UOL Notícias Internacional
 

09/05/2005

Como os quadrinhos conquistaram as estrelas de Hollywood

The New York Times
Por A.O. Scott
Um dos poucos momentos memoráveis na atuação devastadora e "queimadora de pontes" de Chris Rock como apresentador da transmissão do Oscar esse ano foi a observação dele de que, enquanto Russell Crowe é uma genuína estrela do cinema, Tobey Maguire é "um rapaz em roupas colantes".

Esse comentário foi feito, e provavelmente feito com uma intenção até certo ponto deliberada, de ser uma tirada cruel contra um jovem bom ator. Mas de qualquer forma demonstra um axioma básico da cultura popular, que nada tem a ver em particular com a masculinidade de Maguire ou com os talentos de Crowe.

Para colocar a questão de uma maneira simples, um super-herói não é uma estrela de cinema, e vice versa. Na verdade, pode-se até dizer que, enquanto uma expressão cultural, o super-herói é o oposto - é a nêmesis ou vingança, o alter ego secreto, o gêmeo malvado, o duplo que vive no mundo do Bizarro - da estrela de cinema. E em seus combates pela salvação do mundo, apesar do deboche de Chris Rock (e apesar de ser um fato implicitamente refletido nesse deboche), os super-heróis estão vencendo.

A ascendência deles em Hollywood é um capítulo triunfal num épico que já dura 70 anos, nos quais os quadrinhos se deslocaram das regiões marginais, juvenis e de má reputação da cultura pop para o centro desse mundo. E não apenas para o centro do mundo da cultura pop, mas também para o meio da literatura mais elevada, já que jovens romancistas da meia-idade como Michael Chabon e Jonathan Lethem encontraram no mundo encantado da idolatria juvenil um rico material para mitos, mistérios e climas de uso imediato.

O prestígio dos quadrinhos - e eu me refiro aos mais antigos, baratos e sórdidos, e não aos "comix" ou às "graphic novels" - é que é o mais
impressionante. Isso porque, durante a maior parte de sua história, os quadrinhos contaram com o efeito de desdém que provocavam nos intelectuais literários, sem falar no pânico entre os moralistas e na condescendência do show business mais convencional, onde viam as histórias como material abundante para desenhos animados e shows infantis bregas.

Já estão distantes os dias em que críticos de cinema desejavam que os quadrinhos simplesmente desaparecessem - como Robert Warshow escreveu num ensaio brilhantemente ambivalente de 1954, sobre a devoção de seu jovem filho aos super-heróis. Agora os super-heróis exigem ser levados tão a sério como eles mesmos sempre se consideraram.

Ainda mais porque eles estão rendendo dinheiro muito sério. O motivo ostensivo da piadinha de Chris Rock é que somente um punhado de estrelas de cinema certificadas pode garantir o sucesso nas bilheterias, e que os executivos dos estúdios devem levar isso em conta quando escalam seus filmes-canddidatos ao sucesso.

Mas as cifras contam uma história um pouco diferente, já que os filmes estrelados por Maguire em roupas colantes, como "Homem-Aranha" e
"Homem-Aranha 2", tiveram duas das maiores aberturas de bilheteria em finais de semana na história do cinema, e já superaram o catálogo completo da obra de Russell Crowe. O crédito rendido por essas altas cifras, nem precisa dizer, se deve mais ao "Aranhão" do que à pessoa que veste sua fantasia. E agora o homem das teias e sua turma são os seres que dominam o reino das bilheterias.

Enquanto encolhe o número de estrelas de cinema - agora elas são oito, ou ainda são 10? Brad Pitt ainda está dentro? - a lista de justiceiros
fantasiados que atuam na tela grande está crescendo. No dia 15 de junho, Batman estará de volta - quer dizer, "Batman Begins". Pois o Batman já havia voltado há uns 13 anos, e agora será uma espécie de segundo fascículo da volta da série.

