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03/05/2005

Cientistas estudam portadores de HIV que mantêm a saúde mesmo sem tratamento

The New York Times
Carol Pogash

Em San Francisco, Califórnia
Antes de surgirem medicamentos antivirais poderosos, Kia Brothers perdeu seu parceiro e muitos amigos com Aids. Achando que seria o próximo, largou o emprego, gastou o que estava guardando para a velhice e esperou a morte.

Peter DaSilva/The New York Times

Kia Brothers (à esq.) conversa com o médico e pesquisador Jay Levy sobre sua resistência ao HIV, mesmo sem se submeter a tratamentos
Nada aconteceu.

Passaram-se 16 anos desde que descobriu que tinha o vírus do HIV. Desde então, nunca tomou drogas contra a Aids nem teve doenças associadas. Apesar da sorte, Brothers sente-se isolado.

"Não me identifico com as pessoas sem o vírus HIV, porque o tenho --poderia infectar alguém. Também não me identifico com as pessoas soropositivas, porque não tenho problemas de saúde nem tenho que tomar remédios --coisas com que eles têm que se preocupar", disse ele.

Uma vez por mês, Brothers visita o laboratório de Jay Levy, professor da Universidade da Califórnia em San Francisco, diretor do laboratório de pesquisa com câncer e Aids. Desde o início da epidemia em 1981, Levy vem tentando entender como Brothers e outras pessoas que carregam o HIV conseguem continuar vivendo décadas sem remédios, enquanto as pessoas soropositivas desenvolvem Aids em 10 anos, em média, se não forem tratadas.

A resposta dessa questão pode ajudar no desenvolvimento de uma vacina.

Por ser um sobrevivente, como são chamados os casos soropositivos que não desenvolvem Aids por longo prazo, Brothers, 42, é uma anomalia requisitada. Levy acredita que cerca de 5% das pessoas com HIV permanecem saudáveis depois de 10 anos sem remédios.

Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas diz que essas pessoas com HIV que não precisam de tratamento têm tão poucos vírus em seu sangue que não são detectadas facilmente. Ele acredita que isso acontece muito raramente, em torno de 0,2 a 0,4% dos casos.

Independentemente da percentagem, localizar esses indivíduos é difícil.

No início, um voluntário da pesquisa de Levy passeava pelos bares gays procurando sobreviventes. Atualmente, vários dos participantes em sua pesquisa fazem parte de outros estudos, aqui e no Instituto de Doenças Infecciosas em Bethesda, Maryland.

Sobreviventes de longo prazo existem há muito, disse Mike McCune, pesquisador do Instituto de Virologia e Imunologia Gladstone. "Só não sabemos o que fazem", disse ele.

Martin Delaney, fundador do Project Inform, uma organização de informações sobre o HIV com sede em San Francisco, disse: "O que desaponta é que não há um consenso sobre o que está salvando os sobreviventes. Coisas diferentes explicam pessoas diferentes."

Durante muitos anos, disse Brothers, ele se sentiu culpado. Antes de descobrir sua infecção, a igreja estimulava-o a doar sangue quatro vezes por ano. O banco de sangue descobriu que um de seus doadores era HIV positivo e pediu que todos fossem examinados. Relutante em saber a verdade, Brothers recusou-se e parou de doar sangue.

Em retrospectiva, Brothers, que teve algo parecido com uma gripe em 1981, sintoma da infecção do vírus, acredita que era HIV positivo antes de começar a doar sangue.

"Talvez eu tenha contribuído a levar dezenas de pessoas a contraírem o vírus e morrerem", disse ele em entrevista.

Por muito tempo ele quis participar de alguma pesquisa. Há cinco anos, alguns amigos lhe falaram do projeto de Levy. Mesmo quando a Aids era uma sentença de morte, Levy sabia que todo vírus tinha seus sobreviventes.

O pesquisador acreditava que poderia descobrir alguma coisa com aqueles que conseguiam controlar os vírus.

Alguns dos participantes de sua pesquisa carregam o HIV há 27 anos, desde antes do início da epidemia. A data da infecção foi confirmada pelo Departamento de Saúde Pública de San Francisco, que fez um estudo de hepatite B em 1978 com 6.704 homossexuais e guardou uma amostra de seu sangue.

Com o tempo, alguns desses sobreviventes começaram a apresentar uma progressão lenta da doença, vindo a morrer em decorrência da Aids. No entanto, há ainda uma dúzia de infectados saudável há mais de 20 anos sem tratamento.

