UOL Notícias Internacional
 

10/05/2005

Putin afirma novo orgulho russo 60 anos depois da vitória sobre os nazistas

The New York Times
Steven Lee Myers e Elisabeth Bumiller*

Em Moscou
O presidente Vladimir V. Putin, acompanhado pelo presidente Bush e dezenas de outros líderes, comemorou o 60º aniversário da derrota da Alemanha nazista nesta segunda-feira (9/5), com uma deslumbrante parada militar na Praça Vermelha, cheia de símbolos soviéticos e novo orgulho russo.

Sergei Kivrin/The New York Times

Mulher agita bandeira da marinha soviética durante desfile comemorativo em Moscou
Posicionados diante do Túmulo de Lênin, e não sobre ele como faziam os líderes soviéticos, Putin não expressou contrição pelo domínio soviético na Europa Oriental e Central que ocorreu após o fim da Segunda Guerra Mundial, como esperavam alguns líderes daquela região.

Em vez disso, ele disse que o legado da guerra demonstrou a necessidade de unidade com a Rússia contra novas ameaças.

"As lições da guerra nos enviaram o alerta de que a indiferença, temporização e cumplicidade com a violência inevitavelmente levam a tragédias terríveis em escala planetária", disse ele.

"Diante da ameaça real do terrorismo atual, nós devemos permanecer fiéis à memória de nossos pais. É nosso dever defender uma ordem mundial baseada na segurança e justiça e em uma nova cultura de relações entre as nações, que não permitirá a repetição de qualquer guerra --nem fria e nem quente."

Apesar das preocupações aqui e no exterior com o compromisso da Rússia com a democracia, Putin conseguiu promover uma das maiores reuniões de líderes mundiais em anos --parte dos esforços do Kremlin para ressuscitar um senso de uma Rússia grande e poderosa.

Entre os 57 dignitários estavam líderes dos países vitoriosos e derrotados na guerra, incluindo o chanceler Gerhard Schröder da Alemanha; o presidente da França, Jacques Chirac; o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi; o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi; e o presidente da China, Hu Jintao.

Bush, freqüentemente o centro da atenção mesmo em encontros de cúpula internacionais, tinha um lugar de honra ao lado de Putin, mas não falou publicamente, cedendo o palco para Putin e ao cerimonial do dia.

Putin prestou tributo aos veteranos de todos os países Aliados mas enfatizou que os maiores sacrifícios da guerra foram pagos pelos cidadãos da União Soviética, que perseveraram apesar da morte de 27 milhões de pessoas.

"Por meio da libertação da Europa e da batalha de Berlim, o Exército Vermelho levou a guerra à sua conclusão vitoriosa", disse ele, rebatendo indireta e claramente as recentes declarações dos líderes da Polônia e dos Bálticos de que a derrota de Hitler não resultou em libertação para eles, mas sim em repressão sob uma ideologia diferente.

Antes e durante sua viagem à Letônia, Bush endossou tal interpretação histórica. Em um discurso para os líderes letões no sábado, ele reconheceu que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha tiveram certa responsabilidade pela anexação soviética dos países bálticos por sua participação no acordo de Yalta de 1945, no qual a Europa foi demarcada por Roosevelt, Churchill e Stalin.

"Esta tentativa de sacrificar a liberdade pelo bem da estabilidade deixou um continente dividido e instável", disse ele. "O cativeiro de milhões na Europa Central e Oriental será lembrado como um dos maiores erros da história."

Mas um alto conselheiro da Casa Branca, Dan Bartlett, disse na segunda-feira que Bush não abordou a questão pessoalmente com Putin durante os encontros de domingo. "Eles não passaram muito tempo debatendo a história", disse ele.

De fato, apesar das tensões diplomáticas em torno da defesa americana da democracia na Rússia e nos países vizinhos, e uma disputa em torno do itinerário de Bush nesta viagem, os dois líderes pareciam determinados a exibir sua divisão igual de autoridade e respeito mútuo.

Bush falou animadamente com Putin na segunda-feira, enquanto milhares de soldados russos e veteranos de guerra desfilavam sobre as pedras arredondadas da pavimentação da Praça Vermelha, e novamente enquanto os dois caminhavam com outros líderes até o Túmulo do Soldado Desconhecido próximo dali, onde depositaram cravos vermelhos.

Após Putin concluir seu discurso e voltar ao seu assento, Bush pareceu cumprimentá-lo. Putin respondeu colocando sua mão levemente no joelho de Bush e lhe dizendo algo.

Bartlett disse que Bush não sentiu nenhum desconforto em parecer ser um ator proeminente em um quadro de imagens soviéticas, incluindo bandeiras tremulantes exibindo a foice e o martelo e uma parada marcial que evocava as antigas celebrações soviéticas --apesar de sem a presença dos tanques e mísseis que antes abalavam os nervos da guerra fria.

