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05/05/2005

Candidatos britânicos cortejam eleitor mais velho

The New York Times
Alan Cowell

Em Braintree, Inglaterra
Às vésperas da eleição britânica nesta quinta-feira (5/5), tem gente nesta cidade mercantil no leste da Inglaterra, como Evelyn Childs, 72, secretária aposentada, que diz que está tão desapontada com os partidos tradicionais que não votará em nenhum deles.

Mas há também pessoas como Brooks Newmark, 46, um financista nascido nos Estados Unidos e candidato pela oposição conservadora, que procuram conquistar eleitores como a senhora Childs com promessas de pensões generosas e baixos impostos sobre moradia.

Unindo os dois está a sensação de que a eleição terá um impacto em locais como este, onde o Partido Trabalhista de Tony Blair --que, segundo as previsões, será o vencedor-- possui apenas uma ligeira vantagem sobre os conservadores e onde é bem mais provável que os eleitores idosos, e não os jovens, determinem o resultado da eleição.

"Os jovens não votam, a não ser que algo realmente os incomode", diz Childs enquanto caminha por uma rua repleta de plantas e arbustos. Paul Linehan, 21, que vende cosméticos nessa rua, parece confirmar tal opinião.

"Realmente não estou interessado em política", diz ele, assegurando que não pretende votar. "Quanto aos políticos, eles sabem que os jovens não votam e portanto não se preocupam de fato com o que nós queremos", diz Katie Twycross, garçonete de 23 anos.

(Ela planeja votar nos conservadores apenas como forma de protesto contra a medida tomada pelos trabalhistas, neste ano, no sentido de proibir caçadas com cães).

Enquanto vai de porta em porta, fazendo campanha à moda antiga, Newmark diz: "Os pensionistas passam o maior tempo possível falando com os candidatos porque eles formam o grupo mais interessado". Ele diz acreditar que os pensionistas são os mais susceptíveis às promessas do seu partido quanto às questões das pensões e dos impostos locais.

Segundo Sir Robert Worcester, chefe do instituto de pesquisas Mori, eleitores acima dos 55 anos representam pouco mais de um terço do eleitorado, mas respondem por pelo menos 45% dos votos. E enquanto três quartos da população acima dos 65 anos diz que com certeza votará, só um terço das pessoas com menos de 25 anos afirma que comparecerá às urnas.

"A queda dos conservadores nas duas últimas pesquisas que realizei se deve principalmente ao fato de os eleitores mais velhos terem repudiado a campanha negativa e obscena do Partido Conservador", opina Worcester.

Outros parecem que não se saíram tão bem.

"Eu voto desde os 21 anos", conta Childs. "E sempre votei nos trabalhistas. Preferiria cortar o meu braço direito a votar nos conservadores".

Mas quando ela vê uma foto de Blair, diz: "Fico pensando como é que um cara pode ser tão insincero com um rosto e um sorriso desses". Portanto, nesta quinta-feira ela pretende votar no pequeno e anti-europeu Partido da Independência do Reino Unido.

As mais recentes pesquisas de opinião revelaram que o Partido Trabalhista conta com uma vantagem sobre os conservadores de cerca 7,5%, contra os 0,8% em 5 de abril.

Não obstante, a eleição será a primeira desde que Blair apoiou o presidente Bush na guerra no Iraque, o que lhe custou queda de popularidade e de confiança no Reino Unido, embora tenha recebido aplausos em Washington.

Segundo Blair, esta será a sua última campanha. A eleição proporcionará a Blair uma chance de se tornar o primeiro líder em 80 anos de história do Partido Trabalhista a vencer um terceiro mandato consecutivo.

Mas a eleição também já é vista como o último grito de vitória do primeiro-ministro, antes que ele passe o cargo, em determinado momento, para o seu aparente sucessor, Gordon Brown, o chanceler do Tesouro.

Isso implicaria uma reformulação do cenário político no qual Blair --o sorridente e carismático ganhador de votos que fez com que o Partido Trabalhista saísse de 18 anos na oposição-- tem sido a figura dominante desde que chegou pela primeira vez ao poder em 1997.

