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07/05/2005

Política no Reino Unido entra em compasso de espera após vitória de Blair

The New York Times
Sarah Lyall

Em Londres
Ele tem esperado a sua vez, com uma impaciência que aumenta e diminui, durante mais de 11 anos. E agora que o Partido Trabalhista obteve o seu terceiro mandato, a questão para Gordon Brown, o chanceler do Tesouro britânico, um homem nitidamente ambicioso, é: quando o primeiro-ministro Tony Blair finalmente cederá a vaga para ele?

Ninguém discute que Brown é o aparente herdeiro do trono ocupado por Blair durante tanto tempo. Mas não está claro quando a tão aguardada transferência de poder poderá ocorrer.

Embora Brown preferisse que isso se desse o mais rapidamente possível, Blair --vitorioso, mas com a estatura política diminuída após a eleição de quinta-feira-- não estão não focado nessa idéia.

Como chanceler, um cargo equivalente ao do secretário de Tesouro nos Estados Unidos, Brown, 54, gozou de um poder incomum, sendo quase que um parceiro, em vez de subordinado a Blair.

O seu histórico econômico revelou ser o ponto mais atraente da campanha dos trabalhistas, e a sua presença próxima ao primeiro-ministro durante a corrida eleitoral foi um trunfo e um conforto para o partido. Ele é o chanceler que mais tempo serviu nos últimos cem anos.

Roy Hattersley, autor e ex-vice-líder trabalhista, o chamou recentemente de "o mais bem sucedido chanceler, possivelmente de todos os tempos".

No entanto, para além da reputação fiscal de Brown existe algo que pode se revelar como ainda mais precioso para o surrado Partido Trabalhista.

Trata-se da credibilidade.

O atual período é delicado para Blair, que já foi o enérgico e popular homem de vanguarda na revolução que chamou de Novo Trabalhismo. A sua estrela caiu; ele é visto como escorregadio e traiçoeiro, tendo agido de forma ambígua ao lançar o Reino Unido em uma guerra impopular com o Iraque, e muitas vezes trocado as questões concretas por um charme teatral e fácil.

Já Brown é visto como um discursador direto, um homem fiel ao partido, dotado de integridade e que combina os antigos valores trabalhistas com a prudência financeira necessária.

James Gordon Brown nasceu em 20 de fevereiro de 1951, em Glasgow, o segundo de três filhos de um pastor da austera Igreja da Escócia, cuja devoção chegava a ponto de acreditar que comprar jornais aos domingos seria uma atitude contrária aos preceitos divinos.

Os tempos eram difíceis, e os trabalhadores despedidos começaram a mendigar na sua porta quando a fábrica local de linóleo foi fechada.

Dotado de uma forte ética de trabalho, uma simpatia permanente pelos menos favorecidos e, segundo disse mais tarde, "uma filosofia simples e básica, baseada na tradição cristã, segundo a qual os seres humanos são capazes de modelar as circunstâncias segundo as quais vivem", o precoce Gordon ingressou na Universidade de Edimburgo aos 16 anos.

Ele mergulhou na política estudantil e galgou os escalões do Partido Trabalhista escocês até ser eleito para o Parlamento em 1983. Lá, ele e outro jovem militante trabalhista, Tony Blair, deram início à longa tarefa de modernizar o seu problemático partido.

Embora o seu talento nunca tenha sido colocado em dúvida, a personalidade de Brown é aparentemente algo que parece ter sido adquirido com o passar do tempo. Amarrotado e com uma aparência cansada, e tendo, segundo o historiador Peter Hennessy, "as habilidades sociais de um cafetão", ele é regularmente descrito como uma pessoa circunspecta, séria, avessa a intrigas e extremamente obcecada pela política.

Brown casou-se com uma ex-executiva da área de relações públicas aos 49 anos, e o casal tem um filho pequeno. O seu terrível pesar depois que um filho anterior morreu quando bebê foi um dos principais fatores responsáveis pela humanização do chamado "Chanceler de Ferro" aos olhos da população.

Embora a economia britânica já tivesse começado a se expandir quando os trabalhistas chegaram ao poder, Brown desde então assumiu o crédito por isso: crescimento econômico sustentado, baixo índice de desemprego, e reduzidas taxas de juros e de inflação.

Determinado a colocar um fim à antiga reputação dos trabalhistas de serem um partido marcado pela irresponsabilidade no gasto dos impostos arrecadados, ele a princípio manteve os gastos sob rédea curta, e depois dirigiu as verbas acumuladas para o serviço público, especialmente no carente Serviço Nacional de Saúde.

Isso não significa que as boas novas não vão continuar, ou que o chanceler seja universalmente admirado. Criticando aquilo que segundo ele foi "um frenesi de gastos públicos e uma farra de recrutamento no setor público" por parte de Brown, Allister Heath, editor do jornal "Business" escreveu recentemente em "The Spectator":

"A performance de Brown nos últimos oito anos foi altamente exagerada, e o futuro parece repleto de ameaças" --com taxas de juros ameaçando subir à medida que os britânicos lutam contra níveis recordes de dívida pessoal.

Brown, que nos últimos meses voltou a sua atenção para a tarefa de pressionar os países ricos para que aumentem a ajuda de desenvolvimento em bilhões de dólares, nunca fez segredo quanto às suas ambições políticas. Mas o seu relacionamento longo e tortuoso com Blair só aumentou a sensação de que existem águas rolando por debaixo dessa superfície fleumática e estranha.

Costuma-se dizer que os dois mapearam os seus respectivos futuros políticos durante um jantar em 1994. Dizem que Brown concordou em não contestar a liderança de Blair sobre o Partido Trabalhista em troca da promessa deste último de que, caso os trabalhistas fossem eleitos, ficaria com o cargo de chanceler e acumularia poderes --e finalmente abriria caminho para que Brown chegasse ao topo.

Nenhum dos dois nunca confirmou tais detalhes. Mas o acordo começou a desmoronar após vários anos, quando ficou claro que Blair não planejava realmente ceder poder, e uma guerra secreta entre os dois começou a ser travada na forma de vazamentos e contra-vazamentos nos jornais britânicos.

Segundo Robert Peston, Brown acabou se enfurecendo tanto com as promessas vazias de Blair que disse ao primeiro-ministro: "Você jamais poderá me dizer algo no qual eu acredite".

Brown não admitiu ter dito tal coisa, e tampouco negou. De qualquer forma, o par colocou as suas diferenças de lado em uma grande demonstração de unidade e de apoio mútuo durante a campanha, e Blair chegou a comparar a parceria a "um casamento".

Na semana passada, em uma entrevista ao jornal "The Times" de Londres, Blair deixou claro que sempre acreditou que "Gordon será um excelente primeiro-ministro".

Ele só não disse quando. Dúvida é quando o premiê cumprirá suposto acordo com Brown Danilo Fonseca

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