UOL Notícias Internacional
 

03/05/2005

EUA exigem que Irã desmonte programa nuclear

The New York Times
Por David E. Sanger

Na sede da ONU, em Nova York
As divergências entre o Irã e os Estados Unidos, que já eram grandes, ampliaram-se consideravelmente nesta segunda-feira (2/5), quando representantes da administração Bush, na abertura de uma conferência sobre o futuro do Tratado de Não-proliferação Nuclear, exigiram que o Irã desmantelasse todas as "infra-estruturas e todos os equipamentos" que construiu ao longo das duas últimas décadas para fabricar material nuclear.

O pedido, que foi formulado por Stephen Rademaker, um subsecretário de Estado que interveio durante a abertura da conferência, no hemiciclo da Assembléia Geral, na tarde desta segunda-feira, foi feito perante os líderes e os responsáveis das Nações Unidas. Mas ele ocorre apenas dois dias depois de o Irã ter ameaçado retomar uma parte das suas atividades de produção (nuclear) nas próximas semanas.

No quadro das suas negociações com a União Européia em torno do futuro do seu programa nuclear --o qual o Irã insiste que ele não tem outro objetivo, a não ser a produção de eletricidade-- o governo iraniano declarou que ele precisa de uma autorização para instalar 3 mil centrífugas, as quais servem para enriquecer o urânio.

Caso ele seja enriquecido em níveis reduzidos, este urânio poderia alimentar uma central nuclear destinada a produzir eletricidade. Contudo, as centrífugas poderiam também produzir urânio altamente enriquecido, em quantidade suficiente para fabricar armas nucleares.

O discurso que Stephen Rademaker pronunciou nesta segunda-feira teve por objetivo de fazer com que fossem salientados durante a conferência os "buracos" e as falhas existentes neste tratado que já completou 35 anos de existência, os quais ele acusou o Irã e a Coréia do Norte de terem explorado.

"Hoje, o tratado está enfrentando o desafio mais sério da sua história em razão desses casos de não cumprimento", disse o subsecretário.

Embora os especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica já tivessem declarado que ainda não foram encontradas provas concretas da existência de um programa visando à fabricação de armas nucleares no Irã, Rademaker afirmou que não existem dúvidas em relação ao que o Irã já realizou, nem a respeito de como ele conseguiu auxílio para tanto.

"No decorrer de quase duas décadas, o Irã desenvolveu um programa clandestino de fabricação de armas nucleares, contando com a colaboração da rede ilícita dirigida por A.Q. Khan", declarou Rademaker, referindo-se a Abdul Qadeer Khan, diretor do laboratório de pesquisas nucleares do Paquistão, e considerado o "pai" do programa nuclear deste país.

Um inquérito apurou que Khan estava no centro de uma enorme rede especializada em vender tecnologia nuclear no mercado negro.

Rademaker ainda ofereceu a primeira confirmação pública, por parte da administração Bush, de que A.Q. Khan também comercializou projetos prontos de armas nucleares --em referência a uma planta chinesa para a construção de uma arma nuclear que a rede de Khan fornecera para a Líbia--, embora ele se recusasse a precisar se o Irã também teria tido acesso a este projeto.

"Nós estamos convencidos de que a partir do momento em que os líbios estiveram de posse de tal projeto, os iranianos também o receberam", declarou recentemente um alto-funcionário dos serviços de inteligência americanos. "Mas será que nós temos provas disso? Ainda não".

Por muito tempo, a administração Bush andou exigindo que a Coréia do Norte desmantele todas as suas instalações nucleares. Além disso, em Washington, os assessores de Bush acusaram o presidente Clinton de ter cometido um grave erro, em 1994, ao assinar um acordo com a Coréia do Norte que não exigiu das autoridades deste país que elas desmantelassem as suas instalações, nem que elas remetessem todo o seu material nuclear para fora do país.

A Coréia do Norte recusou-se a atender a estes pedidos, retirou-se do tratado de não-proliferação nuclear em 2003, e agora garante ter reprocessado todo o seu estoque de combustível nuclear usado para utilizá-lo na fabricação de armas nucleares.

