UOL Notícias Internacional
 

12/05/2005

Coréia do Norte admite ter usado combustível para suas armas nucleares

The New York Times
James Brooke*

Em Tóquio
A Coréia do Norte afirmou nesta quarta-feira (11/05) que desativou um reator nuclear para usar seu combustível para armas, o mais recente esforço do país para pressionar o governo Bush e seus aliados.

Space Imaging Asia via NYT

Imagem de satélite mostra reator nuclear de Yongbyon, cerca de 60 milhas ao norte da capital norte-coreana, Pyongyang
Mas funcionários da inteligência e do Pentágono disseram que, até a noite de quarta-feira, não tinham evidência para confirmar a afirmação. Especialistas externos expressaram ceticismo de que a ação da Coréia do Norte, mesmo se confirmada, aumentaria seu estoque de armas.

Em uma declaração, a Coréia do Norte disse que removeu 8 mil bastões de combustível gastos de um reator, em seu complexo nuclear de Yongbyon, como "medida necessária para reforçar seu arsenal nuclear".

No pior cenário, disseram os especialistas, ao remover e reprocessar os bastões de combustível, a Coréia do Norte poderá produzir plutônio para algumas poucas armas nucleares. Mas suspeita foi levantada porque se tivesse deixado os bastões dentro do reator por mais um ano, a Coréia do Norte poderia obter um campo muito melhor de combustível para armas.

"Há muito simbolismo e provocação aqui", disse um alto funcionário do governo. A Coréia do Norte expulsou os inspetores internacionais no final de 2002 e, sem eles, é impossível verificar de forma independente suas alegações.

Tanto analistas externos quanto funcionários do governo notaram que os líderes da Coréia do Norte podem estar blefando, em uma tentativa de obter concessões dos Estados Unidos nas negociações envolvendo seis partes, há muito tempo estagnadas, que visam persuadir a Coréia do Norte a abandonar seu programa nuclear.

Ou, eles disseram, os norte-coreanos podem ter retirado o combustível do reator precocemente por problemas técnicos, ou por temerem a possibilidade dos Estados Unidos ordenarem um ataque contra o reator, um passo que o presidente Clinton considerou em 1994, durante uma crise anterior.

Mas a desativação do reator há um mês e a declaração de quarta-feira parecem fazer parte do esforço da Coréia do Norte para convencer o mundo de que já possui armas nucleares, de que é capaz de produzir armas e obter plutônio para armas. A Coréia do Norte declarou pela primeira vez, em 10 de fevereiro, que possui armas nucleares.

O reator de cinco megawatts em Yongbyon, o altamente protegido complexo nuclear do país, foi provavelmente desativado no início de abril. No final do mês passado surgiu um debate nas agências de inteligência americanas sobre se a desativação foi provocada por uma necessidade de manutenção, ou se visava a remoção dos bastões.

Na semana passada, dois funcionários, um americano e um estrangeiro, informaram que uma plataforma e grandes engradados foram vistos perto do reator.

"Eles me deram a impressão de que o descarregamento tinha começado", disse Selig S. Harrison, um especialista em Coréia do Norte filiado ao Centro para Política Internacional em Washington, por telefone na quarta-feira, sobre as reuniões que teve com autoridades norte-coreanas em Pyongyang, entre 5 e 9 de abril.

Os bastões podem ser removidos em segurança de um reator logo após a desativação, disseram especialistas nucleares. Mas eles precisam ser resfriados em um processo que pode levar meses. Depois disto, eles precisam passar por um processo complexo chamado "reprocessamento" para obtenção do plutônio para armas.

"Se estão reprocessando, isto está sendo feito para bombas", disse Henry Sokolski, diretor executivo do Centro de Educação de Política de Não-Proliferação, em Washington.

Ao longo dos próximos 18 meses, a Coréia do Norte poderá produzir combustível para uma a três bombas a partir dos bastões, segundo Daniel A. Pinkston, diretor do Programa de Não-Proliferação no Leste Asiático do Instituto Monterey de Estudos Internacionais.

A remoção dos bastões e o armazenamento deles em tanques de água em um prédio adjacente ao reator leva cerca de seis semanas, disse Pinkston por telefone, da Califórnia. Mas seriam necessários pelo menos seis meses para os bastões serem resfriados o suficiente para serem reprocessados em segurança. O reprocessamento de 110 toneladas de bastões do núcleo do reator levaria um ano, ele estimou.

Em uma entrevista em Washington na quarta-feira, Bob Alavarez, um ex-alto conselheiro de política do Departamento de Energia, que visitou o reator na Coréia do Norte há 11 anos, alertou contra concluir precipitadamente que a Coréia do Norte é capaz de transformar o combustível em armas.

"Você precisa pensar nas variáveis, não apenas no pior cenário", disse ele, que chamou a instalação de "muito primitiva" e levantou a possibilidade de que um problema com os bastões possa ter forçado a Coréia do Norte a retirá-los do reator.

