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12/05/2005

Elmore Leonard lança seu 40º livro, "The Hot Kid"

The New York Times
David Carr

Em Detroit, Michigan
Elmore Leonard é um assunto discutido à exaustão. As histórias sobre o talento do principal autor de romances policiais transformaram-se em clichês que aguardam a vez.

Andrew Sacks/The New York Times

Diversos romances do escritor já se tornaram filmes de sucesso, como "O Nome do Jogo"
Assim sendo, por que o "hooptedoodle", conforme Leonard chama "a parte que o leitor tende a pular", não é retirado? Ele escreve sete dias por semana em uma sala de estar de uma bela casa em um subúrbio de Detroit, com uma caneta Pilot número cinco em papel amarelo liso.

Ele não usa nem e-mail nem computador. O autor escreve as páginas manuscritas com uma máquina de escrever IBM Selectric, que de vez em quando quebra devido ao excesso de trabalho diário.

"Há na lista telefônica o nome de uma pessoa que conserta máquinas de escrever", diz Leonard. "Ele diz ser capaz de viver ganhando apenas US$ 6 mil por ano. Mora em um estacionamento para trailers".

Isso é tudo o que o autor diz sobre o cara que conserta a máquina de escrever, mas com tais detalhes esparsos, o indivíduo ganha vida integralmente na sala.

Essa economia e precisão no texto lhe possibilitaram uma carreira que já dura mais de 50 anos. Um dia puxa o dia seguinte, um livro se transforma no próximo, e agora Leonard é um sujeito de quase 80 anos de idade que acabou de escrever o seu 40º livro.

Ainda que o ato de escrever se dê para ele de forma reflexa, não há nada de automático ou apressado nos seus livros, que usam o dueto personagem/diálogo na composição de mini-épicos sobre a tolice humana, despojados de artifícios e adjetivos.

"The Hot Kid", uma história sobre bandidos e policiais passada durante a Lei Seca, será lançado neste semana e está sendo recebida afetuosamente pelos críticos.

Charles McGrath, aqui de The New York Times, chamou os livros de Leonard de "máquinas brutalmente eficientes de entretenimento". Escrevendo em "The Boston Globe", Stephen King disse: "o velho ainda tem muito a dar".

Dizer que Leonard não tem pretensões seria incorreto. Ele é assustadoramente normal, amigável de uma forma ausente. Esse grande romancista norte-americano, um dos maiores autores de diálogos de todos os tempos, deixa que as pessoas comprem nos leilões beneficentes o direito de dar o nome aos seus personagens; Ed Hagenlocker, um "batista insensível" e o fazendeiro de algodão em "The Hot Kid" foram batizados dessa forma. "Por que não ajudá-los?", pergunta ele.

Ex-autor de textos publicitários e de filmes industriais, "Dutch", como lhe chamam os amigos, lançou o seu primeiro romance, "The Bounty Hunters" ("Caçadores de Recompensas"), há meio século.

Passando do faroeste para os romances policiais, ele se tornou uma sensação não muito súbita com o lançamento de "Glitz", em 1985. Leonard escreveu muitos best-sellers, incluindo "Paradise" ("Paraíso"), "Be Cool" ("O Outro Nome do Jogo"), "Get Shorty" ("O Nome do Jogo") e "Rum Punch".

Se esses títulos parecem familiares mesmo para os que não os leram, isso de deve ao fato de vários deles terem virado filmes --os produtores de Hollywood se alvoroçam quase todas as vezes que ele escreve, e "The Hot Kid", com suas mulheres de bandidos, tiras empertigados e malfeitores-tão-burros-que-acabam-sendo-espertos não é uma exceção.

Leonard ganhou o prêmio Grand Master do Mystery Writers of America, mas não é um grande fã dos célebres autores de romances policiais Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Leonard prefere o ritmo enxuto dos clássicos Ernst Hemingway e John Steinbeck. Leonard não acha que aquilo que faz seja muito complicado.

"A primeira parte segue em frente sem problemas, e depois tenho que pensar na segunda parte, porque esta faz o romance continuar", diz ele. "E então é preciso acrescentar algumas coisas novas, digamos que lá pela página 250. Há sempre aquelas surpresas perto do final".

Ele usa calças jeans, sandálias e uma camisa do Detroit Pistons. Quando escreve, fica voltado para uma piscina coberta com lona e uma quadra de tênis um pouco além.

