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06/05/2005

Britânicos mantêm Tony Blair no poder mas com pequena maioria

The New York Times
Alan Cowell

Em Londres
O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, voltará ao poder para um histórico terceiro mandato consecutivo, mas com uma maioria enormemente reduzida, refletindo sua impopularidade devido à guerra no Iraque, segundo resultados eleitorais divulgados na madrugada desta sexta-feira (6/5).

A margem foi a menor para Blair desde que ele conduziu seu Partido Trabalhista ao poder com uma vitória esmagadora, em 1997, após 18 anos na oposição, prometendo renovação e uma era de reformas sociais. Ele já anunciou que a eleição de quinta-feira será sua última, e o resultado poderá acelerar sua transferência de poder para seu herdeiro aparente, o ministro das Finanças, Gordon Brown.

O resultado sugeriu que os eleitores puniram o Partido Trabalhista pela forma como lidou com a guerra no Iraque, mudando para o pequeno Partido Liberal Democrata e permitindo que os Conservadores da oposição obtivessem ganhos.

"A guerra teve um impacto", disse Robin Cook, um ex-ministro das Relações Exteriores que renunciou em protesto contra a invasão no Iraque.

Uma pesquisa de boca-de-urna divulgada minutos após o fim da votação disse que a maioria de Blair, no Parlamento de 646 cadeiras, seria reduzida de 160 para meras 66. Os trabalhistas teriam 356 cadeiras.

Segundo a pesquisa de boca-de-urna, os conservadores ganharam 44 cadeiras, passando a 209, e os liberais democratas ganharam um punhado de cadeiras, passando de 50.

Quatro horas após o fechamento das urnas, a BBC disse que sua primeira projeção, baseada nos resultados de cerca de 140 distritos eleitorais, dava aos trabalhistas uma maioria de 68.

As pesquisas de boca-de-urna na Grã-Bretanha foram relativamente precisas em 1997 e 2001, mas não conseguiram interpretar o sentimento nacional em 1992.

Do ponto de vista trabalhista, a vitória foi descrita como histórica, a primeira vez desde que o partido foi formado em 1900 em que ele conquista um terceiro mandato sucessivo. O mesmo feito, para o Partido Conservador, foi registrado pela última vez por Margaret Thatcher, antes dela renunciar em 1990 --no fim de uma era em que os conservadores, sob líderes que incluíram Winston Churchill, projetaram a si mesmos como o partido do governo por grande parte do século 20.

Mas a projetada vitória trabalhista foi agridoce, ocorrendo após uma campanha na qual Blair saiu ferido pelas críticas em torno da guerra, rejeitado por alguns simpatizantes tradicionais como não confiável e sem uma repetição das vitórias esmagadoras de 1997 e 2001.

A margem projetada --nem muito grande nem perigosamente pequena-- provavelmente acelerará a transferência de poder de Blair para seu amigo que se tornou rival, Gordon Brown, que fez campanha em defesa de Blair.

Isto poderá negar a Blair a autoridade para construir um legado duradouro de uma era na qual ele dominou o cenário político, com uma vasta ampliação dos serviços públicos e uma política externa belicosa, enviando tropas aos Bálcãs, Serra Leoa, Afeganistão e Iraque.

Mas foi a guerra no Iraque --quando críticos descreveram Blair como marionete dos Estados Unidos-- que mais lhe prejudicou, aprofundando a desconfiança dos eleitores.

Mesmo nos últimos dias de campanha, a morte de um soldado britânico no sul do Iraque e a revelação do ambíguo aconselhamento legal, que Blair recebeu antes da invasão, reacenderam as acusações de seus adversários de que ele enviou soldados para um campo de batalha distante sob falsos pretextos.

Muitos antigos simpatizantes dos trabalhistas disseram que foi apenas o apoio de última hora de Brown na campanha eleitoral que protegeu o primeiro-ministro de uma reação negativa ainda maior por causa do Iraque. Tal percepção poderá fortalecer a reivindicação da liderança por Brown.

"Tony Blair entrou nesta eleição cheio de esperança por um terceiro mandato, entusiasmado em vender uma visão doméstica renovada para um país que ele achou já estar cheio dos antigos argumentos sobre assuntos externos --ansioso para renovar a si mesmo", escreveu Jackie Ashley em uma coluna no jornal "The Guardian", pró-trabalhista, na quinta-feira.

"Mas não funcionou desta forma. Ele tem estado na defensiva, um líder com um ferimento fatal. Em vez de proteger o partido, o partido o protegeu, com um sério custo para si mesmo. Qualquer um que sugerir agora que a vitória trabalhista pode ser vista como uma vitória pessoal de Blair é um triste fantasiador", ela escreveu.