"Ainda que os trabalhistas obtenham uma maioria substancial, a era de Blair está no fim, e o solo desaparece rapidamente de sob os seus pés; ele é o homem do ontem", afirma Polly Toynbee, colunista do jornal "The Guardian", que anunciou o seu apoio aos trabalhistas na segunda-feira passada.

"Se os trabalhistas vencerem, isso acontecerá apesar de Blair, e não por causa dele, e tal fato significará uma poderosa mudança no clima político".

A eleição decidirá quem representa cada um dos 646 distritos eleitorais, chamados de "constituencies", e o partido que obtiver a maioria formará o próximo governo.

Se as pesquisas de opinião estiverem corretas, Blair retornará ao cargo com uma maioria de até 90 cadeiras no parlamento --o que representaria uma forte queda em relação à maioria de 160 cadeiras obtida por ele na sua vitória esmagadora em 2001.

Mas a chave para a decisão da eleição estará em locais como Braintree, onde em 2001 o candidato trabalhista, Alan Hurst, derrotou Newmark pela pequena margem de 358 votos. Essa foi a segunda margem mais estreita de vitória dentre os diversos distritos denominados "marginais", nos quais a maioria trabalhista é especialmente vulnerável a deserções ou ao baixo comparecimento às urnas.

Foi precisamente tal cenário que Blair utilizou como argumento --ou tática de medo-- para persuadir os eleitores trabalhistas insatisfeitos com a guerra no Iraque a evitarem votar nos liberal-democratas, contrários ao conflito, como forma de protesto.

"O que quer que digam as pesquisas de opinião, algumas centenas ou milhares de votos poderão significar a conquista ou a perda de cadeiras importantes no parlamento", disse Blair.

Alguns especialistas em pesquisas acreditam que uma mudança de intenção de voto necessária para uma ampla vitória conservadora é simplesmente impossível. Mas há também uma questão relativa à participação eleitoral dos 44 milhões de eleitores britânicos. O índice de comparecimento às urnas caiu para 59,4% em 2001 --o mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial.

"Tem muita gente que não está votando", diz Lisa Pope, 35, mãe de cinco filhos, que saiu para fazer compras com a mãe, Barbara Batt, 58, em Braintree. "Creio que eles simplesmente não se importam".

A sua mãe acha que sabe por que. "Muitos partidos fazem promessas que não são cumpridas", diz ela.

Além do mais, os técnicos dizem que as últimas pesquisas de opinião sugerem uma volatilidade incomum entre os eleitores --e níveis de indecisão mais elevados que o normal--, algo que poderia fazer com que os resultados em vários distritos onde a eleição é apertada ficassem muito mais imprevisíveis.

É por isso que os principais candidatos --Blair, Brown, Howard e Charles Kennedy, líder liberal-democrata-- passaram o dia de hoje fazendo campanha por todo o país.

Algo que tem sido menos notado é o lento avanço nas pesquisas de opinião por parte dos liberal-democratas --que parecem ser quase o partido preferido dos relativamente poucos eleitores jovens que deverão participar dessa eleição. Algumas pesquisas divulgadas hoje dizem que o partido poderá obter até 25% dos votos.

Em entrevistas, várias pessoas com pouco mais de 20 anos disseram que apóiam o pequeno partido de oposição, que é visto com freqüência como um beneficiário dos votos de protesto anti-trabalhistas e daqueles dos conservadores desapontados.

Alexandra Robbins, 25, estudante universitária em Londres, disse que é "incapaz de confiar em Tony Blair" e que "não tem fé alguma em Michael Howard". Ross Hammond, 24, é da mesma opinião, e observa que os liberal-democratas foram os únicos que se opuseram à guerra no Iraque.

"O Iraque e a guerra causaram uma cisão profunda entre os eleitores trabalhistas tradicionais, e creio que, como resultado, muitos votarão nos liberal-democratas", conclui Hammond. Jovens são o grupo menos inclinado a votar, segundo pesquisas Danilo Fonseca

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