma antiga fã de "Jornada nas Estrelas", Blalock disse que ficou desanimada com os primeiros roteiros de "Enterprise", que pareciam ignorar elementos básicos da cronologia da franquia, e que oferecia trajes reveladores em vez de desenvolvimento dos personagens. "O público não é idiota", disse ela.

Ciente da decepção dos espectadores, os produtores realizaram mudanças significativas para a terceira temporada: uma única trama que transcorreu ao longo de toda temporada, colocando a tripulação da nave contra a maligna raça alienígena chamada Xindi, e Manny Coto, criador da série "Odyssey 5" do canal Showtime, foi trazido como co-produtor executivo. Mas apesar de Coto ter sido amplamente saudado por colegas e fãs por apresentar episódios com qualidade à altura das séries anteriores de "Jornada nas Estrelas", a audiência da série continuou caindo.

Quando chegou a hora de optar por uma nova temporada de "Enterprise", a UPN encomendou menos episódios do que no passado e os exibiu em outro horário. Ainda assim, algumas pessoas mantinham a esperança. "Como atores costumam ser pessoas otimistas", disse Scott Bakula, que interpretou o heróico capitão Archer de "Enterprise", "você pensa, 'talvez se fizermos um ótimo trabalho'. Mas basicamente nós estávamos nos iludindo".

A rede disse que o problema era o fato da maioria dos espectadores de "Enterprise" ser do sexo masculino, diferente dos maiores sucessos da rede, como "America's Next Top Model" e "Veronica Mars". "Ela realmente não se enquadrava no perfil geral, e ficou cada vez mais difícil atrair audiência para aquela série, porque ela não estava acompanhando a programação a semana toda", disse a presidente da UPN, Dawn Ostroff.

À medida que "Enterprise" prepara sua viagem final, seus produtores admitem que encontraram dificuldade para escrever tanto para os fãs dedicados de "Jornada nas Estrelas" quanto para os espectadores não iniciados. "Quando chegou a hora de escrever para a 4ª temporada", disse Coto, "nós estávamos produzindo episódios basicamente voltados para as pessoas que conheciam o universo 'Jornada nas Estrelas'. Nós não estávamos preocupados com as pessoas que não conheciam. Elas não estavam interessadas de qualquer forma".

Mas "Enterprise" também foi atrapalhada pela concorrência das quatro séries "Jornadas nas Estrelas" anteriores, que continuam sendo exibidas no cabo e nas emissoras locais. "A Paramount tem recorrido ao poço com muita freqüência, porque a franquia é uma tremenda fonte de dinheiro para o estúdio, por décadas", disse o antigo ator e diretor de "Jornada", Jonathan Frakes, que reprisa seu personagem de "Nova Geração", o comandante Riker, no final de "Enterprise". "Você pode zapear os canais e sempre haverá 'Jornada nas Estrelas' em algum lugar."

Ao mesmo tempo que "Enterprise" começou a engasgar, a franquia "Jornada nas Estrelas" no cinema entrou em parafuso: o lançamento de 2002, "Nêmesis", foi o primeiro fracasso da série, arrecadando apenas pouco mais de US$ 40 milhões. "Surgiu uma certa percepção de que a franquia não era algo que as pessoas tinham que correr para assistir em qualquer formato", disse Moore, que escreveu os roteiros para os filmes "A Nova Geração" e "Primeiro Contato" da série. "Tal percepção passou a alimentar a si mesma, e então as pessoas se afastaram da série."

Elas podem ter migrado para "Battlestar Galactica" do canal Sci Fi (que conseguiu cerca de 2 milhões de espectadores em sua primeira temporada neste inverno) e "Dead Zone" (O Vidente) do USA (SBT e AXN no Brasil, que apresentou uma média de quase 3,5 milhões de espectadores no verão passado.) "É como se houvesse um certo número de fãs de ficção científica, e é este", disse Coto. "É um gênero que tem apelo junto a um certo tipo de indivíduo, e não há muitos deles."

Neste outono, pela primeira vez em 18 anos, não haverá um episódio original de "Jornada nas Estrelas" na televisão; um novo filme para o cinema dificilmente se materializará antes de 2007 e 2008. A Paramount Network Television confirmou que não há prazo para o desenvolvimento de uma nova série, e nenhuma equipe criativa está contratada para desenvolvê-la. E apesar do elogio quase universal que obteve por manter "Enterprise" à tona, Coto disse que ninguém o abordou sobre um futuro envolvimento na franquia "Jornada nas Estrelas". "Sinceramente, é um tanto decepcionante", disse ele. "Eu não acho que muitas pessoas encarregadas no momento estão tão interessadas em falar sobre a próxima coisa."

Em seu escritório no Prédio Gary Cooper na Paramount Pictures, atrás de uma porta com uma placa que diz "Por favor fale baixo, massagem em andamento", Berman continua notavelmente otimista para um homem que freqüentemente é ameaçado de agressão física em murais de Internet. Ele iniciou o trabalho preliminar para um potencial novo filme de "Jornada nas Estrelas", mas, ele disse, "eu não estou certo se estarei envolvido na criação da próxima série 'Jornada nas Estrelas'. Eu não tenho a menor idéia de quando isto irá acontecer, e pode muito bem ser alguém novo que ficará encarregado dela".

E enquanto falava da visão otimista que Roddenberry apresentou na série "Jornada nas Estrelas" original, uma na qual os principais problemas terrenos da humanidade tinham sido resolvidos e as maravilhas infinitas do universo aguardavam pela humanidade, Berman expressou uma esperança semelhante para o futuro da própria "Jornada nas Estrelas". "Você pode ir a qualquer lugar no mundo e as pessoas sabem o que significa 'Beam me up, Scotty' ou o que é um klingon", disse Berman. "Eles não desaparecerão."

Mas algumas pessoas que estão partindo do universo Jornada nas Estrelas, como Blalock, pareciam aliviadas por estarem livres de ter que acordar de madrugada para o início da maquiagem e das próteses de orelhas pontudas: "Nós, as garotas no set, sempre brincávamos: 'Nós estaremos bonitas depois que tudo isto terminar. Após nos livrarmos da palidez e exaustão'". George El Khouri Andolfato

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