UOL Notícias Internacional
 

03/05/2005

Pesquisa que aprova o excesso de peso aumenta polêmica em torno da obesidade

The New York Times
Timothy Egan

Em Las Vegas
Leia também:
  • Excesso de peso pode reduzir risco de morte, diz pesquisa

    No coração de Las Vegas, cercados de imitações de Paris, Veneza, Nova York e de bufês suficientes para empanturrar um exército, Phil Goss e sua mulher, Mary, avaliavam as tentações do meio dia.

    Peter DaSilva/The New York Times

    Homem enche dois pratos para seu almoço e justifica-se com a pesquisa que "absolve" o sobrepeso
    Ela estava de dieta. Ele estava pensando em fazer uma. Mas, diante das opções --bolos frescos, filés cobertos de molho, todos os tipos de pratos típicos-- desistiu. Um artigo recente ajudou na decisão, sugerindo que as pessoas um pouco mais gordas vivem mais do que as magras.

    "É assim: se você pudesse dirigir sem nunca parar em um sinal vermelho, você o faria", disse Goss, advogado de Miami. "Digamos que esse estudo tenha diminuído minhas chances de parar em um sinal vermelho". Ele comprou uma caixa de sonhos gigantes.

    O governo continua advertindo que o excesso de peso e preocupações relacionadas são uma grande ameaça aos 65% dos adultos americanos que estão acima do peso ideal. No entanto, essa não é a mensagem que muitos estão recebendo do último estudo dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

    Médicos, professores de ginástica, proprietários de lanchonetes e aqueles que contam a média diária de calorias que consomem dizem que o estudo, divulgado em abril na revista científica "Journal of the American Medical Association", está sendo interpretado da seguinte forma: posso ser muito maior, sem culpa.

    "Os resultados têm sido bem recebidos pelos pacientes, mas não pelos médicos. O que as pessoas entenderam foi: você pode ser gordo e viverá mais. Tenho medo que alguns dos meus pacientes agora estejam se iludindo", disse o Elbert Ray, médico da Kaiser Permanente da Califórnia do Sul, clínica em Los Angeles.

    O estudo sugeriu que os gordos têm menos risco de morte prematura do que os magros. Ele também concluiu que o excesso de peso era bem menos mortal que um estudo anterior alegava. Há 13 anos, uma pesquisa advertiu que a obesidade e o excesso de peso estavam associados com 400.000 mortes prematuras por ano e logo superariam o tabaco como principal causa de morte evitável nos EUA. O estudo revisado modificou esse número para perto de 26.000 mortes.

    Apesar de a conclusão recente não chegar a afetar significativamente a indústria da dieta, que faz cerca de US$ 46 bilhões (em torno de R$ 115 bilhões) por ano, ela foi criticada pela brigada light.

    "O governo federal nos disse que nossos pneus iam nos matar", disse Dan Mindus, analista do Centro de Liberdade do Consumidor, grupo financiado pela indústria de alimentos que fez propagandas de página inteira dizendo que a "chamada epidemia de obesidade" era um embuste. "Agora as pessoas entendem que ser gordo talvez seja um pouco mais saudável que ser magro", disse ele em entrevista.

    No site da Web do grupo, Mindus celebrou: "Para quem gosta de um cardápio cheio de escolhas e não gosta de ser reprimido à mesa, as coisas estão melhorando", escreveu.

    Paul Campos, professor de direito da Universidade do Colorado que fez uma cruzada contra a indústria da dieta, acredita que o estudo vai gerar uma reação negativa.

    "Grande parte da histeria cultural em torno do assunto sempre foi cosmética, embrulhada em uma falsa retórica médica", disse Campos, autor de "The Diet Myth: Why America's Obsession With Weight is Hazardous to Your Health." (o mito da dieta: por que a obsessão americana com o peso prejudica a sua saúde). Seu livro ataca a "elite magra", chamando-a de flagelo moral sustentado por empresas que fazem dinheiro com dietas.