E o Quarteto Fantástico também chega para fazer companhia aos seus bem-sucedidos colegas da Marvel, os X-Men. Além disso, um novo Superman ("Super-Homem") e uma Mulher Maravilha recauchutada já estão no horizonte, e o saber convencional do momento indica que há espaço para todos eles, e para outros também. Até mesmo para a segunda divisão- e a terceira. Na lista dos benfeitores - onde estão os Hellboys e Punishers, os Blades e a Elektra (do Dominador, e que agora fará um solo) - todos têm suas possibilidades de ganhar boa grana.

Fracassos eventuais - os ambiciosos e frustrados como o "Hulk" ou os extravagantemente terríveis como a "Mulher-Gato" - parecem apenas servir para afiar o apetite do público e a ganância dos executivos dos estúdios.

Ao contrário das estrelas do cinema, super-heróis não têm agentes, problemas com peso ou com drogas, crenças políticas controvertidas ou exigências salariais absurdas, e o poder que eles detêm nas bilheterias ainda não enfrentou nenhuma kriptonita mortal.

Mais provas da rivalidade entre estrelas do cinema e super-heróis podem ser encontradas já nas primeiras páginas de "Men of Tomorrow" ("Os Homens do Amanhã"), narrativa ágil e informativa de Gerard Jones que reconta as origens da cultura moderna dos quadrinhos, num livro publicado em 2004. Numa situação logo na abertura, e para onde o resto do livro sempre volta em flash-back, Jerry Siegel, um dos adolescentes de Cleveland que imaginaram as aventuras do Superman lá nos tempos da Grande Depressão, está lendo um artigo de seção especializada sobre um filme que seria logo produzido baseado em sua criação. Com isso, o autor dos quadrinhos se vê diante de outro conflito em sua interminável luta para ser reconhecido e bem compensado.

A situação cômica, que acontece em algum momento de meados dos anos setenta, coloca sob uma perspectiva dramática tanto o amargo exílio vivido por Siegel em relação ao mundo que ele mesmo ajudara a inventar como também a avalanche multimídia que viria a revolucionar os livros em quadrinhos. A Warner Brothers, que naquela época havia adquirido há pouco tempo a empresa National Periodical Publications, controladora da DC Comics, estava engrenando um movimento que numa era posterior seria chamado de sinergia, e tinha altos planos para "Superman". Havia um roteiro de 300 páginas escrito por Mario Puzo ("O Poderoso Chefão"), e entre os candidatos para interpretar o Homem de Aço sabidamente estavam Clint Eastwood, Paul Newman e Dustin Hoffman.

Esses nomes, que constam na primeira página do prólogo de Jones, são no máximo incidentais na narrativa, mas de qualquer forma captam a atenção do leitor, fornecendo um olhar de relance numa estranha história alternativa de Hollywood. Desnecessário dizer que nenhuma dessas estrelas conseguiu o papel.

E o exercício de imaginar qualquer um deles em roupas colantes e vestindo uma capa, equilibrando arranha-céus sem esforço, exige de nós mesmos poderes sobre-humanos de imaginação, resultando em imagens de um absurdo quase monstruoso.

Será que poderíamos ter mesmo um Superman cínico e de olhar torto ("Você acha que está com sorte? Acha mesmo, Lex Luthor?"), ou um Clark Kent marrentinho, nervoso e diminutivo ("Senhora Lane, está tentando me seduzir?")? E como poderia ser com Al Pacino, outra estrela "quente" do cinema dos anos 70, cujo nome seria cotado posteriormente?

A simples idéia - uau! - parece ser tão violadora das leis da natureza como a visão em raio X, o senso aracnídeo nos humanos ou o próprio vôo livre sem instrumentos. Parece que aconteceram razões específicas que afastaram cada um desses atores do projeto final, mas suas não-participações, em conjunto, estabeleceram uma regra que depois raramente foi violada.

Quando o elenco do primeiro filme "Superman" foi escalado, o papel-título seguiu para Christopher Reeve, que tinha as formas esculpidas, o porte e jeito travesso e auto-gozador que o fizeram parecer, na época e também agora num retrospecto, perfeitos para o personagem. O que ele não tinha era um nome bem conhecido ou uma imagem reconhecida, e isso também era perfeito.

