UOL Notícias Internacional
 

04/05/2005

Potencial presidente do México, esquerdista López Obrador causa medo e esperança

The New York Times
Ginger Thompson

Na Cidade do México
Ele é o prefeito da maior cidade do hemisfério e o mais recente fenômeno político do país. Ele pode levar dezenas de milhares às ruas se quiser. Em três semanas agitadas em que promoveu o maior protesto na história recente do México, ele derrotou uma contestação legal do presidente do país e do Congresso que ameaçava colocar um fim à sua carreira política.

Luis J. Jimenez/The New York Times

Obrador abraça eleitora na Cidade do México; a vitória presidencial em 2006 é tida como certa
Agora, Andrés Manuel López Obrador, parece destinado a ser eleito presidente no próximo ano. "O que vimos no domingo passado foi prova de que esta é uma nova sociedade", disse o prefeito em entrevista na semana passada, sobre a marcha de protesto, "de que as estruturas tradicionais do poder não estão no controle, nem com todo seu dinheiro e mídia".

De fato, apesar de López Obrador, um viúvo de 51 anos e pai de três filhos, ter provado que pode mobilizar a vasta classe baixa deste país, o que permanece incerto é se ele será capaz de ter o empresariado pró-Estados Unidos e a frágil classe média a seu lado.

Ele é mais conhecido por arrumar brigas políticas do que por construir pontes. E seu estilo de política esquerdista, impetuoso, faz muitos na elite governante e analistas no exterior temerem que o México siga pelo caminho da Venezuela, atolada em uma guerra de classes enquanto o presidente Hugo Chávez surfa na onda do sentimento anti-americano.

É uma onda que levou políticos esquerdistas ao poder por toda a América Latina. E como Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e Tabaré Vásquez no Uruguai, López Obrador personifica a irada decepção com as políticas econômicas pró-mercado apoiadas por Washington --que estabilizaram a economia para os ricos, mas não melhoraram as condições para os pobres.

Sua ascensão ao poder levará tal frustração às portas dos Estados Unidos.

Na entrevista, López Obrador rejeitou comparações com os movimentos esquerdistas por toda a região. Ele disse que se considera um fenômeno puramente mexicano, criado por uma mãe católica devota, uma devastadora tragédia familiar e um poeta que escreveu sobre as belas paisagens do México e lhe mostrou as lutas mais cruéis do país.

No fundo, disse o prefeito, ele continua sendo um ativista oprimido dos trópicos, onde a política pode ser um assunto violento. Mas ele disse que tem participado da política nacional há quase uma década, tendo servido como presidente do Partido Revolucionário Democrático antes de se tornar prefeito em 2000.

Ele apontou para sua atuação como prefeito desta cidade monstruosa, exibindo documentos financeiros que mostram que a dívida teve o menor aumento nos últimos 20 anos como prova de que está qualificado para administrar a economia nacional.

Ele apontou para as quase 1 milhão de pessoas que marcharam nesta cidade no mês passado como prova de que a maioria dos mexicanos pensa o mesmo.

"A mentalidade das pessoas mudou", disse ele. "Eles estão dispostos a defender a democracia. É nisto que estávamos apostando. E apostamos certo."

De fato, o prefeito, conhecido no México por suas iniciais AMLO --assim como Kennedy é JFK para os americanos--, desafia rótulos fáceis. Ele realiza coletivas de imprensa às 6 horas da manhã, mas ignora perguntas mais incisivas e tem bloqueado a aplicação da lei de liberdade de informação.

Ele tem sido criticado pelos conservadores por gastar demais no bem-estar dos idosos, em um asilo para prostitutas velhas demais para trabalhar e vias elevadas para aliviar o trânsito.

Ele irritou a esquerda quando bloqueou leis que teriam legalizado uniões gays, fez acordos com magnatas dos negócios para restaurar o centro histórico desta cidade e quando trouxe o ex-prefeito de Nova York, Rudolph W. Giuliani, para ajudar a desenvolver políticas de tolerância zero ao crime.

E naquilo que até seus principais assessores consideraram um grande erro, que alienou a classe média, ele disse que os organizadores de uma marcha contra o crime eram peões em uma conspiração da direita contra ele.

Como quase todos os líderes políticos deste país, López Obrador começou durante o antigo regime autoritário que dominou o governo por mais de sete décadas consecutivas.

Seus simpatizantes apontam que o prefeito se mobilizou contra a corrupção dentro do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e depois o abandonou para ajudar a liderar um movimento esquerdista, que colocou o México na estrada para uma maior democracia.

"Foi dito que López Obrador escreve seus discursos com sua mão esquerda e governa com sua direita", disse Héctor Zagal, que foi co-autor de uma biografia do prefeito. "Ele é um produto do antigo PRI, com todas as suas falhas e virtudes."

Manuel Camacho Solís, um legislador federal e estrategista político chefe do prefeito, disse: "Ele está à vontade como líder social, e o faz bem, mas tem se esforçado para aprender a governar".

