UOL Notícias Internacional
 

11/05/2005

Chineses descartam punição para Coréia do Norte

The New York Times
Joseph Khan, em Pequim, e
David E. Sanger em Washington
A China descartou nesta terça-feira (10/05) a aplicação de sanções econômicas e políticas para pressionar a Coréia do Norte a abandonar seu programa de armas nucleares, aparentemente minando um elemento crucial da estratégia em desenvolvimento do governo Bush para a Coréia do Norte.

O anúncio foi feito enquanto as agências de inteligência tentam determinar se a Coréia do Norte está preparando um teste nuclear.

Repetindo os comentários públicos do presidente Bush, os chineses disseram em uma coletiva de imprensa na terça-feira que ainda esperam que as negociações com a Coréia do Norte terão sucesso em desarmar o país, apesar de ele ter boicotado tais negociações por 11 meses.

Liu Jianchao, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, disse na terça-feira que a China rejeitou a sugestão de que deve reduzir o envio de petróleo e alimentos para a Coréia do Norte, considerando-os parte de seu comércio normal com seu vizinho comunista e que deve ser separado do problema nuclear.

"O fluxo normal de comércio não deve ser vinculado à questão nuclear", disse ele. "Nós nos opomos a tentar tratar o problema com táticas de braço-de-ferro."

A aparente não disposição de Pequim de seguir o plano de Bush de espremer o país retira um ponto de pressão crítico, com o qual os assessores de Bush contavam.

Também sugere que a estratégia de ameaçar ir ao Conselho de Segurança da ONU --o que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, começou a discutir publicamente-- pode fracassar.

A declaração da China surge poucos dias depois das autoridades terem dito que pelo menos uma agência de inteligência americana encontrou sinais de que a Coréia do Norte pode estar se preparando para o primeiro teste de uma arma nuclear, em uma área no nordeste do país.

Tal evidência é ambígua, e alguns nas agências de inteligência, incluindo analistas do birô de inteligência e pesquisa do Departamento de Estado, estão debatendo se a atividade que estão vendo nas imagens de satélite sinaliza que um teste pode ser iminente. Mesmo aqueles que consideram as evidências particularmente preocupantes alertam que a atividade pode ser uma provocação.

Na terça-feira, a mídia estatal da Coréia do Norte disse que os Estados Unidos estavam "fazendo estardalhaço" com a possibilidade da Coréia do Norte realizar um teste.

Apesar de ter desprezado os relatos como "opiniões estratégicas americanas", a Agência Central de Notícias Coreana nem negou que esta era a intenção do país e nem ameaçou --como a Coréia do Norte fez no passado-- detonar a arma para provar que é capaz.

O presidente Bush telefonou para o presidente da China, Hu Jintao, para discutir a Coréia do Norte no final da semana passada, apesar de a Casa Branca não ter dado detalhes sobre a conversa.

Mas vários atuais e ex-funcionários americanos notaram na terça-feira que os chineses têm consistentemente resistido à pressão para reduzir o comércio com os norte-coreanos, e parecem ter transformado a estabilidade do governo norte-coreano em uma alta prioridade.

Bush e seus assessores disseram que o desarmamento é sua maior prioridade, e o presidente não fez segredo do fato de que detesta o líder norte-coreano, Kim Jong Il, a quem chamou de "tirano" em uma recente coletiva de imprensa, o acusando de manter os dissidentes políticos em "campos de concentração".

"Nossa sensação é de que há um grande debate ocorrendo no momento em Pequim, que é intenso e causador de divisão", disse um alto funcionário do governo, na terça-feira.

"O jogo deles funcionou bem quando os norte-coreanos estavam conversando" com as outras cinco nações --China, Coréia do Sul, Japão, Rússia e Estados Unidos. Mas agora, notou o funcionário, "a Coréia do Norte está dizendo que é um Estado com armas nucleares, e diz que deseja entrar em negociações de redução mútua de armas".

Essa é uma posição muito diferente daquela que a Coréia do Norte adotava há um ano, quando a discussão era em torno de um acordo para desnuclearização da Península Coreana. Os chineses, disse o funcionário do governo, "sabem que apenas trazê-los de volta à negociação não é suficiente agora".

Ainda assim, as declarações do Ministério das Relações Exteriores chinês sugerem que a estratégia da China para lidar com a Coréia do Norte continua basicamente inalterada apesar das preocupações com um teste nuclear, e apesar dos repetidos apelos do governo Bush para que Pequim adote uma linha mais dura.

Apesar de Liu ter chamado de "preocupantes" os recentes desdobramentos ligados ao programa de armas da Coréia do Norte, ele disse que tanto os Estados Unidos quanto a Coréia do Norte expressaram o compromisso de retomar as negociações e que a China "não perdeu a esperança" de promover uma nova rodada de negociações.

