UOL Notícias Internacional
 

03/05/2005

Bush mantém silêncio sobre genocídio em Darfur

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Em Nova York
NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
Finalmente, finalmente, finalmente o presidente Bush está revelando um pouco de interesse em agir com relação ao genocídio em Darfur [região no Sudão]. E esse interesse está sendo usado para acabar com o genocídio de centenas de milhares de aldeões? Não, tragicamente, o interesse é impedir que o Congresso tome alguma medida.

Incrivelmente, o governo Bush está lutando para acabar com a Lei de Responsabilidade de Darfur, que seria a medida mais vigorosa tomada até agora pelos Estados Unidos contra o genocídio.

A lei, aprovada pelo Senado, prevê iniciativas como o congelamento dos bens dos líderes do genocídio e a imposição de uma zona de interdição de espaço aéreo, imposta por forças internacionais, para impedir o exército sudanês de atacar as vilas.

A Casa Branca acordou do seu estupor e indiferença com relação a Darfur para enviar uma carta, da qual consegui uma cópia, aos líderes no Congresso, instruindo-os a retirar da legislação as medidas relativas a Darfur.

Bush poderia refletir sobre uma frase do presidente Kennedy: "Os locais mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que em um período de crise moral mantêm a sua neutralidade".

Apesar dos esforços no sentido de bloquear a ação congressual, existem outros sinais de que o governo está tentando recuar em relação a Darfur.

O primeiro sinal surgiu quando Condoleezza Rice deu uma entrevista ao jornal "The Washington Post", na qual se esquivou das perguntas referentes a Darfur e minimizou o número de soldados da União Africana necessários na região.

Depois, no Sudão, o secretário de Defesa, Robert Zoellick, se recusou explicitamente a repetir a conclusão manifestada anteriormente pelo governo de que a matança equivale a um genocídio.

Zoellick também citou uma estimativa absurdamente reduzida do número total de mortes em Darfur: entre 60 mil e 160 mil. Todas as outras estimativas sérias são muitas vezes mais elevadas. A última, divulgada pela Coalizão pela Justiça Internacional, chega a quase 400 mil, e aumenta em 500 a cada dia.

Essa não é uma questão partidária, já que os republicanos e a direita cristã foram os primeiros a soar o alarme quanto à carnificina em Darfur. Como resultado, muito antes de os democratas tomarem pé da situação, Bush estava telefonando ao líder do Sudão e pressionando por um cessar-fogo no país.

Mais tarde, Bush chamou abertamente a matança de genocídio, e continuou a apoiar o passo crucial que é o envio de uma força maior da União Africana para proporcionar segurança. Apenas essas pequenas medidas tomadas por Bush provavelmente salvaram centenas de milhares de vidas.

Assim, por que Bush está tão relutante em fazer um pouco mais e salvar talvez centenas de milhares de outras vidas? Sinto que há três motivos para isso.

Primeiro, Bush não enxerga nenhuma solução simples, e ele está preocupado com o fato de o seu pai ter enviado tropas à Somália por razões humanitárias, terminando por se envolver em uma confusão.

Segundo, Bush se orgulha bastante --e com razão-- de ter ajudado a garantir a paz em uma outra guerra entre o norte e o sul do Sudão. Tal paz é muito frágil, e ele está preocupado com a possibilidade de que pressionar o Sudão com relação a Darfur possa perturbar essa paz e, ao mesmo tempo, pouco fazer além de encorajar os rebeldes de Darfur (alguns deles assassinos que não estão negociando seriamente).

Terceiro, os líderes do Sudão aumentaram a sua cooperação com a CIA.

Conforme revelou o jornal "Los Angeles Times", a CIA recentemente trouxe o chefe da inteligência sudanesa para Washington para consultá-lo sobre a guerra contra o terror, e a Casa Branca não quer colocar esse canal em risco.

Todas as três preocupações são legítimas. Mas quando os historiadores examinarem retrospectivamente a sua presidência, irão se concentrar na forma como Bush se esquivou de agir enquanto centenas de milhares de pessoas eram assassinadas, estupradas ou mutiladas em Darfur --e, se a situação piorar, o número final pode chegar a um milhão de mortos.

Nesta quinta-feira (5/5), teremos o Dia da Memória do Holocausto. A melhor ação memorial para os norte-americanos seria protestarem contra o fato de o governo revelar a mesma falta de interesse por Darfur que Franklin Delano Roosevelt demonstrou em relação ao genocídio de judeus.

No fim das contas, a pressão popular poderia obrigar Bush a responder ao problema em Darfur, mas parece que, para agir, ele precisará ser arrastado, gritando e esperneando, tanto pelos republicanos quanto pelos democratas.

É verdade que a situação de Darfur desafia as soluções fáceis. Mas Bush foi eloqüente e ativo nesta primavera com relação a um outro caso complexo, o de Terry Schiavo. Quem dera que Bush se empenhasse tanto para salvar as vidas de dois milhões de pessoas expulsas de suas moradias em Darfur.

Assim, começarei a tomar nota do período de indiferença de Bush. A última vez em que o presidente deixou que a palavra Darfur escapulisse da sua boca em público (para fazer um cumprimento passageiro a funcionários de ajuda humanitária dos Estados Unidos, e não para denunciar os assassinatos) foi em 10 de janeiro.

Portanto, esta terça-feira (3 de maio) é o 113º dia de silêncio de Bush em relação ao genocídio que ocorre durante a sua presidência. O presidente parece importar-se cada vez menos com as vítimas Danilo Fonseca

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