UOL Notícias Internacional
 

01/05/2005

Irã ameaça retomar planos de combustível nuclear

The New York Times
David E. Sanger

Em Washington
Apenas 48 horas antes de representantes de 189 países se reunirem na ONU para analisar as falhas no Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o Irã ameaçou no sábado retomar a produção de combustível nuclear, e a Coréia do Norte disse que o presidente Bush era um "filisteu com o qual nunca poderemos negociar".

A conferência que terá início na segunda-feira visava oferecer esperança de fechar as enormes brechas no tratado, que os Estados Unidos dizem que o Irã e a Coréia do Norte têm explorado para produzir armas nucleares. Em vez disso, a sessão parece em um impasse antes mesmo de começar, segundo altos funcionários americanos e diplomatas que estão se preparando para ela em Nova York.

Já virtualmente morta, disseram os funcionários, está a proposta do dr. Mohamed ElBaradei, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, que imporia uma moratória de cinco anos a qualquer enriquecimento de urânio e reprocessamento de plutônio. Estas atividades são os dois principais caminhos para uma arma nuclear. Mas os Estados Unidos, Japão e França eram contra a moratória, assim como o Irã.

O Irã, um signatário do tratado, declarou no sábado que as negociações com a União Européia quanto ao futuro de seu programa nuclear fizeram tão pouco progresso que o país poderá encerrar sua suspensão voluntária do enriquecimento de urânio, que os Estados Unidos acreditam que será empregado para uso em armas. Hassan Rowhani, o principal negociador iraniano, disse que na próxima semana a liderança do país tomará "a decisão definitiva sobre se retomará ou não o enriquecimento de urânio".

Enquanto se preparam para uma eleição em junho, os líderes do Irã argumentam que o país nunca abrirá mão de seu direito -permitido pelo tratado- de enriquecer urânio para fins pacíficos. Mas Bush tem citado o Irã como um exemplo de país que está usando o tratado para alimentar um programa encoberto de armas, e os assessores do presidente argumentarão em Nova York que, devidamente interpretado, o tratado deve proibir o Irã de qualquer atividade nuclear porque ele escondeu muitas de suas atividades dos inspetores por 18 anos.

"A situação do Irã se tornou muita séria nos últimos dias", disse um alto diplomata europeu no sábado. "Nós achamos que estão prestes a começar de novo", disse o diplomata, apesar de que poderão começar retomando a produção de uma forma bruta de urânio que, até ser enriquecida, não pode ser usada em armas.

Enquanto isso, em sua coletiva de imprensa na noite de quinta-feira, Bush chamou Kim Jong Il, o líder da Coréia do Norte, de "tirano" e disse que ele mantém "campos de concentração". E insistiu que os Estados Unidos prosseguirão nas negociações sobre o programa nuclear norte-coreano. A declaração da Coréia do Norte no sábado de que não pode negociar com Bush foi sua primeira resposta.

Funcionários americanos de inteligência disseram na sexta-feira que estavam cada vez mais preocupados com a perspectiva da Coréia do Norte estar preparando um teste nuclear que encerrará o debate sobre se dominou ou não a tecnologia para construção de ogivas nucleares. O país se retirou do Tratado de Não-Proliferação Nuclear há dois anos e expulsou os inspetores internacionais. Isto exibiu outra falha no tratado: ele permite que os países desenvolvam programas nucleares para fins pacíficos e então, com um aviso prévio de 90 dias, se retirem do tratado. Isto significa que podem desenvolver instalações dentro do tratado e depois transformá-las em programas de armas.

Após a retirada da Coréia do Norte, Bush tem liderado as críticas internacionais ao tratado, argumentando em um discurso de fevereiro de 2004 que o Irã e a Coréia do Norte -países que obtiveram a tecnologia nuclear a partir da rede ilícita formada por Abdul Qadeer Khan, o engenheiro nuclear paquistanês- são exemplos claros de como o tratado ruiu.

Mas no ano que se seguiu, Bush e seus assessores decidiram não pedir para que o tratado fosse reescrito. Eles temem que isto afastaria o foco do Irã e da Coréia do Norte e favoreceria os países que se queixam de que o tratado atual é tendencioso a favor dos países que já possuem grandes arsenais nucleares, que tem sido vagarosos em cumprir seus compromissos de reduzir tais arsenais a zero. Como resultado, Bush está enviando apenas funcionários de escalão médio para a abertura da conferencia em Nova York.

"Eu estou contente com o fato de que parece haver um consenso de que temos um problema", disse Stephen G. Rademaker, o funcionário do Departamento de Estado que liderará a delegação americana. "Há um problema com o ciclo do combustível nuclear e a capacidade que ele pode dar àqueles que têm armas nucleares ou que as querem."