"Para ser presidente, ele precisa conquistar o respeito das pessoas por meio do diálogo, e não estando em conflito com elas."

López Obrador não discorda. "Há a impressão de que sou autoritário", disse ele. "Mas os movimentos sociais exigem forte liderança."

"Esta luta é muito difícil", disse ele. "E às vezes ela endurece o coração, mas não para sempre."

Trajetória

Pistas sobre o prefeito, que foi batizado em homenagem ao seu pai, Andrés, e sua mãe, Manuela, estão espalhadas por todo o Estado de Tabasco, no Sul. Ele nasceu em uma cidade minúscula, Tepetitan, que não se parece em nada com a cidade que ele atualmente governa.

Lá, as crianças jogam bola no meio dos milharais e pescadores pobres, como Felipe Lopez Gonzalez, citam trechos do Novo Testamento para explicar como vivem com menos de US$ 4 por dia as famílias que moram perto dos ricos campos de petróleo deste país.

A pobreza, na época, parecia um assunto momentâneo para o jovem López Obrador, algo que ele ouviu de homens e mulheres que não podiam pagar suas contas na loja da família.

Na época, em 1969, tal vida idílica foi despedaçada quando um de seus irmãos mais jovens, Jose Ramón, morreu; ele estava brincando com uma pistola quando ela disparou.

Andrés Manuel, com 15 anos na época, assistiu o acidente. Os parentes disseram que ele tentou fazer com que seu irmão largasse a arma.

Na entrevista, o prefeito se recusou a falar sobre o evento ou sobre a especulação de alguns aqui de que o trauma do acidente deu um zelo messiânico à sua política.

"Aquilo me afetou e ainda me afeta", disse o prefeito.

Talvez a experiência que mais o mudou tenha ocorrido anos depois, na cidade indígena de Tucta, a qual López Obrador ajudou a tirar da miséria. Ele colocou seus olhos na aldeia pela primeira vez em 1976, na companhia de Carlos Pellicer Cámara, um dos poetas mais queridos do México.

Parecia um local perdido no tempo. Os índios chontal, descendentes dos maias, não tinham eletricidade nem água potável. Não havia escolas ou hospitais. E as pessoas viviam em cabanas feitas de galhos e folhas.

"Eles não apenas deixaram os chontales à margem da sociedade", lembrou López Obrador, se referindo às autoridades do governo, "como negavam a existência dos chontales, apesar de serem a realidade mais familiar de Tabasco".

Os índios rapidamente se tornaram uma realidade familiar para López Obrador. Ele se mudou com sua esposa e filho ainda bebê para um barraco em Tucta, com chão sujo e teto de palha, e --assim como fez na Cidade do México-- iniciou uma combinação de programas de bem-estar social e infra-estrutura para ajudar a atender às necessidades básicas das pessoas e colocá-las para trabalhar.

"Ele poderia ter tido um vida confortável com sua família, mas ele a trouxe para cá para estar conosco", lembrou Pedro Bernardo, 58 anos, um dos beneficiários do trabalho de López Obrador em Tucta. "Há poucas pessoas que poderiam suportar os golpes desta vida."

Mas havia golpes mais duros pela frente.

"Meu sonho era me tornar governador de Tabasco", disse López Obrador, "porque eu queria mudá-lo".

Foi um sonho que lhe escapou.

López Obrador abandonou o PRI, então buscou derrubá-lo em 1988, quando o partido se recusou a indicá-lo como candidato à prefeitura do município de Macuspana.

Apoiado pela base política camponesa que ele comandava como um general, o político agitador concorreu duas vezes ao governo em chapas esquerdistas e perdeu nas duas ocasiões. As eleições de 1994 foram manchadas por acusações de corrupção. E por vários meses, López Obrador e seus soldados civis protestaram de todas as formas que podiam, para tornar o Estado ingovernável.

Dois anos depois, o ativista anti-establishment estava em ação novamente, liderando milhares de simpatizantes contra mais de 50 poços de petróleo por todo o Estado, para protestar contra vazamentos da companhia de petróleo estatal que contaminavam as terras produtivas e rios.

Os protestos fizeram a companhia perder cerca de US$ 8,5 milhões em receita nos primeiros 12 dias. Dezenas de pessoas foram feridas e presas enquanto a polícia tentava abrir o caminho até os poços.

Na entrevista na semana passada, López Obrador disse que os princípios daquelas batalhas ainda o guiam, mas seus dias de radical já acabaram.

"Eu sou um centrista agora", disse ele, com um sorriso torto.

"Quando começamos, o PRI dominava completamente", disse ele. "Nem mesmo as folhas nas árvores se mexiam a menos que o PRI assim o dissesse."

"Muito tempo se passou até que as pessoas pudessem viver sua liberdade", disse ele. "Cabia a nós ensiná-las a não terem medo."

"E agora elas não têm mais medo." O prefeito da capital mobiliza a população pobre e assusta a elite George El Khouri Andolfato

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