Reeve, um ator razoavelmente talentoso e impecavelmente bem treinado, fez trabalhos interessantes em outros filmes, mas seu estrelato foi limitado, assim como viabilizado, por seu personagem mais famoso. E assim como os artistas, desenhistas e escritores, que deram vida ao Superman em sua encarnação primitiva e original, Reeve não possuía o personagem, mas o habitou, com graciosidade e bom humor, enquanto durou aquela franquia.

Agora a franquia está sendo revitalizada, com um australiano desconhecido chamado Brandon Routh, que estará vestindo aquelas botas vermelhas e glamurosas em "Superman Returns", no ano que vem.

Enquanto isso, em alguma parte do universo DC/Warner, o moribundo "Batman", iniciado por Tim Burton e arrasado por Joel Schumacher, também estará redivivo, com Christopher Nolan dirigindo "Batman Begins" e Christian Bale vivendo o jovem justiceiro mascarado. Bale, assim como Maguire - e como Eric Bana (o Hulk)- é um ator relativamente magro e sério, com carisma suficiente para viver o papel, mas sem aquele individualismo excessivo que poderia lhe obscurecer.

Os Batmans anteriores - Michael Keaton (por duas vezes), Val Kilmer e George Clooney - são talvez exceções que confirmam a regra. Cada um deles já fez - ou virá a fazer - alguma reivindicação de posição na mais genuína constelação cinematográfica, mas suas fugazes interpretações de Batman não contribuíram muito para elevar suas qualificações. E suas personalidades intensas e imprevisíveis - com aquelas idiossincrasias que podem formar a base para um estrelato definitivo - parecem bloquear nosso acesso à fantasia do super-heroísmo, que é baseada na transparência (ou neutralidade) psicológica. Estrelas de cinema são criaturas glamurosas que sonhamos conhecer algum dia, enquanto que os super-heróis são as pessoas que nós, secretamente, acreditamos que lá no fundo somos.

Essa dimensão de sigilo é crucial. Os quadrinhos marcaram a fundação de uma cultura do fã, que já foi ridicularizada e que agora é celebrada como território dos nerds, desajustados e perdedores - homens jovens, como seus alter egos idolatrados, que de tudo fariam para compensar suas condições de marginalidade social e para salvar a sociedade que debochou deles e os menosprezou. As histórias originais dos super-heróis são fábulas que lidam com a vergonha, a vitimização e o abandono, finalmente superadas com o exercício solitário da disciplina e um infindável auto-sacrifício. (Batman, o órfão que herdou a fortuna dos Wayne, e o Homem-Aranha, órfão da classe trabalhadora do distrito de Queens, em Nova York, têm em comum não só o fato de terem identidades secretas como também o pendor pela solidão e melancolia.)

Já as estrelas, por sua vez, são os "vencedores" mais bajulados na sociedade, saudados apenas por serem eles mesmos, atraindo a atenção de um jeito que os super-homens mascarados, disfarçados e ansiosos, jamais alcançarão.

Ou pelo menos é isso o que contam para a gente. Limitados em suas narrativas nas telas e páginas, os super-heróis serão "perdedores" perpétuos - um paradoxo que os mantém vivos ao longo de sua história. Mas como qualquer leitor de quadrinhos sabe, a vitória deles nunca é final, e assim as estrelas vitoriosas do cinema jamais desaparecerão desse universo. Elas sempre poderão encontrar trabalho interpretando os vilões, como Jack Nicholson e Arnold Schwarzenegger fizeram no primeiro e no quarto (e último) filme da série anterior de "Batman".

Então talvez nem tudo esteja perdido para Tobey Maguire. Quando ele se livrar das roupas colantes e for escalado como um desajustado que tem um plano diabólico para destruir o mundo, em vez do papel de desajustado que tem a missão de salvá-lo, pelo menos Tobey finalmente provará que Chris Rock estava errado. Marcelo Godoy

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host