Rademaker se encontra na posição desconfortável de ter que concordar com o Irã em um ponto: que a moratória sobre novas atividades nucleares deve ser evitada. O Irã é contra a proposta porque mataria suas ambiciosas instalações nucleares. Mas importantes países industrializados -incluindo os Estados Unidos, Japão e França- também são contra. O Japão e a França investiram bilhões de dólares em novos programas para reprocessamento de combustível nuclear gasto para sua reutilização em reatores de nucleares.

Rademaker, em uma entrevista, afastou qualquer comparação entre as posições dos Estados Unidos e do Irã. "O ponto principal nisto é que nenhum país chave neste debate endossou a proposta de moratória de ElBaradei", disse ele.

Bush, cuja aversão a grandes fóruns da ONU é conhecida, escolheu uma forma diferente de tratar das enormes brechas no tratado: ele está buscando um acordo junto a um clube menor, chamado Grupo de Fornecedores Nucleares, para cortar a venda de equipamento nuclear para países como o Irã e a Coréia do Norte. Tal acordo ainda não foi fechado dentro do grupo, que é composto de países tecnologicamente avançados e que geralmente se reúnem em segredo. Bush também organizou um grupo de países em uma parceria chamada Iniciativa de Segurança de Proliferação, para apreender cargas com vínculo nuclear enquanto passam por portos e aeroportos de alguns países.

Tal abordagem visa contornar a ONU e evitar submeter os Estados Unidos a um amplo debate sobre se estão cumprindo suas próprias obrigações segundo o tratado. Como parte da grande barganha do tratado, países não nucleares concordam em desistir de adquirir armas, enquanto os Estados Unidos e outras potências nucleares estabelecidas concordam na eventual eliminação de seus próprios arsenais. Mas nenhum prazo é estabelecido. (Israel, Índia e Paquistão nunca assinaram o tratado e, assim como a Coréia do Norte, não estarão oficialmente representados na conferência.)

"O governo quer usar o encontro para apontar para o Irã e à Coréia do Norte, e grande parte do resto do mundo quer usá-la para dizer que o governo Bush está flagrantemente zombando de suas próprias responsabilidades", disse Graham Allison, um especialista nuclear da Escola Kennedy de governo em Harvard, que já escreveu extensamente sobre a proliferação de armas nucleares. "Parte disto se deve ao fato de sermos o Sr. Grande, e porque conferências com esta são lugares para se queixar do unilateralismo."

Mas um colega de Allison em Harvard, Matthew Bunn, vê a situação de Bush um pouco diferente: "Você só obtém as restrições no resto do mundo se você aceitar mais restrições impostas a nós".

Ele notou que a última conferência de revisão do tratado, em 2000, terminou com uma declaração política de "13 passos" para o desarmamento nuclear que foi endossada pelo governo Clinton, mesmo sem entusiasmo perceptível. Eles incluíam a manutenção do Tratado de Mísseis Antibalísticos -que foi abandonado pelo governo Bush- e uma ratificação de um abrangente tratado de proibição de testes, ao qual Bush também se opõe. Rademaker disse que os objetivos de 2000 foram "adotados em uma época diferente, em um ambiente de segurança diferente e em um governo diferente", e argumenta que muitos não mais se aplicam.

"Nós agora substituímos o Tratado de Mísseis Antibalísticos pelo Tratado de Moscou", ele notou, se referindo ao tratado com a Rússia. "Isto compromete todos os lados a uma redução de dois terços de nossos arsenais nucleares. Este é um tratado de estabilização", disse ele, que será apresentado em Nova York como um passo para as metas estabelecidas no tratado de não-proliferação.

Rademaker disse que sua meta na conferência é "apresentar formas de reforçar o regime sem reescrever o regime". Mas como a conferência opera por consenso -o que significa que países como o Irã essencialmente terão poder de veto- as expectativas do governo Bush são claramente mínimas.

A conferência durará até 27 de maio, o que significa que os dramas do Irã e da Coréia do Norte se desenrolarão enquanto prossegue a sessão.

O principal candidato à presidência do Irã, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, disse na sexta-feira, durante os sermões de oração na Universidade de Teerã, que o Irã buscará o enriquecimento de urânio "a todo custo".

O Irã, disse ele, "se considera forte o bastante para defender seus direitos". Se referindo aos europeus, ele disse que o país não deixará outros países imporem qualquer suspensão permanente do enriquecimento de urânio.

"Nós seremos pacientes e prosseguiremos nestas longas e infrutíferas negociações até vocês serem persuadidos que não estamos buscando armas nucleares", disse ele. George El Khouri Andolfato

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