UOL Notícias Internacional
 

04/05/2005

Joseph Stalin recusa-se a desaparecer da Rússia

The New York Times
Steven Lee Myers*

Em Moscou
Aquela antiga nostalgia por Stalin está novamente voltando. Ela sempre aparece nos feriados em maio. Isto encanta uns poucos stalinistas ferrenhos daqui, mas desanima muito mais pessoas.

Yola Monakhov/The New York Times

Veteranos russos são homenageados em evento; nostalgia de Stalin marca celebrações de maio
A ambigüidade é bem representada na pessoa de Zurab Tsereteli, o mais próximo que a Rússia tem de um artista oficial. Com o 60º aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista se aproximando, ele fundiu uma estátua monumental de bronze de Stalin, ao lado de Churchill e Roosevelt, no encontro de cúpula deles em Yalta, em 1945.

Um monumento apenas de Stalin pareceria um exagero, ele reconheceu. Mas para a maioria das pessoas isto também vale para a criada por Tsereteli, retratando Stalin de forma não crítica, em contexto histórico.

As autoridades em Yalta --atualmente parte da Ucrânia, um local que sofreu muito sob Stalin-- recusaram o presente de Tsereteli. Moscou também, após o furor público que irrompeu quando um legislador da cidade sugeriu a colocação da estátua no Parque da Vitória da cidade.

A estátua agora está a caminho de Volgogrado, uma cidade mais conhecida pelo seu nome na época da guerra, Stalingrado, mas mesmo as autoridades de lá não mediram esforços para enfatizar que não se tratava de um tributo a Stalin, mas sim aos líderes do esforço aliado para derrotar o fascismo.

A agitação em torno da estátua ressalta o problema da Rússia quando se trata de celebrar seu passado: este envolve algumas verdades incômodas que o país e seus líderes preferem não abordar.

Parte da relutância, sem dúvida, está refletida no próprio presidente Vladimir V. Putin, um ex-coronel da KGB que não se arrepende de seu passado no aparato de segurança, que no seus piores momentos aterrorizava os cidadãos soviéticos.

Talvez um fator maior, que ecoa por todo o país, seja o desejo de devolver à Rússia um senso de grandeza e orgulho histórico após o colapso da União Soviética e uma rodada inicial de auto-análise sobre os crimes soviéticos, que se seguiram à independência da Rússia.

Até mesmo o novo escultor de Stalin --cujo avô foi preso e executado no Grande Terror em 1937-- soa em conflito. "Nós não devemos olhar para o que aconteceu no passado", disse ele em uma coletiva de imprensa na semana passada, na qual ele comparou Stalin a outras figuras históricas complicadas, como Napoleão. "Nós devemos pegar apenas os fatos e olhar para o futuro."

Putin espera conseguir o mesmo equilíbrio.

O presidente russo convidou cerca de 50 chefes de Estado, incluindo o presidente Bush, para participarem do desfile militar de 9 de maio, o dia em a União Soviética de Stalin escolheu para comemorar o fim do que é conhecida aqui como a Grande Guerra Patriótica, na Praça Vermelha, para o que chamou de comemoração da "alegria da vitória e da reconciliação".

A antes inimaginável cena de um líder do Kremlin tendo ao seu lado um presidente americano e os líderes da Alemanha, Japão e Itália, naquela que costumava ser uma demonstração anual do poderio militar soviético (grandes painéis habilmente cobrirão o Túmulo de Lênin), certamente sugere uma importante reconciliação geopolítica.

Mas os planos grandiosos do governo --que incluem dezenas de cerimônias, concertos e outros eventos-- também se transformaram em uma fonte de rancor, revivendo queixas pendentes em casa e no exterior, mostrando que a Rússia continua em conflito sobre seu passado soviético.

Os presidentes da Lituânia e da Estônia --nações ocupadas por tropas soviéticas em 1940 e reocupadas após os soviéticos terem expulsado os nazistas em 1944-- recusaram incisivamente o convite de Putin.

Eles citaram o Dia da Vitória como o dia que honra o recomeço do que se transformaria em 46 anos de ocupação, provocando uma troca de tiros política e diplomática que prossegue com rudeza cada vez maior.

Os líderes bálticos, juntamente com o presidente Aleksander Kwasniewski da Polônia, têm usado o 60º aniversário para renovar os pedidos para que a Rússia --como herdeira de grande parte do legado da União Soviética-- enfrente os aspectos mais sombrios de seu passado.

O mais notório de todos é o pacto Molotov-Ribbentrop, o tratado de não-agressão que a União Soviética assinou com a Alemanha nazista em 1939, o que levou à ocupação soviética de parte da Polônia naquele ano e dos Estados bálticos um ano depois.

Após os exércitos de Hitler terem invadido a União Soviética em 1941, o pacto desapareceu da história oficial, e mesmo agora raramente é mencionado. Nos cartazes ao estilo soviético que têm aparecido por todo o país em homenagem ao 60º aniversário do Dia da Vitória, a guerra durou apenas de 1941 a 1945.

Uma renúncia do Molotov-Ribbentrop --ou do domínio da União Soviética na Europa Oriental após a guerra-- parece ser altamente improvável.

Putin não defende Stalin, mas para ele, assim como para muitos outros aqui, colocar em dúvida a vitória soviética na guerra representa um esforço para reescrever a história --para, como ele colocou, "diminuir o papel exercido pela União Soviética e pelo Exército Vermelho Soviético na vitória sobre o nazismo".

A União Soviética, com certeza, sofreu enormemente na guerra.

Oficialmente, 27 milhões de soldados e cidadãos morreram. A vitória é, discutivelmente, seu maior feito, o motivo pelo qual 9 de maio continua sendo um feriado venerado, um que toca quase toda família.

Uma exposição de arte contemporânea na Galeria Krokin, em Moscou, inclui obras não adornadas explorando os custos da guerra e homenageando os soldados comuns que sofreram mais. Uma inclui uma foto amassada ampliada do avô do artista Aleksandr Ponomarev, que morreu em Stalingrado. A imagem contém inscrita a notória ordem de Stalin: "Nenhum passo para trás".

"A história não tem humor subjuntivo", disse o curador da exposição, Aleksandr V. Petrovichev. "Eles não estão cantando a canção de louvor a Stalin. Eles estão lidando com os temas da época. Sim, havia Stalin. Sim, aqueles eventos ocorreram. É a realidade."

Ainda assim, para alguns aqui, a nova memória histórica russa continua teimosamente seletiva, aceitando o positivo e ignorando o negativo.

Yuri N. Afanasyev, um historiador e presidente honorário da Universidade de Humanidades da Rússia, lamenta o que chama de restauração da história oficial, incompleta e desonesta.

"Está sendo feita uma tentativa para justificar a história oficial da Rússia", disse Afanasyev em uma conferência em Moscou, no mês passado. "Esta é a mesma história da época de Stalin --falsificada, tendenciosa, ideologizada."

*Colaborou Erin E. Arvedlund. Legado do tirano emerge no 60º aniversário da vitória na 2ª Guerra George El Khouri Andolfato

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