Alguns especialistas com longa experiência em lidar com a China na questão da Coréia do Norte sugeriram que a posição pública de Pequim pode ser bem diferente daquela que está dizendo aos norte-coreanos.

"Os chineses podem estar fingindo indiferença", disse Kurt Campbell, que ocupava uma alta posição na Defesa no governo Clinton, ligada a assuntos asiáticos.

"Eu acredito que privativamente eles estão exercendo pressão sobre os norte-coreanos para não realizarem o teste, porque um teste seria profundamente contrário aos seus interesses na região."

Dentro do governo Bush, os autores de política parecem divididos em torno da questão sobre se a Coréia do Norte está preparando ou não um teste.

Entre as perguntas estão se a Coréia do Norte está blefando, se seus líderes decidiram que a demonstração da capacidade nuclear do país atenderia aos seus propósitos melhor do que a manutenção da ambigüidade sobre suas capacidades. Estas perguntas são complicadas porque não há consenso entre os analistas sobre o que mostram as imagens de satélite da área de Kilju.

Um alto funcionário envolvido no debate sobre como lidar com a Coréia do Norte --um debate que nunca foi resolvido no primeiro mandato de Bush-- disse na segunda-feira que um teste "poderia convencer os chineses de que precisam endurecer".

Mas, há poucas semanas, outros no governo estavam expressando preocupação de que um teste poderia ser um choque político para a região e poderia provocar um desastre ambiental, no caso da ocorrência de um vazamento radioativo significativo do local de teste subterrâneo.

Não se sabe se os norte-coreanos poderiam interpretar as declarações públicas da China na terça-feira, separando o comércio de assuntos nucleares, como um sinal de que eles não sofrerão repercussões significativas caso prossigam com um teste nuclear.

Isolamento

Na ausência de um teste, não está claro como os Estados Unidos poderiam aumentar a pressão sobre a Coréia do Norte sem a ajuda dos chineses. A China poderia vetar qualquer resolução da ONU, e se não estiver disposta a aplicar sanções ao longo de sua fronteira, quaisquer esforços para isolar o país provavelmente fracassariam.

O Programa Mundial de Alimentos, citando estatísticas recém obtidas junto ao governo chinês, disse que a ajuda de alimentos da China para a Coréia do Norte aumentou no início deste ano.

Segundo a estimativa da organização, a China enviou 146 mil toneladas de milho, arroz, trigo, farinha de trigo e fubá para a Coréia do Norte nos primeiros três meses deste ano, em comparação a 165 mil toneladas nos 12 meses de 2004.

Desde que os Estados Unidos acusaram a Coréia do Norte de violar o pacto para encerrar seu programa de armas nucleares em 2002, a China tem resistido em usar o comércio ou a ajuda econômica ao seu vizinho empobrecido como instrumento para forçar Pyongyang a encerrar o esforço.

Em uma visita à China em abril passado, o secretário assistente de Estado, Christopher Hill, repetiu os argumentos americanos de que a China poderia pressionar a Coréia do Norte, reduzindo o comércio, especialmente o envio de combustível, como um sinal do seu descontentamento com a recusa de Pyongyang de voltar à mesa de negociação.

Um alto funcionário disse que os chineses deixaram claro que estão preocupados em provocar mais instabilidade na Coréia do Norte, o que poderia enviar milhões de refugiados norte-coreanos para a fronteira chinesa.

A economia destituída de dinheiro da Coréia do Norte depende altamente do comércio e da ajuda da China. Os Estados Unidos e seus aliados deixaram de fornecer petróleo para a Coréia do Norte em 2002. Mas o envio de petróleo por parte da China continua, e no geral o comércio entre a China e a Coréia do Norte aumentou 20% no primeiro trimestre de 2005, em comparação ao mesmo período no ano passado.

Pequim tem enviado várias missões diplomáticas para Pyongyang para pedir o retorno do país às negociações. O presidente Hu chamou as negociações de "o único caminho correto" para a Coréia do Norte.

A Coréia do Norte tem divulgado declarações contraditórias sobre sua disposição de retomar as negociações. Ela disse que só o fará se os Estados Unidos abandonarem sua "política hostil", mas também garantiu aos chineses de que está comprometida em prosseguir nas negociações, disseram funcionários.

A China também expressou preocupação com a possibilidade de a Coréia do Norte realizar um teste nuclear, mas não especificou se um teste a levaria a impor sanções.

"Muitas ações realizadas ultimamente pela Coréia do Norte são preocupantes", disse Liu na terça-feira. "Nós fazemos objeção a qualquer ação que seja contrária à meta de uma negociação envolvendo seis partes. Uma península coreana nuclearizada não é benéfica para nenhuma nação." China é fonte de recursos do país que ameaça retomar ação nuclear George El Khouri Andolfato

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