Aqui, nesta conferência, existe uma preocupação considerável em relação à possibilidade de o Irã seguir este mesmo caminho.

O seu principal negociador para assuntos nucleares declarou nesta sexta-feira (29/04) que, na semana seguinte, os dirigentes do Irã decidirão se o país vai retomar a produção de uma forma de urânio que possa ser empregada nas centrífugas para fins de enriquecimento.

Tanto os funcionários da administração americana quanto os da Agência Internacional de Energia Atômica disseram estar preocupados com o fato de que, à medida que as eleições no Irã, agendadas para junho, se aproximam, um movimento politicamente popular visando a retomar o programa nuclear possa acelerar este processo.

Rademaker especificou as exigências americanas, acrescentando que toda e qualquer solução "precisa incluir o cancelamento permanente de todos os esforços do Irã visando ao enriquecimento ou ao re-processamento do urânio, assim como o desmantelamento das instalações e dos equipamentos relacionados a esta atividade".

A disputa em torno do que se deve ou não permitir ao Irã de fazer é emblemática dos desafios que estão à espera dos responsáveis pela revisão do tratado, a qual acontece a cada cinco anos.

Os 184 signatários do tratado que não possuem armas nucleares --ou que desistiram de tê-las-- insistem sobre o fato de que os termos centrais das negociações que resultaram no acordo de 1970 permitem que qualquer um dos signatários construa instalações nucleares, com a condição de que estas tenham finalidades pacíficas.

O tratado atribui à Agência Internacional da Energia Atômica a responsabilidade por inspecionar essas instalações de modo a garantir que elas não estejam sendo transformadas em ferramentas para a produção de armas.

Os signatários também acusam os Estados Unidos de estarem violando o tratado ao falharem no cumprimento de um compromisso segundo o qual todos os países detentores de armas nucleares devem agir no sentido de eliminar os seus arsenais.

Em resposta, Rademaker garantiu que atualmente, progressos neste sentido têm sido realizados --indicando que o Tratado de Moscou, que Washington assinou três anos atrás com a Rússia exige importantes reduções do número de ogivas nucleares instaladas até 2012.

Mas o subsecretário americano não mencionou a cláusula do tratado que, segundo constatam os críticos, permite que os Estados Unidos mantenham milhares de ogivas nucleares suplementares estocadas, mesmo que elas não estejam operacionais.

O tratado tampouco deixa claro o que acontecerá depois de 2012, embora Rademaker tivesse sublinhado, numa entrevista nesta sexta-feira, que "ninguém tem qualquer intenção de reconstruir o arsenal".

Diante de divergências tão marcadas entre os países detentores de armas e os não-detentores, Kofi Annan, o secretário-geral das Nações Unidas, e Mohamed ElBaradei, o diretor geral da Agência Internacional da Energia Atômica, tentaram nesta segunda-feira encontrar um meio-termo.

Annan afirmou que todos os antigos rivais da guerra fria precisam se comprometer "a promoveram cortes adicionais nos seus arsenais, de maneira que as ogivas nucleares sejam contadas por centenas, e não por milhares".

Por sua vez, ElBaradei procurou diminuir as preocupações dos países não-detentores de armas que temem se verem alijados da tecnologia nuclear como resultado dos esforços crescentes para evitar que países tais como o Irã ou a Coréia do Norte dominem esta tecnologia.

ElBaradei acrescentou que a sua agência precisava dispor de direitos mais amplos para poder inspecionar quaisquer instalações caso ela achasse por bem fazê-lo.

Além disso, ele alertou os países detentores de armas nucleares para a necessidade de implantarem formas de controle mais rígidas em torno das tecnologias mais sensíveis.

Mas ele também repetiu o seu apelo para que sejam definidas garantias de que todo país que viesse a precisar da tecnologia para a construção de reatores ou de material nuclear para a geração de energia, pudesse adquiri-los sem maiores dificuldades, explicando que este é "um pré-requisito claro" para a aceitação de controles internacionais do uso dessas tecnologias. Crise pode inviabilizar acesso à tecnologia até para fins pacíficos Jean-Yves de Neufville

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