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06/05/2005

'Cruzada' é um épico sangrento fortalecido pela fé

The New York Times
Manohla Dargis

Crítico de cinema do NYT
Quase ao final de "Cruzada" (Kingdon of Heaven, EUA, 2005), um triste épico histórico de Ridley Scott a respeito das sangrentas orgias religiosas conhecidas como Cruzadas, a câmera se afasta do tumulto da batalha.

Colocada no alto, como se assumisse a visão de um pássaro de passagem ou de algum ser divino, ela olha para baixo enquadrando uma cena medieval que condensa o barbarismo que consumiu as duas horas anteriores de filme --a carne empalada, os ossos esmagados, as evocações de fé inflamadas e vazias. Vistos dessa altura elevada, os cruzados cristãos e os guerreiros muçulmanos lá embaixo não se assemelham mais a homens, ou a exércitos guerreiros de Deus, mas a bactérias observadas por meio de um microscópio.

Tirando a aparição de dois escarnecedores emissários papais, essa imagem a partir de um plano elevado de homens em combate é o cenário mais próximo possível para Scott de um comentário real sobre as Cruzadas, neste filme curiosamente imparcial sobre a incursão cristã na Terra Santa.

Escrito por um novato, William Monahan, "Cruzada" é ostensivamente uma das narrativas mais destituídas de preconceitos e imparciais a respeito de um dos capítulos mais repletos de preconceitos e parcialidades da história humana.

À época, cristãos europeus rumaram para o Oriente Médio por mais de 200 anos. Tendo em vista o custo presumivelmente alto do filme, o seu alcance global e o estado atual das relações mundiais, com guerreiros de diferentes fés e ideologias lutando entre si em nome de Deus e do terrorismo, tal visão das Cruzadas não chega a surpreender.

Quem pintar uma grande religião com cores muito negativas poderá perder uma grande parcela do mercado cinematográfico internacional.

O historiador Robert Wolff chamou as Cruzadas de "uma longa história de ambição, estupidez, traição, duplicidade e incompetência". Scott começa a sua narrativa na França, pouco antes da Terceira Cruzada, por volta do final do século 12, com um ferreiro enlutado, Balian, interpretado pelo ator Orlando Bloom, encontrando um pai que nunca vira, Godfrey of Ibelin (Liam Neeson).

Rumo a Jerusalém, onde deu a sua contribuição para a guerra santa, Godfrey faz uma pausa para dar ao filho legitimidade e um título. Inicialmente relutante, Balian aquiesce em parte porque a morte recente de sua mulher o deixou sem um lar, e ainda porque a Justiça está no seu encalço, um elemento que dá a Scott a desculpa para muito rapidamente --para pegar emprestada uma frase memorável do último épico do diretor, "Gladiador"-- "soltar os diabos".

Scott é um virtuose da violência cinematográfica, e ele não desaponta neste filme. "Cruzada" é cheio de cenas após cenas de mutilações coreografadas.

Pouco após Balian e Godfrey juntarem forças, acompanhados por outros cruzados, entre os quais há um monge que cavalga bem e maneja com habilidade a espada (em uma performance caracteristicamente boa de David Thewlis), eles são acossados por soldados que desejam levar o ferreiro à Justiça. (Antes disso, Balian desrespeita a lei, e também revela o seu perfil para cruzado ao jogar um homem numa fogueira).

Em meio a uma profusão de cortes de cena rapidíssimos e movimentos súbitos de câmera, jorros de sangue e nuvens de poeira, os homens se enfrentam sem piedade.

Um cruzado tenta arrancar uma flecha profundamente cravada no seu torso, enquanto um outro se ajoelha, desorientado em meio à poeira, cuspindo sangue devido a uma seta que lhe atravessa o pescoço.

Após começar com barulho, Scott procura manter o ritmo da sua história com várias outras cenas viscerais e freneticamente violentas. Logo após se conhecerem, Balian e Godfrey separam-se, e o filho termina navegando para o Oriente Médio sem o pai.

O que ocorre a seguir é um naufrágio e uma luta pela vida no deserto (nessa parte do mundo não há nem locais de desembarque nem portos seguros), seguida de uma tranqüilidade durante a qual Balian se debate com uma crise de fé.

A morte da mulher fez com que ele questionasse a sua crença em Deus, uma crise que se adéqua ao personagem, mas que tira da história tanto o ímpeto narrativo quanto o sentido, já que isso significa que a obra é um filme sobre as Cruzadas que não conta com um cruzado convincente.

