UOL Notícias Internacional
 

07/05/2005

Kerry segue na concorrência, mas sem concorrer

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

Em Washington
Pergunte ao senador John Kerry se concorrerá novamente à presidência em 2008 e a resposta vem rápida e certeira: "Não tenho a menor idéia." Mas em St. Paul, Minnesota, onde Kerry falou a 250 partidários entusiasmados sobre seu projeto para a saúde infantil, na última terça-feira (3/5), o cenário foi muito diferente.

Allen Brisson-Smith/The New York Times

Democrata --que obteve cerca de 57 milhões de votos em 2004-- faz discurso em Minnesota
Enfermeiras, membros do sindicato e ex-voluntários de campanha fizeram perguntas leves a Kerry, enquanto meia dúzia de republicanos, inclusive gêmeos idênticos fantasiados de sandálias havaianas, faziam um protesto no estacionamento. Dentro do salão, os pais incapazes de pagar o seguro médico dos filhos, compartilharam histórias sofridas.

Em certa altura, um menino de 12 anos ruivo de cabelo encaracolado e óculos perguntou, em tom de reclamação: "Os republicanos sabem o que estão fazendo?"

O candidato --ou não candidato, como diria Kerry-- caiu na gargalhada. "Meu jovem", respondeu Kerry, "vou levar você comigo".

A grande questão, obviamente é para onde vai Kerry?

Seis meses após perder as eleições para Bush, Kerry, em breve entrevista em St. Paul, insistiu que queria "seguir adiante". No entanto, seguir adiante se provou complicado para o senador de Massachusetts.

Sendo mais que um senador ordinário e menos que um candidato presidencial, Kerry é um político indefinido. Ele tem mais de US$ 8 milhões (em torno de R$ 20 milhões) no banco e uma lista de endereços eletrônicos de 3 milhões de partidários. Mesmo assim, ele tem que se provar para os colegas democratas e manter suas perspectivas presidenciais vivas, mesmo insistindo que é cedo demais para falar sobre 2008.

Kerry tornou a saúde infantil sua questão prioritária; sua parada em St. Paul fez parte de uma viagem nacional por quatro cidades nesta semana para divulgar sua proposta, chamada "As Crianças Primeiro". A idéia é fornecer cobertura para 11 milhões de crianças que não têm seguro médico --tema central de sua campanha para presidente.

Ele está expandindo sua organização política e atraindo outros democratas, pelo antigo e testado método de sedução política --o dinheiro. Ele doou mais de US$ 3 milhões (em torno de R$ 7,5 milhões) a vários comitês de campanha democratas e promoveu um evento para levantar fundos em Boston para a campanha de reeleição de 2006 daquela que é considerada sua maior rival à nomeação democrata de 2008: a senadora Hillary Rodham Clinton, de Nova York.

"Somos amigos e colegas há muito tempo", disse a senadora Clinton na quinta-feira, em uma entrevista por telefone de Nova York, acrescentando: "Fico muito feliz que ele pudesse ter feito algo assim por mim."

Os democratas, porém, dizem que Kerry teve pouca escolha. "Ele precisa mostrar que é homem do partido, que está disposto a ajudar qualquer um", disse Steve Jarding, estrategista democrata. "Quando você não tem repórteres e líderes de opinião vindo a você e dizendo: 'Você é o líder da oposição, você é o chefe titular do partido', é difícil entrar."

De fato é tão difícil que nem um único democrata entrevistado descreveu Kerry como o principal candidato do partido para 2008. A maior parte fez eco ao senador Byron L. Dorgan, de Dakota do Norte, membro da liderança democrata, que disse: "Não há um caminho claro para a nomeação de ninguém. Acho que seria bom para o nosso partido ter uma competição agressiva."

Dentro do Senado, Kerry desagradou colegas democratas cancelando duas vezes palestras ao Comitê de Política Democrata sobre as lições que aprendeu em 2004. Kerry disse que a hora para esse tipo de discussão tinha passado.

"Isso é voltar atrás" disse ele, "e não quero voltar atrás. Quero ir para frente."

Mas ir para frente algumas vezes significa confrontar colegas democratas. No início do ano, assessores democratas disseram que Kerry tinha trocado palavras duras com o senador Harry Reid, líder democrata --uma informação que Kerry negou como "absolutamente absurda".

Mais recentemente, o senador Mark Dayton, democrata de Minnesota, foi citado no jornal de sua cidade como tendo dito que Kerry o tinha procurado no plenário com "chamas nos olhos", reclamando que ele tinha apresentado a senadora Clinton em um jantar como "a próxima grande presidente dos EUA".

Dayton evitou perguntas sobre o incidente e Kerry disse: "Eu estava brincando, e acho que fui mal interpretado".

Alguns democratas dizem que Kerry merece muito crédito. Al Gore retirou-se da vida pública depois de perder a disputa de 2000, enquanto Kerry está usando sua posição como senador para falar de questões de saúde.

De seu assento no Comitê de Relações Exteriores do Senado, ele levanta questões para os candidatos a cargos executivos, mais recentemente John R. Bolton, nomeado embaixador na Organização das Nações Unidas.

"Acho que a forma como ele vem se dispondo a buscar seu caminho é um verdadeiro tributo", disse Clinton, acrescentando que Kerry tinha "voltado ainda melhor e mais forte como senador".

Donna Brazile, que dirigiu a campanha de Gore, disse: "John Kerry está garantindo seu espaço no radar político, e o aplaudo por isso".

Mas Kerry não está sozinho nesse esforço. Seu ex-companheiro de chapa e potencial rival em 2008, John Edwards, também está fazendo aparições políticas e montando uma organização. Ele criticou as decisões táticas feitas pela campanha Kerry-Edwards no ano passado. A isso, Kerry disse secamente: "Ele tem o direito de falar sobre o que quiser."

Em St. Paul, Kerry disse que gostava de seu novo papel. "Adoro o movimento pelos direitos", disse ele. "Adoro o esforço desta organização".

Ele disse que não sentia falta da campanha, apesar de o evento lembrar muito os eventos de 2004. Sem cordas de segurança ou agentes do serviço secreto, seus partidários puderam se agrupar à sua volta, posando para fotos e pedindo autógrafos. Kerry atendeu a todos, dizendo mais tarde que a única forma de "mudar a atual dinâmica política" era "sair e fazer movimento de base".

No Capitólio, porém, Kerry é arisco, raramente visto nas conferências com a imprensa ou em outros eventos públicos democratas. Mesmo assim, ele não consegue escapar à intimidade do local: o homem que chegou a milímetros de ser líder do mundo livre foi visto, em tarde recente, na fila do refeitório do subsolo do Senado, esperando ao lado dos burocratas para pegar alface de uma bandeja de plástico.

"Você sabe", disse Kerry, quando questionado sobre isso, "nem penso. Só
sigo adiante." Senador faz o que parece ser uma discreta campanha rumo a 2008 Deborah Weinberg

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