UOL Notícias Internacional
 

03/05/2005

Sentimento anti-japonês cresce na elite da China

The New York Times
Joseph Kahn

Em Pequim
De todos os clientes que sua empresa de papel tem em todo o mundo, Wang Liqun gosta mais dos japoneses. Infalivelmente educados e pontuais, eles cultivam laços comerciais de longo prazo e sempre pagam suas contas, disse ele.

Mas mesmo quando ele e seus clientes compartilham uma refeição tranqüila e relaxam com saquê, eles cuidadosamente evitam discutir o passado, especialmente as atrocidades que o Japão cometeu durante sua ocupação da China durante a Segunda Guerra Mundial.

"Eles têm a tendência de evitar assuntos delicados", disse Wang. Mas interesses comerciais à parte, ele recentemente pediu aos seus funcionários em sua sede em Pequim que se juntassem às manifestações populares contra o Japão e parassem de comprar bens japoneses, pelo menos até maio.

O crescente sentimento anti-Japão, que colocou em crise as relações entre as duas maiores potências da Ásia, foi alimentado em parte por propaganda oficial e jovens chineses de cabeça quente. Mas a pressão para que o Japão enfrente sua própria história foi iniciada, e pode ser mantida por muito tempo, por pessoas como Wang, 37 anos, que tem um MBA, viaja ao exterior, dirige sua própria empresa e se importa passionalmente com a amnésia japonesa.

O Japão se juntou aos congestionamentos de trânsito e habitação como as principais preocupações da classe média urbana da China. Os empreendedores e profissionais executivos se beneficiaram desproporcionalmente com as políticas econômicas da China, mas muitos dizem temer que seu governo não pressionará queixas históricas contra o Japão, um importante investidor e parceiro comercial, por muito tempo.

"Nosso governo adota uma postura branda em política externa", disse Li Bin, o executivo-chefe da Nirvana, uma rede de clubes de saúde que tem apoiado o movimento anti-Japão. "Eles colocam o desenvolvimento econômico em primeiro lugar. É fundamental que pessoas bem-sucedidas se levantem pelos direitos e interesses do país."

Tais sentimentos fazem a questão do Japão --e geralmente o nacionalismo-- espadas de dois gumes para o governo.

A China mudou o curso no final do mês passado e ordenou às pessoas que deixassem o governo lidar com o Japão. Mas as autoridades estão claramente preocupadas com a possibilidade de volta dos protestos patrióticos, talvez já em 4 de maio, o aniversário de um protesto em 1919 que definiu o patriotismo moderno chinês. Mais protestos poderiam colocar tanta pressão sobre o governo chinês quanto sobre o Japão.

O Partido Comunista incita os sentimentos patrióticos para sustentar sua legitimidade em um momento em que poucos, mesmo dentro de suas próprias fileiras, depositam muita fé no marxismo. A propaganda oficial e o sistema nacional de educação destacam as indignidades sofridas pela China nas mãos de potências estrangeiras de meados do século 19 até a Segunda Guerra Mundial. O Japão, que a China disse que matou ou feriu 35 milhões de chineses de 1937 até 1945, recebe grande parte da atenção.

Nesta primavera as autoridades fizeram pouco para deter uma petição contra a nomeação do Japão como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, para desencorajar o boicote a bens japoneses ou mesmo para impedir os incomuns e às vezes violentos protestos de rua. O governo usou o movimento popular para exigir concessões do Japão e fazer uso de sua força na ONU.

Mas a China nunca empregou o nacionalismo em sua política externa. O governo enfatiza principalmente seu desejo de uma "ascensão pacífica" que não perturbe seus vizinhos, e as autoridades estão nervosas com a interrupção do fluxo de investimento e tecnologia que tem alimentado o crescimento econômico.

Além disso, os protestos anti-Japão têm uma história longa e, para o governo, grave. Uma marcha liderada por estudantes em 4 de maio de 1919, para protestar contra uma decisão das potências aliadas na Primeira Guerra Mundial que permitiu que o Japão assumisse os territórios coloniais da Alemanha na China, gerou a resistência contra o colonialismo ocidental. Mas o movimento de 4 de maio e os levantes em massa em 1931, 1937 e mais recentemente em 1987 acabaram se voltando contra o governo.