    O verdadeiro problema de saúde é que a maior parte dos americanos é sedentária, disse ele. Campos acredita que o estudo vai mudar a ênfase dos números na balança para os exames de pressão sangüínea e coração.

    A indústria de alimentos espera que as novas conclusões derrubem vários projetos de lei que propõem a proibição de lanches gordurosos nas escolas. Os críticos dizem que a indústria pressionou as autoridades para que tirassem as advertências que os americanos estavam se matando com a comida.

    "A indústria quer matar todos os projetos de lei contra o cheeseburguer", disse Morgan Spurlock, que fez o documentário "Supersize Me", sobre como engordou 15 kg e arriscou sua saúde comendo nada mais do que McDonald's por um mês. "Veja de onde toda a pressão está vindo: do lobby de alimentos que engordam."

    Tudo isso deixou os Centros de Controle e Prevenção de Doenças na defensiva, enquanto tentava explicar a mudança nos números. "Não estamos dizendo que você não pode comer um sorvete ou um cheeseburguer. Mas algumas pessoas estão pegando esses números e dizendo que a obesidade não é um problema de saúde pública --e não é esse o caso", disse Tom Skinner, porta-voz dos centros, responsável pela saúde da nação.

    Skinner disse que os principais especialistas do país ainda acreditam que o excesso de peso e suas complicações, como doença cardíaca, hipertensão e outras condições, são uma enorme ameaça ao público.

    "Há uma epidemia, se olhamos o número de pessoas com excesso de peso neste país". Ele, porém, advertiu: "queremos que as pessoas entendam que os dados científicos em torno do motivo pelo qual as pessoas estão morrendo de obesidade estão evoluindo."

    E apesar de nenhum dos lados da guerra dizer que o novo estudo é um sinal verde para a gula, isso não está claro nos restaurantes de Las Vegas, onde as sutilezas do estudo foram perdidas nas encruzilhadas do excesso.

    "Adoramos esse tipo de notícia --dou cinco estrelas", disse Ed Bradish, de Fulton, Nova York. Com sua mulher, Yvonne, estava comendo costelas no Tony Roma no Stardust Resort and Casino. Como outros entrevistados nos restaurantes da avenida dos cassinos, Bradish disse que o estudo confirmava sua forma de pensar e diminuía sua probabilidade de conter-se à mesa.

    "Os antigos costumavam a dizer que era melhor ser um pouco gordo do que magro", disse Bradish, aposentado. "Agora sabemos que é verdade."

    No Frontier Hotel and Casino, Eileen Caliendo, 75, levantou-se da mesa de jantar satisfeita. "Adoro viver, como o que quero e fico imensamente feliz que o governo agora esteja dizendo que tudo bem ser um pouco pesado", disse ela. "Ainda por cima, quando os mais velhos emagrecem mostram mais as rugas."

    Quem trabalha com pessoas que fazem dietas diz que alguns de seus clientes sentiram-se aliviados do peso da culpa que freqüentemente acompanha as gordurinhas a mais.

    "As pessoas foram simplesmente bombardeadas com mensagens dizendo que, se não têm o peso perfeito, não são saudáveis. Infelizmente, temos sim um grande problema. Mas tem a ver com falta de exercícios", disse Rick Emerson, diretor de boa forma da academia Ironworks, a leste de Seattle.

    Ray, em Los Angeles, disse que temia que a nova pesquisa sobre o peso e a morte seria entendida da mesma forma que os estudos que mostraram que há algum benefício em se tomar vinho tinto.

    "Minha preocupação é que, quando aconselho as pessoas a beberem um pouco de vinho tinto porque pode ajudar a baixar o nível de colesterol, elas não ouvem a parte da moderação --só ouvem que é para beber", disse ele. Empresas alimentícias usam estudo para atacar "indústria da dieta" Deborah Weinberg
  • Siga UOL Notícias

    Tempo

    No Brasil
    No exterior

    Trânsito

    Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host