UOL Notícias Internacional
 

10/05/2005

Devoção católica, e dúvidas

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Em São Paulo, Brasil
NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
Aqui na América Latina, o grande reduto remanescente do Catolicismo Romano, alguns católicos têm um duro alerta a fazer ao papa Bento 16 --a menos que a Igreja Católica mude de rumo, ela poderá se aproximar de um autêntico suicídio.

A América Latina às vezes parece um pouco a cidade de Wittenberg, de Martinho Lutero, em 1517, às vésperas da Reforma. Há um abismo ou golfo crescente entre muitos adeptos de mente independente, com os padres nas regiões rurais de um lado, e os cardeais e o papa do outro.

"Estou ressentida com eles", diz Alessandra Katiane da Silva, de 21 anos, que vai à missa usando um colar com imagens de Jesus e da Virgem Maria. Ela diz que pode avaliar melhor suas próprias necessidades anticoncepcionais que os cardeais anciões, acrescentando que "nós temos que tomar conta de nós mesmos, porque eles não estão olhando para nós".

Embora a Igreja Católica da América Latina tenha uma ala conservadora, muitos católicos estão em situação idêntica a de Alessandra da Silva --amargurados por algum dogma do Vaticano, mas ainda se identificando fortemente com uma igreja local, ali encontrando seu conforto espiritual.

O resultado é que muitas paróquias católicas locais silenciosamente já romperam com o controle do Vaticano sobre questões sexuais. O papa pode trovejar contra o controle da natalidade (em vez de um método baseado nos períodos dos ciclos femininos, ridicularizado pelos críticos como a "roleta do Vaticano"), que mesmo assim 70% das mulheres brasileiras utilizam métodos anticoncepcionais artificiais. Dessa forma o papa pontifica, e em seu rebanho (as ovelhas) bocejam.

"A proibição da Igreja Católica em relação às camisinhas não funciona aqui no Brasil", diz Jose Roberto Prazeres, psicólogo num centro anti-Aids em São Paulo. "Fazemos parceria com padres para distribuição de camisinhas."

Uma famosa ginecologista, Albertina Duarte, diz que nunca teve uma paciente que fosse tão católica a ponto de rejeitar a maior parte dos métodos anticoncepcionais. "Nunca", ela diz, "nunca nos meus 35 anos como médica".

A América Latina ainda é a região mais dinâmica para o Catolicismo Romano, onde estão 40% dos católicos do mundo. Mas em toda a América cresce o número de evangélicos, especialmente os pentecostais --um número quadruplicado no Brasil durante o papado de João Paulo 2º. Alguns brasileiros alertam que, se continuar assim, o Brasil poderá se transformar num país predominantemente protestante.

Alguns conservadores dizem que o problema é que a igreja ficou mais liberal e permissiva após o Concílio Vaticano 2º, e eles observam que as seitas evangélicas ganharam terreno sendo mais exigentes em questões morais, e não menos. Mas a visão mais comum aqui é que a igreja dispersou sua autoridade com posições que parecem aos fiéis retrocessos, e não avanços, em relação ao divórcio, controle da natalidade e o papel das mulheres.

O papa Bento já disse uma vez, irritado, que nessas questões a igreja "corre o risco de parecer um arcabouço anacrônico". Num artigo escrito quando era um cardeal, ele se manteve arraigado aos valores tradicionais, mas reconhecendo que muitos viam frieza nessa opção: "Ou a igreja encontra um entendimento, um compromisso com os valores propostos pela sociedade que ela quer continuar a servir, ou ela se encontrará à margem da sociedade."

É esse o cabo-de-guerra que está em jogo em lugares como o Brasil, com os padres nas regiões rurais sempre tentando se manter em sintonia com os fiéis, enquanto o Vaticano tenta se manter fiel aos seus valores.

"Existe a hierarquia da igreja, e há também a igreja que funciona efetivamente a nível local", diz o reverendo Valeriano Paitoni, um padre amplamente admirado em São Paulo por administrar abrigos de primeira qualidade para os órfãos de vítimas da Aids. Ele foi punido pelos superiores em 2000, por estimular as pessoas a usarem camisinha na proteção contra Aids.

A maioria dos católicos brasileiros, segundo Paitoni, quer ver mudanças na posição da igreja quanto ao controle da natalidade, homossexualidade, casamento dos padres e sobre a posição das mulheres na igreja. "Se a igreja não tiver coragem de levantar essas questões, e de ouvir a ciência e o mundo, então acontecerá um desastre", diz o reverendo, acrescentando que ainda está otimista quanto à chegada das reformas.

Nos séculos 15 e 16, o Vaticano respondeu a reformistas como John Wycliffe e Martinho Lutero com medidas duras. Lutero queria permanecer dentro de uma Igreja Católica reformada, mas o papa o excomungou, e a conseqüência foi a Reforma Protestante.

Não posso evitar o pensamento de que hoje o Papa Bento e os cardeais podem estar diante de uma escolha parecida. Se o Vaticano não se reconectar com as pessoas normais aqui no maior reduto do catolicismo, então as dezenas de milhões que encontram significado espiritual nos bancos das igrejas, mas que se desestimularam com tantas posições da igreja, diante da obstinação do Vaticano, poderão atiçar uma Re-Reforma. "No Brasil, o papa pontifica, mas seu rebanho (ovelhas) bocejam" Marcelo Godoy

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