Bush se encontrou com 18 líderes de organizações cívicas, incluindo alguns críticos proeminentes de Putin, durante um breve encontro privado no hotel em que estava. Lyudmila A. Alekseyeva do Moscow Helsinki Group, uma organização de direitos humanos, lembrou posteriormente que Bush argumentou que seu relacionamento com Putin lhe permite levantar preocupações com democracia e liberdade com franqueza.

Bush, ela disse, notou que Putin usou um recente discurso nacional para promover o caminho democrático --uma declaração em conflito com seus esforços para acirrar o controle sobre os partidos políticos e eliminar algumas eleições regionais. Bush deixou claro, ela acrescentou, que ele dá "grande importância ao desenvolvimento da democracia em todos os países, incluindo a Rússia".

Apesar de Putin não ter respondido publicamente na segunda-feira a nenhuma das preocupações levantadas na Europa e nos Estados Unidos nos últimos meses, ele incluiu em seu discurso uma referência indireta, declarada com freqüência aqui, de que os países devem decidir seus próprios destinos, sem o que os russos acreditam ser pressões externas dos Estados Unidos e da Europa.

"Nossa política é baseada nos ideais de liberdade e democracia", disse ele, se referindo a história pós-União Soviética da Rússia, "e no direito de cada país de escolher seu próprio caminho para o desenvolvimento".

Putin usou o aniversário do Dia da Vitória --que era celebrado como feriado soviético e agora é um feriado nacional russo-- para tentar unir os russos em torno daquele que é discutivelmente o maior feito da União Soviética. Mas as comemorações conseguiram provocar rancor diplomático, debates internos sobre como lembrar da liderança de Stalin e protestos de rua.

Os presidentes da Lituânia e da Estônia recusaram conspicuamente o convite do Kremlin em um sinal do peso que a questão ainda tem na política regional. O mesmo fez o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, cujo levante popular contra Eduard A. Shevardnadze, em novembro de 2003, inspirou levantes semelhantes após eleições irregulares em duas outras ex-repúblicas soviéticas, na Ucrânia no outono passado e no Quirguistão em março. Os eventos nestes países sacudiram o Kremlin.

Na segunda-feira, várias centenas de manifestantes, jovens e velhos, entraram em choque com policiais em equipamento de choque perto da estação de trem de Belaruskaya, a poucos quilômetros a noroeste da Praça Vermelha. Pelo menos 50 manifestantes foram detidos lá, informou a rádio Ekho Moskvy, o que provocou confrontos com a polícia durante toda a tarde.

"Putin é um fascista", gritou um manifestante, um velho barbado que se recusou a dizer seu nome.

Em uma manifestação diferente, cerca de 30 membros de um partido nacionalista, o Mãe-Pátria, foram detidos do lado de fora da embaixada da Letônia. Eles estavam protestando contra a visita da presidente daquele país, Vaira Vike-Freiberga, que enfureceu muitos russos ao criticar a ocupação soviética dos Bálticos após a guerra, apesar de ter se juntado aos demais líderes em Moscou na segunda-feira.

Após a parada na Praça Vermelha e um almoço no Kremlin, Putin realizou encontros bilaterais separados com Hu da China; com Koizumi do Japão, que tem uma antiga disputa com a Rússia em torno das Ilhas Kurile; e com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh.

Apesar de nenhum dos encontros ter produzido avanços diplomáticos, eles mostraram que a Rússia continua sendo um importante participante diplomático em várias arenas, da paz entre israelenses e palestinos até confrontos em torno dos programas nucleares do Irã e da Coréia do Norte.

A comemoração de segunda-feira ocorreu à sombra de outra guerra: o conflito na Tchetchênia. Temendo ataques terroristas de separatistas tchetchenos, as autoridades fecharam grande parte do centro da cidade e pediram aos moscovitas para evitarem a cidade, optando por passarem o feriado em suas dachas, ou casas de campo.

Na Tchetchênia, as autoridades informaram que oito combatentes foram mortos em uma disputa com forças de segurança na aldeia de Tsentoroi.

Alekseyeva, que tinha 17 anos quando a guerra acabou, expressou decepção pelas comemorações oficiais terem ficado restritas apenas aos convidados. "Há a impressão de que era a comemoração deles, e não nossa'", disse ela sobre as autoridades, repetindo uma queixa manifestada por alguns veteranos.

*Colaborou Erin E. Arvedlund, com reportagem de Moscou. Celebração reúne líderes de EUA, China, Japão, Alemanha e Itália George El Khouri Andolfato

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