"A pergunta não é se ele dará lugar para Brown, mas quando", disse Ashley. Por tudo isto, a campanha produziu uma notável mudança na imagem pessoal de Blair. Durante grande parte de seus oito anos no poder, ele tem sido acusado de se comportar de forma presidencial, projetando a si mesmo como o maior ativo eleitoral de seu partido. Nesta campanha ele raramente foi visto sem Brown ou outro peso pesado do Partido Trabalhista ao seu lado.

Alguns chamaram Brown de seu "escudo humano", desviando as críticas dos simpatizantes do Partido Trabalhista contra a decisão de Blair de entrar na guerra como principal aliado do presidente Bush.

Isto, por sua vez, acentuou os estilos e personalidades diferentes do austero e às vezes mal-humorado Brown e do mais carismático Blair.

Quando apareciam juntos, em teatros e prefeituras, Blair se apresentava sem paletó, transmitindo sua mensagem em discursos não previamente redigidos. Parecendo menos à vontade e mais formal, Brown mantinha seu terno e carregava documentos espessos com dados indexados com adesivos para extrair argumentos para reforçar a causa trabalhista.

Mas igualmente, a vitória dos trabalhistas significa uma terceira derrota esmagadora para os conservadores sob seu líder, Michael Howard. Apesar de a oposição ter conquistado algumas cadeiras, os ganhos parecem aquém de uma mudança decisiva na futuro do partido, pressagiando o que provavelmente será um período de introspecção e levante dentro das fileiras conservadoras.

Howard disputou a eleição em uma campanha com foco estreito e --segundo seus críticos-- negativa, explorando os temores britânicos em temas básicos como imigração, crime e saúde.

Mas a campanha, coreografada por um estrategista australiano recluso, Lynton Crosby, não resolveu o conflito dentro do Partido Conservador entre seu compromisso tradicional com baixos impostos e governo pequeno e as novas promessas de Howard de manter elevados os gastos públicos.

Também parece que Howard foi incapaz de apagar da memória dos eleitores sua impopularidade pessoal --e a rejeição dos eleitores aos conservadores como um todo-- antes de Blair chegar ao poder. De fato, Howard tem sido perseguido pelo seu próprio passado.

Em um layout de primeira página, o tablóide "Daily Mirror" exibiu na quinta-feira Howard como Drácula --uma aparente referência às suas origens como filho de um pai imigrante romeno, e a evocação de um comentário de um adversário de que havia "algo noturno" nele.

O desafio diante de Howard é ir além da leal região central conservadora --às vezes apelidada de gaiola dourada-- que é composta por cerca de um terço dos eleitores britânicos. Mas ele foi acusado por seus adversários de ter apenas reacendido sua própria impopularidade e a do partido antes da eleição de 1997.

Howard foi acusado --até mesmo por alguns conservadores-- de realizar uma campanha perigosamente negativa, atacando Blair como mentiroso em relação à guerra no Iraque ao mesmo tempo em que se concentrava em cinco pontos: hospitais mais limpos, disciplina escolar, impostos mais baixos, controle da imigração e policiamento mais eficiente.

Anatole Kaletsky, um colunista do "The Times" de Londres, escreveu na quinta-feira que ao "lembrar muitos eleitores sobre o motivo por que odiavam os tories (conservadores), mesmo no auge de Margaret Thatcher, Howard parece ter pavimentado o caminho para outro triunfo trabalhista".

A campanha estreita dos conservadores "adiou o dia em que os tories poderão despontar como uma alternativa de governo plausível ou, pelo menos, uma oposição séria", disse Kaletsky.

Também pode ter ocorrido entre os eleitores uma sensação de mal-estar após anos com os mesmos governantes. Alguns disseram que era hora de alguém diferente.

"Oito anos é muito tempo", disse John Hall, 70 anos, um pesquisador aposentado, enquanto circulava por uma loja de caridade no distrito de Finchley, no norte de Londres. "É hora de um pouco de mudança."

De fato, Miriam Hollington, gerente de uma livraria na mesma área, disse: "Gordon Brown? Isto é bem melhor do que Blair".

"Parece haver um pouco mais do antigo trabalhismo em Brown do que em Blair", disse ela, usando o termo político para políticas trabalhistas mais tradicionais e menos movidas pelo mercado.

Mas alguns vêem problemas à frente para o solene Brown, mesmo se ele assumir o governo. "Gordon Brown será muito austero. Ele precisa mudar para ser bem-sucedido na próxima eleição", disse Philip Horesh, um contador. Trabalhistas conseguem um histórico terceiro mandato consecutivo George El Khouri Andolfato

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