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04/05/2005

Revelações do Iraque inquietam eleitor britânico

The New York Times
Alan Cowell

Em Londres
Campanhas eleitorais geram problemas imprevistos, e, no caso do Reino Unido, um deles pode ser a incapacidade de os lideres britânicos enviarem tropas à guerra para lutarem ao lado dos norte-americanos da maneira com que os Estados Unidos se acostumaram.

A campanha pela eleição aqui --a votação ocorre nesta quinta-feira (5/5)-- gerou uma série de revelações sobre as ações de Tony Blair que precederam a guerra, causando prejuízos políticos ao primeiro-ministro. Isso gerou previsões de que os futuros primeiros-ministros enfrentarão maiores empecilhos para enviar tropas a campos de batalha.

"Os políticos precisam entender o grau de responsabilidade que está em suas mãos em uma era na qual enviam tropas a guerra com mais freqüência", disse em uma entrevista o coronel Christopher Langton, analista militar do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

"No futuro, eles serão mais reticentes na hora de enviar tropas, a menos que haja uma ameaça direta aos interesses nacionais".

Até mesmo na terça-feira, quando faltavam apenas dois dias para a eleição, a guerra no Iraque continuava a ser uma questão sombria pairando sobre a nação, após a morte, na noite anterior, do sargento Anthony Wakefield, 24, que foi o 87º britânico a morrer no conflito.

"Qual é o objetivo em enviá-los para lá?", disse em meio às lágrimas Ann Toward, mulher de Wakefield. "A culpa é de Tony Blair. Foi ele que enviou todos esses soldados. Se ele não tivesse feito isso, Anthony ainda estaria aqui".

Ressaltando o custo emocional e as pressões da guerra, as famílias de dez outros soldados britânicos que morreram no Iraque entregaram uma petição na sede do governo de Blair, na 10 Downing Street, exigindo uma investigação sobre a legalidade do conflito e ameaçando tomar medidas judiciais contra o primeiro-ministro.

"Algumas das famílias estão seriamente preocupadas com a possibilidade de os seus filhos terem morrido em circunstâncias ilegais", disseram em uma declaração conjunta.

Segundo a constituição britânica --que não é escrita--, os primeiros-ministros têm o direito de enviarem tropas por conta própria, e no pós-guerra eles geralmente valorizaram aquilo que vêem como uma relação especial com os Estados Unidos.

Isso prevaleceu na Guerra do Golfo Pérsico de 1991 e, anteriormente, nos anos 80, marcados pelos fortes laços entre Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Blair manteve habilmente o seu relacionamento próximo com a Casa Branca durante as administrações democrata e republicana dos presidentes Bill Clinton e George W. Bush.

Mas a seguir veio o problema do Iraque. No centro da atual polêmica está a acusação de que, enquanto se desenrolavam os preparativos para a guerra, Blair sonegou do restante do governo e do próprio Parlamento opiniões vitais de ordem legal e outras informações --alegações que parecem ter sido confirmadas por uma série de vazamentos na imprensa.

"As revelações desta semana geraram sérias questões que o Parlamento deve procurar responder com determinação após a eleição", disse Robin Cook, ex-ministro das Relações Exteriores e membro do Partido Trabalhista, que renunciou do seu cargo no governo em março de 2003, em protesto contra a guerra.

"Elas também fazem com que se exijam mudanças na forma como o Reino Unido é governado, de forma que nunca mais se peça ao gabinete que tome uma medida drástica ou uma decisão estratégica quando informações cruciais lhe são sonegadas".

As revelações tiveram início na semana que precedeu a eleição, quando o governo foi obrigado a revelar os argumentos legais que teriam justificado o envolvimento do Reino Unido na guerra.

Mantido em sigilo por mais de dois anos, um documento de 13 páginas datado de 7 de março de 2003 descreveu os argumentos utilizados por Lord Peter Goldsmith, o procurador-geral, favoráveis e contrários à legalidade da guerra.

O documento foi revelado apenas ao círculo interno de poder de Blair, e as suas ambigüidades contrastam nitidamente com o parecer inequívoco dado por Goldsmith ao Parlamento dez dias depois, apoiando a intervenção militar.

A seguir, no domingo, documentos vazados --e cuja veracidade não foi questionada por Blair-- revelaram que o primeiro-ministro garantiu secretamente a Bush que participaria da guerra em abril de 2002, bem antes de Blair ter ouvido a opinião, ou pedido a aprovação, do Parlamento Britânico ou do governo.

Nos documentos Blair é descrito como favorável à chamada mudança de regime, que Goldsmith negou categoricamente que fosse uma causa legal para a guerra.

Além do mais, o mal-estar causado pelo episódio se disseminou até os escalões superiores das forças armadas.

O almirante Sir Michael Boyce, o mais graduado comandante militar britânico no início da guerra, expressou preocupação em uma entrevista a um jornal quanto à possibilidade de ser julgado no Tribunal Criminal Internacional por ter participado da invasão.

O Parlamento votou a questão da guerra em 18 de março de 2003 --às vésperas da invasão, quando tropas britânicas já estavam posicionadas nas fronteiras iraquianas--, mas os legisladores afirmam que naquele momento não estavam a par das preocupações anteriores de Lord Goldsmith a respeito da legalidade da guerra.

"Agora que houve uma votação sobre tais questões, e em circunstâncias tão controversas, creio que é improvável que, exceto nas circunstâncias mais excepcionais, um governo decida não contar com uma votação no Parlamento", disse na semana passada Gordon Brown, chefe de finanças e aparente candidato à sucessão de Blair.

O episódio se agrega a uma notável aglomeração de restrições políticas e psicológicas, que contrastam bastante com a forma como um superconfiante Blair enviou soldados a Kosovo, Serra Leoa, Afeganistão e, é claro, Iraque.

"Os britânicos deram as suas vidas em vários lugares, mas nunca antes ouvi as famílias reclamarem", disse em uma entrevista Frederick Forsyth, escritor famoso e apoiador da oposição conservadora.

"No passado, famílias militares de luto aceitaram o fato de os seus entes queridos morrerem fazendo o seu trabalho segundo um programa honesto", disse Forsyth. "Desta vez, sabiam que eles foram enviados com base em um projeto falso".

Na campanha eleitoral, a impopularidade da guerra e a grande desconfiança angariada por Blair devido à maneira como lidou com o conflito fortaleceram o único partido que se opôs à operação, o Partido Liberal-Democrata, que agora deseja uma rápida retirada britânica.

O furor quanto à guerra presenciado aqui --onde o conflito foi bem mais impopular do que nos Estados Unidos e onde Blair, ao contrário de Bush, foi incapaz de apagar uma persistente nódoa política-- traz repercussões para os Estados Unidos.

"O Reino Unido continuará apoiando bastante os Estados Unidos, mas creio que no futuro haverá mais reticência de ambos os lados", afirma Langton. "Os norte-americanos agora entendem a confusão em que meteram o primeiro-ministro britânico". Documentos contestam legalidade da guerra e comprometem Blair Danilo Fonseca

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