UOL Notícias Internacional
 

06/05/2005

Colômbia faz concessões forçadas para os EUA

The New York Times
Juan Forero

Em Bogotá, Colômbia
Dois soldados americanos que foram presos pela polícia colombiana sob suspeita de contrabando de armas foram entregues à embaixada dos Estados Unidos nesta quinta-feira (5/5). A proteção da qual eles beneficiaram irritou as autoridades da Colômbia, assim como a população do país, uma vez que uma grande maioria estima que os dois deveriam ter respondido a processo aqui mesmo.

Amparados pelas cláusulas de um tratado assinado entre os dois países, Allan Tanquary e Jesus Hernandez, que estavam estacionados na Colômbia no quadro do programa americano visando a combater a produção e o tráfico de drogas e os rebeldes marxistas neste país, e cujas patentes não foram tornadas públicas, serão investigados pela administração militar americana, e, caso eles forem incriminados, terão de responder a um processo nos Estados Unidos.

Os dois homens haviam sido presos na terça-feira (3) juntos com quatro colombianos, num condomínio fechado de luxo em Melgar. No local, a polícia encontrou 32 mil cartuchos de munições, os quais, segundo informaram os acusados, eram destinados aos grupos paramilitares de extrema direita.

O caso deixou os dirigentes norte-americanos fortemente embaraçados.

Na quinta-feira, um porta-voz negou que a administração Bush estivesse auxiliando secretamente a brutal organização paramilitar da Colômbia, conhecida pelo nome de Forças Unidas de Autodefesa, na sua luta contra os rebeldes marxistas.

"Não existe nenhuma política, nenhuma espécie de apoio, nem qualquer inclinação por parte dos Estados Unidos, e nenhuma operação militar americana no sentido de fornecer armamentos às forças paramilitares colombianas", declarou Richard A. Boucher, um porta-voz do Departamento do Estado, em Washington. "Nós já declaramos em várias oportunidades que nós consideramos esses grupos como sendo facções terroristas".

Entre as autoridades colombianas, alguns altos-funcionários tentaram impedir que os soldados americanos fossem transferidos. O inspetor-geral do governo da Colômbia, Edgardo Maya, enviou uma carta nas primeiras horas da quinta-feira para o escritório do procurador geral do Estado, solicitando que os soldados sejam retidos no país até que as autoridades colombianas consigam determinar se os diversos tratados existentes que conferem imunidade aos cidadãos americanos não ferem a Constituição do país, a qual entrou em vigor em 1991.

Contudo, o escritório do procurador-geral já havia transferido os homens, que já se encontravam naquele momento sob custódia norte-americana.

"Tudo isso mostra mais uma vez que nós estamos submetidos à força e à autoridade dos Estados Unidos", acredita Andres Baca, 63, um corretor de seguros que se encontrava no local quando os homens foram detidos.

"O que funciona para eles, funciona mesmo e apenas para eles, e o que eles não querem fazer, eles não fazem. O nosso sistema judiciário está dominado pelos Estados Unidos".

Os colombianos ainda estão fortemente ressentidos com o fato de James C. Hiett, o antigo coronel do exército que dirigiu no passado a missão militar norte-americana aqui, ter recebido uma pena de apenas cinco meses de prisão pronunciada por um tribunal do Brooklyn, em 2000, por ter evitado assinalar que a sua mulher fizera contrabando de heroína entre Bogotá e Nova York, aproveitando-se da imunidade diplomática.

Por sua vez, a sua mulher, Laurie Ann Hiett, recebeu uma pena de cinco anos de prisão, enquanto o motorista do casal, o colombiano Jorge Alonso Ayala, permanece numa prisão colombiana, onde ele cumpre uma sentença de oito anos.

Os colombianos também estão se perguntando se três soldados americanos que foram presos no Texas por estarem fazendo tráfico de cocaína a partir da Colômbia serão mesmo alvos de condenações severas.

"O que nos deixa mesmo assustados e preocupados são esses tratados de imunidade", explicou Diana Murcia, uma advogada que pertence ao Coletivo de Advocacia, um grupo baseado em Bogotá que defende a tese segundo a qual as operações anti-drogas norte-americanas na Colômbia violam as leis deste país.

"Isso lhes permite cometerem crimes impunemente. Eles têm todo o amparo de que precisam para fazerem o que eles bem entendem".

Este mais novo escândalo é particularmente preocupante, uma vez que a polícia colombiana acusou os soldados americanos de estarem cultivando laços com uma organização paramilitar que se notabilizou por matar milhares de civis colombianos e que financia as suas atividades de guerra por meio do tráfico de drogas.

As acusações deixam numa posição particularmente delicada o presidente Álvaro Uribe, cujo governo não obteve qualquer resultado até hoje nas negociações visando a desarmar os 15 mil membros que integram este grupo.

Uribe já se encontrava sob fogo cerrado por parte das Nações Unidas, de grupos de defesa dos direitos humanos e de vários congressistas colombianos, por estar trabalhando na aprovação de uma nova legislação, a qual deveria ser votada até o final deste mês, visando ao desmantelamento dos grupos paramilitares que agem em território colombiano.

Estes críticos afirmam que são poucas as garantias que a nova lei oferece de que esses grupos paramilitares serão mesmo desmantelados, nem de que os seus comandantes revelem os seus procedimentos internos.

Além disso, dentro dos termos desta lei, os comandantes paramilitares, mesmo aqueles que estão sendo procurados por crimes de guerra, cumpririam de fato penas de menos de três anos, trabalhando a serviço da comunidade em fazendas das regiões que eles controlam, em função das reduções de penas que eles obteriam pela sua participação em palestras e por bom comportamento. Soldados americanos presos por tráfico de armas são liberados Jean-Yves de Neufville

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