O local tem cheiro de carne assada, sendo administrado por Christine, sua mulher há doze anos. Ele mora em Bloomfield Village, 32 quilômetros ao norte da cidade de Detroit, que forneceu assuntos sem fim para as suas estórias. O seu bairro tem mais em comum com um romance de John Cheever do que com uma das obras de Leonard.

Gregg Sutter, que pesquisa o escritor e sua obra há muito tempo, fez uma versão simples da turnê Dutch Leonard no início do dia. Foi uma viagem até a 1300 Beaubien, uma delegacia cujo quinto andar é ocupado pela divisão de homicídios, o mais sagrado dos sagrados, e um ponto central para vários dos livros de Leonard.

Na rua, há o restaurante grego com o seu licor de aniz e o queijo incandescente, onde os tiras tomam uns tragos após o trabalho. Sutter parou em frente a um edifício maltratado sob a sombra do agora deserto Tiger Stadium.

Esse foi o local em que houve um homicídio triplo, onde os uns homens foram roubados e mortos por narcotraficantes. Sutter, que mora em Los Angeles, mas que estava na cidade, viu a notícia nos jornais e compareceu imediatamente. Ele chamou Leonard até o local do crime.

"Temos um triplo", disse ele a Leonard. Os assassinatos, que envolveram uma moto-serra, pedaços de corpos e um incêndio para ocultar o crime, apareceram em "Paraíso", lançado no ano passado. Mas Leonard viu e ouviu muita coisa no seu tempo, de forma que pode se sentar na sua sala de estar e criar todos os tipos de desordem.

A sala não inclui nenhum dos troféus que os homens bem sucedidos adquirem e tampouco os retratos na companhia das pessoas famosas e infames que conheceu.

Há apenas o retrato do seu agente, H.N. Swanson, que o chamou após o seu primeiro livro e disse, "Garoto, vou fazer de você um homem rico". O livro foi rejeitado 84 vezes, mas o já falecido Swanson acabou demonstrando que estava certo.

Leonard parece estar genuinamente surpreso com o fato de "The Hot Kid" ter deixado a imprensa em polvorosa. "Eu pensava nele como sendo um dos meus livros mais discretos", afirma.

Parte do motivo pelo qual "The Hot Kid" fez sucesso é o fato de o livro conseguir condensar a sua carreira em um romance pequeno e rápido. Os homens, tantos os maus quanto os bons, que vagueiam por Tulsa e Kansas City nos anos 20 e 30, são parte gângsteres e parte pistoleiros.

Assim, eles são híbridos, encarnando a sua carreira inicial como escritor de faroestes e o seu trabalho posterior e aclamado como escritor de romances policiais. Ele está feliz com as críticas favoráveis, mas a aceitação foge um pouco ao cerne da questão.

"Eu os escrevo para descobrir o que acontece", disse ele, referindo-se aos seus livros. "Não os escrevo para mais ninguém".

Para Leonard, os personagens atuam como abridores de enredos. Tão logo são concebidos, eles se tornam seus mestres, guiando-o de uma cena à outra, até o fim do livro, geralmente por volta da página 300.

Críticos à parte, "The Hot Kid" fica aquém disso. O livro tem duzentas e oitenta páginas.

"Achei que ele teria mais de 280", conta, sentado em uma das cadeiras em frente à sua mesa de trabalho. "Por isso , coloquei uma ou duas linhas a menos por página e fiz com que o texto fizesse sentido. Dessa forma, calculei que teria 312 páginas".

Leonard foi menos habilidoso com as contas quando se tratava da bebida, de forma que não bebe desde 1977. Ao final do dia, ele desfruta de uma cerveja sem álcool e de um único cigarro. Ele foi um fumante inveterado, e pela primeira vez na vida parece estar envelhecendo, tendo a pressão um pouco alta e apresentando fibrilação arterial.

"Estou virando um velho repentinamente", afirma. "Uso aparelho de audição, mas ele não ajuda muito. Tenho dificuldade em ouvir a minha mulher".

A sua mulher, colhendo narcisos em frente à casa, diz: "Elmore sempre diz que a gente tem que fazer aquilo que gosta; caso contrário, qual é o objetivo de fazê-lo?".

Mas Leonard detesta o fato de atualmente tomar pílulas. "Não quero viver para sempre", diz ele, enquanto fuma o seu cigarro diário ao lado da piscina. "O que vou fazer, escrever um outro livro?".

Ele sabe que a resposta é sim. Escritor de 80 anos é considerado maior autor de romances policiais Danilo Fonseca

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