"Nós vimos alguns problemas quando estivemos lá", disse ele, "e não sabemos se foram consertados". Os bastões provavelmente renderão algum material utilizável em bomba. A questão é quanto.

Recentemente, autoridades americanas debateram se as fotos por satélite indicavam ou não que a Coréia do Norte estava preparando seu primeiro teste nuclear. A remoção e redistribuição de terra em um túnel subterrâneo em Kilju, uma área remota sem nenhuma mineração conhecida, pode indicar que a Coréia do Norte está preparando um teste, disseram as autoridades. Mas elas também alertaram que poderia ser um blefe.

Na quarta-feira em Tóquio, Thomas Schieffer, o embaixador americano no Japão, entrou no debate. Ele disse aos membros do Novo Komeito, um partido pacifista, que a Coréia do Norte parece estar se preparando para um teste, mas não disse que ela realizará um.

"Eu acredito que eles deram alguns passos preparatórios", disse Schieffer, segundo um funcionário da embaixada americana. Referindo-se ao esforço regional, liderado pelos Estados Unidos, para fazer com que a Coréia do Norte abandone suas bombas nucleares, ele acrescentou: "Se ocorrer um teste, será um golpe grave contra o processo".

Mas o Departamento de Estado foi mais cauteloso, com o porta-voz em Washington, Richard Boucher, quando perguntado se Schieffer estava indicando que um teste pode estar próximo, dizendo: "Eu não interpretaria as declarações dele da mesma forma que vocês".

Na semana passada, quando um cientista japonês, visitando Pyongyang, perguntou a um pesquisador norte-coreano sobre um teste nuclear, ele teria respondido: "Você verá em breve".

Por estar na direção do vento vindo da Coréia do Norte, o Japão poderia ser afetado por um teste a céu aberto. Acredita-se que o arsenal de mísseis de médio alcance da Coréia do Norte visem ser uma ameaça potencial às cidades japonesas ou bases americanas no Japão.

Na noite de quarta-feira, o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, minimizou a declaração de Pyongyang.

"Ela tem jogado com seus comentários", disse Koizumi sobre a Coréia do Norte, segundo a agência de notícias "Kyodo". "A questão é que temos que transmitir à Coréia do Norte que o rápido retorno às negociações de seis partes e o abandono do programa nuclear é o que melhor servirá aos seus interesses."

Pedidos para uma solução negociada vieram na quarta-feira de autoridades em Washington, Pequim e Seul.

"As declarações e ações provocativas da Coréia do Norte apenas a isolarão ainda mais da comunidade internacional", disse Scott McClellan, o porta-voz da Casa Branca, aos repórteres.

"A China obviamente dispõe de influência considerável, que pode ser usada para ajudar a trazer a Coréia do Norte de volta às negociações e fazer com que a Coréia do Norte coloque um fim às suas ambições nucleares."

Na terça-feira, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China descartou a aplicação de sanções econômicas ou políticas para pressionar a Coréia do Norte.

A China compartilha uma longa fronteira terrestre com a Coréia do Norte, e um teste subterrâneo na área de Kilju poderia potencialmente contaminar os lençóis de água subterrâneos que fluem para a China.

"Nós pedimos a todas as partes que exercitem restrição e esperamos que não farão nada que dificulte a retomada das negociações envolvendo seis partes", disse Liu Jianchao, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, para a agência de notícias "Reuters".

A Coréia do Sul também expressou preocupação: "Tal ação da Coréia do Norte vai contra os esforços para tornar a Península Coreana livre de armas nucleares", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Coréia do Sul, Lee Kyu Hyun, em uma declaração postada no site do ministério.

Em 2003, a Coréia do Norte se retirou do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o único país a fazê-lo. Depois que o presidente Bush associou a Coréia do Norte com o Irã e o Iraque de Saddam Hussein como "o eixo do mal", as autoridades norte-coreanas começaram a declarar que os Estados Unidos estavam preparando um ataque ao país.

Kim Jong Il, o líder do país, disse que as armas nucleares serão a garantia de seu país contra um ataque americano.

"A República Democrática Popular da Coréia continua tomando as medidas necessárias para reforçar seu arsenal nuclear para os fins defensivos de lidar com a situação atual", disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores para a Agência Central de Notícias Coreana, na quarta-feira.

Na terça-feira, o "Rodong Sinmun", o jornal do Partido Comunista do governo, acusou os Estados Unidos de "fazerem estardalhaço" em torno de "sua própria suspeita de que a República Democrática Popular da Coréia possa estar preparando a realização de um teste nuclear subterrâneo em junho".

O presidente Bush e outras autoridades do governo disseram que não têm intenção de atacar a Coréia do Norte. Em vez disso, eles têm pressionado a Coréia do Norte a voltar às negociações envolvendo seis partes para colocar um fim ao arsenal nuclear norte-coreano, mas das quais a Coréia do Norte tem se esquivado desde junho.

*Colaboraram Thom Shanker e David E. Sanger em Washington. Militares americanos afirmam ainda não haver provas de arsenal George El Khouri Andolfato

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