Em 1986, Levy descobriu que as células brancas sangüíneas chamadas CD8 dos sobreviventes secretavam quantidades minúsculas de um fator antiviral que impedia a replicação dos vírus nas células, mas não as matavam. Quanto maior a atividade antiviral, mais saudável o indivíduo.

Levy dedicou sua carreira a tentar determinar qual era esse fator. "Foi a coisa mais difícil que tentei fazer", disse ele.

Quando David Ho, fundador do Centro de Pesquisa de Aids Aaron Diamond, publicou que tinha encontrado a substância, Levy disse que estava errado.

Repetidamente, Levy disse aos colegas que estavam enganados. Ele, porém, reconhece suas dificuldades: "Depois de um tempo eles disseram: 'O Levy o tempo todo nos diz o que não é, mas não diz o que é'", disse ele.

Com os anos, muitas pessoas começaram a questionar os resultados, disse Fauci. "Tentei encontrar o fator, e não sei o que é", disse Fauci. "Posso demonstrar o fenômeno, mas não isolar o fator."

Há dez anos, Robert C. Gallo, co-descobridor do vírus da Aids e diretor do Instituto de Virologia Humana e Divisão de Ciência Básica do Instituto de Biotecnologia da Universidade de Maryland, disse que estava "cheio" de esperar os resultados de Levy.

Gallo partiu para a pesquisa junto com Paolo Lusso e descobriu três substâncias químicas, chamadas quemoquinas que inibem um subconjunto do vírus, como "seguranças em uma boate", dsise. As substâncias estavam presentes no sangue dos infectados que não apresentaram a doença por longo tempo.

Ele não encontrou o misterioso fator de Levy. Mas a pesquisa de Gallo abriu um novo campo de terapia. Em 1996, quando um tratamento melhor tornou-se disponível e as pessoas com HIV passaram a viver mais, o interesse pelo fator que permitia que alguns sobrevivessem tanto tempo diminuiu. Mas quando ficou clara a necessidade de uma vacina, o interesse rebrotou, disse McCune.

Muitos pesquisadores concentraram-se nos últimos estágios da Aids, mas McCune considera isso comparável a tentar entender uma antiga civilização examinando suas ruínas. Ele e outros agora se concentram nos primeiros estágios da infecção. Ao estudar os assim chamados sobreviventes, estão se perguntando que tipos de resposta imune são úteis contra o HIV.

"A principal coisa que os sobreviventes nos ensinam é que não é uma questão só do vírus, mas também do hospedeiro", disse ele.

Eric Rosenberg, médico de doenças infecciosas e professor assistente em Harvard que estuda os primeiros estágios da infecção, compara as células CD4 a generais em uma trincheira. Na maior parte das pessoas infectadas, os generais param de mandar os "soldados" CD8 matarem as células infectadas. Mas, nos resistentes, as células CD4 continuam a dar ordens.

Apesar de muitos sobreviventes atribuírem sua saúde a exercícios diários, otimismo, visualização ou ingestão de clara de ovo, Levy disse que é tudo genética. Quando seus voluntários na pesquisa lhe perguntam por que estão sobrevivendo, ele responde: "Você escolheu os pais certos."

Mark Connors, do Laboratório de Imunoregulação do Instituto de Doenças Infecciosas, trabalha com 19 voluntários em todo o país.

"Muitos deles são verdadeiros altruístas", disse ele. "São pessoas muito saudáveis", mas deixam suas carreiras para participar dos estudos.

Robert, programador de computador, apresentou-se para tirar sangue no laboratório de Levy. Ele disse: "Sinto que devo fazer uma contribuição ao passar por essa vida". Robert, que não quis revelar seu último nome para proteger sua privacidade, está saudável e não toma remédios desde que foi infectado, há 19 anos.

Estar em boa saúde, depois de muitos de seus amigos terem morrido, de alguma forma parece errado. Ele carrega "um horrível segredo". "Pareço saudável mas sou hospedeiro. Você está carregando uma coisa fatal, mas que não é fatal para você."

Esses sobreviventes estão "nos dizendo que existe algo que não estamos vendo com relação ao funcionamento do sistema imunológico", disse Connors.

Noventa e cinco por cento daqueles cuja doença não progride têm um gene que codifica moléculas que permitem o sistema imune reconhecer as células infectadas. Apenas 10% dos que desenvolvem a doença têm esse gene.

Enquanto os pesquisadores buscam mais informações, Brothers mudou sua vida. Tem um relacionamento estável, comprou uma casa e está guardando dinheiro para a aposentadoria.

"Quero ter para o futuro", disse ele. "Planejo estar aqui no longo prazo." Eles se infectaram há 20 anos, nunca se trataram e estão saudáveis Deborah Weinberg

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