Tantos crentes quanto incrédulos participaram das Cruzadas, saindo da Europa em direção ao Oriente Médio por uma série de razões espirituais e políticas (um historiador disse que participar de uma Cruzada era "um ato de amor).

Não existe consenso quando se trata de determinar se as cruzadas eram campanhas ofensivas ou defensivas, embora tal polêmica pareça não ter sentido, tendo em vista o terrível número de baixas.

Qualquer que seja o caso, Scott embasa cuidadosamente o filme nos justos e tolerantes, mantendo os vilões de verdade à distância e poucos personagens entre os dois extremos.

Nesse contexto, Balian inicialmente se porta como um tipo de Hamlet ecumênico, que não reflete sobre a questão da morte, mas sobre a fé, e, a seguir, quando é obrigado a proteger Jerusalém das tropas muçulmanas, se transforma em uma espécie de Henrique 5º que se dirige aos fiéis com um discurso que lembra o do Dia de São Crispin.

Bloom faz o seu discurso nada convincente em meio a uma batalha feroz na qual o líder muçulmano, Saladino, tenta recuperar Jerusalém, tomada pelos cristãos.

Saladino é interpretado pelo ator de cinema sírio Ghassan Massoud. Com o seu rosto enrugado e túnicas negras esvoaçantes, Massoud comanda essa cena, com uma intensidade silenciosa que é um alívio após a pouca sensibilidade de Bloom e do resto do elenco. Só um divertido Jeremy Irons, no papel do principal conselheiro do rei de Jerusalém, tem um papel capaz de contrabalançar tal passagem.

A forma como os fatos se desenrolam será familiar para os estudantes de religião e para os espectadores. Scott e Monahan trabalham de forma rápida e flexível com fatos e personagens, mas aqui a principal diferença entre a história e Hollywood é que não existem vilões, a não ser Guy de Lusignan (Marton Csokas), um barão cuja covardia é imediatamente assinalada pelo seu sotaque francês. "Me dê uma guerra", ruge ele para o seu escudeiro, interpretado por Brendan Glesson.

Gleeson e Eva Green, no infeliz papel de foco das atenções amorosa de Balian, uma dona de casa em desespero que parece morar em uma espécie de spa fabuloso, trazem "Cruzada" para um território perigosamente mundano, o que é deprimente em se tratando de um cineasta com o talento de Scott.

Sentindo-se igualmente à vontade no futuro e no passado, Scott parece ter nascido para dirigir épicos. O seu estilo visual arrebatador, caracterizado por uma atenção fetichista para os detalhes superficiais e a beleza esplendorosa, podem fazer milagres com temas grandiosos, mas ele é ao mesmo tempo um diretor que necessita de atores suficientemente poderosos para sustentarem a narrativa e os extremos emotivos.

Um dos motivos pelos quais "Gladiador" funcionou tão bem foi o fato de o astro do filme, Russel Crowe, ter conseguido encarnar de forma verossímil um dos heróis angustiados e existencialmente solitários típicos de Scott, enquanto ao mesmo tempo vestia uma saia e soltava certas frases infelizes.

É necessário um ator tão sério quanto Crowe para carregar o peso das ambições de Scott; e também uma história na qual o próprio Scott possa acreditar para que o produtor faça o mesmo.

"Cruzada" (Kingdom of Heaven)

Produzido e dirigido por Ridley Scott; escrito por William Monahan; diretor de fotografia, John Mathieson; editado por Dody Dorn; musica de Harry Gregson-Williams; planejador de produção, Arthur Max; lançado pela 20th Century Fox. Duração: 145 minutos.

Elenco: Orlando Bloom (Balian), Eva Green (Sibylla), Jeremy Irons (Tibério), David Thewlis (Hospitalário), Brendan Gleeson (Reynald), Marton Csokas (Guy de Susignan), Liam Neeson (Godfrey of Ibelin) e Ghassan Massoud (Saladino).

Nos Estados Unidos, "Cruzada" obteve a classificação de "R" (pessoas com menos de 17 anos têm que estar acompanhada de um pai ou responsável). O filme contém muita violência sangrenta, com várias cenas de empalamento e algumas decapitações, entre outras barbaridades. Também são exibidas algumas cenas discretas de sexo. Filme evidencia o grande talento de Ridley Scott para narrar épicos Danilo Fonseca

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