"Minha impressão é que a elite bem-educada na China está genuinamente frustrada e irritada com a tolerância do governo às provocações do Japão", disse Wenran Jiang, um especialista em relações China-Japão da Universidade de Alberta, em Edmonton. "Todo movimento anti-Japão cedo ou tarde se voltou contra o governo."

A polícia tem transmitido uma enxurrada de mensagens para usuários de celulares nas grandes cidades, alertando contra a "disseminação de rumores, crença em rumores ou participação em manifestações ilegais".

Nos últimos dias vários organizadores de petições online e protestos populares contra o Japão foram detidos ou seus computadores foram confiscados.

Um grande jornal estatal publicou um editorial com termos pesados alertando que os protestos anti-Japão eram uma fachada para uma "conspiração maligna" para minar o governo.

Mesmo assim, alguns profissionais urbanos têm promovido uma marcha para o aniversário de 4 de maio. "Eu acho que precisamos de outra marcha", disse Guo Hui, 30 anos, que dirige sua própria empresa de relações públicas. "Eu sinto que precisa ser pacífica e bem organizada. Mas temos que promovê-la."

Guo, que participou das manifestações em meados de abril, disse temer que o momento gerado pelo movimento anti-Japão desaparecerá. Em uma marcha, ele disse, "se você distribui literatura para as pessoas em cada esquina, você realmente causa um grande impacto".

Ele também disse que não tem grandes queixas contra o governo. Mas durante uma entrevista em um café Starbucks em Pequim, que Guo gravou em seu computador hand-held "para evitar qualquer desentendimento", ele disse que se preocupa mais com questões políticas e diplomáticas do que a geração de seus pais.

"Eles nunca se envolveram em nada", disse ele. "Mas eu acho que você tem certas responsabilidades como indivíduo. Se cada indivíduo disser algo, isto terá muito mais força do que se o Ministério das Relações Exteriores disser."

Se tal envolvimento poderá estabelecer a base para uma sociedade civil chinesa, injetando uma dose de pluralismo na política, é uma questão para debate.

Mas um editor sênior de um jornal do partido disse que a persistência da campanha anti-Japão e a participação de profissionais urbanos têm alarmado as autoridades. As autoridades estão acostumadas a lidar com agitação entre camponeses e trabalhadores que se sentem enganados ou excluídos pelo boom econômico da China, não entre a elite urbana, que é sua maior beneficiária.

"A classe média executiva deveria ser o pilar da estabilidade", disse o editor. Li da Nirvana emprega 500 pessoas em seus cinco clubes de saúde na capital. Ele disse que sua geração se orgulha do status da China no mundo. Mas ele acha que os japoneses ainda desprezam os chineses, tanto quanto há 60 anos. "A questão do Japão está enraizada em nossos ossos", disse ele.

Quando os protestos contra o Japão tiveram início em março, Li colocou faixas em cada um de seus clubes de saúde para que os funcionários e clientes pudessem assinar a petição contra a nomeação do Japão como membro permanente do Conselho de Segurança.

Alguns de seus funcionários também participaram das marchas em abril, apesar de tê-los alertado, "para o próprio bem deles", para que fossem cautelosos em participar de protestos neste mês.

"Eu posso influenciar as pessoas à minha volta para não esquecermos a história", disse Li. Para Wang, o Japão tem sido uma questão desde a infância. Quando ele era pequeno, sua avó lhe contava sobre como a família dela sofreu nas mãos dos "demônios japoneses" e como o avô dele morreu enfrentando os soldados japoneses.

A Beijing Meili Prospect Paper Company, que Wang fundou após se formar na Universidade de Pequim, tem muitos clientes no Japão. Mas ele disse que sente o peso da história toda vez que caminha pelas ruas eficientes e limpas de Tóquio e em como os japoneses evitam sistematicamente assuntos sensíveis.

Ele teme que o governo abafará discretamente a questão. "A meta Nº1 deles é o desenvolvimento econômico, e eles não querem que nada interfira", disse ele.

Enquanto discutia o assunto durante um café no sábado, os dois celulares de Wang --um para negócios, outro para assuntos pessoais-- tocaram um após o outro para alertá-lo sobre novas mensagens de texto. Eram mensagem em massa do Birô de Segurança Pública de Pequim, alertando os cidadãos a permanecerem longe das ruas.

"Veja como estão preocupados", disse ele com um sorriso travesso. "Eles acenderam uma faísca e provocaram um incêndio." Governo chinês teme passar a ser alvo dos protestos contra o Japão George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host