UOL Notícias Internacional
 

12/05/2005

Evangélicos acusados de assédio na Força Aérea

The New York Times
Laura Goodstein

Em Nova York
Uma capelã da Academia da Força Aérea descreveu um problema "sistêmico e disseminado" de proselitismo religioso na academia e disse que um programa de tolerância religiosa que ela ajudou a criar para lidar com o problema foi minado depois de ser apresentado aos oficiais superiores, incluindo o brigadeiro que é o capelão chefe da Força Aérea.

A capelã da academia, capitão Melinda Morton, falou publicamente pela primeira vez quando uma equipe da Força Aérea chegou à academia em Colorado Springs nesta terça-feira (10/05) para investigar as acusações de que oficiais, membros da diretoria e cadetes mais antigos se valem de forma inapropriada das suas posições para impor crenças evangélicas aos cadetes da Força Aérea.

A academia começou a desenvolver um programa de tolerância, chamado Respeitando os Valores Espirituais de Todas as Pessoas, ou RSPV na sigla em inglês, em resposta a uma pesquisa realizada no ano passado. A pesquisa demonstrou que mais da metade dos cadetes disse ter sido alvo de comentários religiosos depreciativos ou piadas quanto às suas crenças dentro da academia.

Por mais de um ano, a Força Aérea vem procurando responder a acusações de alguns alunos, funcionários e cadetes de que os cristãos evangélicos em posições de liderança na academia estão criando um ambiente discriminatório.

Oficiais da Força Aérea dizem que a força tarefa enviada por eles à academia nesta semana é uma demonstração de que estão levando as acusações a sério. Os investigadores devem divulgar um relatório preliminar em 23 de maio.

Em uma entrevista na terça-feira, a capitã Morton, uma luterana que é capelã da academia há dois anos e meio, disse que a recepção inicial ao programa de tolerância ajudou a demonstrar qual é o clima na instituição.

Ela disse que o programa RSVP foi significativamente alterado após ter sido examinado no outono passado por cerca de 300 membros da diretoria e oficiais da academia. Oficiais militares confirmaram que o programa foi alterado, mas disseram que tais mudanças são rotineiras no desenvolvimento de um programa de treinamento dessa espécie.

Entre os que examinaram o programa estava o brigadeiro Charles C. Baldwin, chefe dos capelães de toda a Força Aérea, que se aproximou da capitão Morton após a avaliação e perguntou a ela, "Por que é que os cristãos nunca vencem?", em resposta a algumas das simulações, contidas no programa, das interações entre cadetes de diferentes religiões.

Em uma entrevista na quarta-feira (11), o brigadeiro Baldwin admitiu ter feito o comentário e disse que fez objeções porque um número demasiadamente alto de cenas no programa RSVP original mostra os cristãos incorrendo em erro devido às tentativas excessivas de evangelizar outros cadetes.

"Em todo cenário, onde cadete se encontra com cadete no salão, em todas as vezes era o cristão que tinha que se desculpar e dizer, 'Me perdoe, eu fui um insensível para com as suas necessidades'", disse Baldwin. "Creio que essa não é uma situação equilibrada, e que os cristãos irão se aborrecer se todas as vezes forem considerados os culpados".

O brigadeiro Baldwin disse que pediu à Força Aérea que cancelasse segmentos do programa relativos a religiões não cristãs, como o budismo, o judaísmo e as doutrinas espirituais dos índios norte-americanos, assim como um trecho de "A Lista de Schindler", o filme sobre o Holocausto que ganhou o Oscar em 1993.

O programa RSPV, que originalmente tinha 90 minutos, após os cortes ficou com apenas 50. E a capitão Morton diz que em vez de educar sobre outras religiões, ele foi reformulado de forma a enfatizar uma mensagem mais neutra: que os cadetes devem respeitar as diferenças mútuas.

Esta é a segunda grande investigação na academia promovida pela Força Aérea nos últimos anos. Uma investigação sobre assédio sexual em 2003 descobriu 150 mulheres que disseram ter sido sexualmente atacadas por outros cadetes, em um inquérito que acabou levando à substituição do alto comando da academia.

A investigação sobre o clima religioso na academia ocorre em um momento de discussão a respeito da linha divisória constitucional apropriada entre igreja e Estado. Os críticos dizem que a academia permitiu que a sua diretoria, incluindo alguns dos capelães, cruzassem tal linha, acusações que estão agora sendo investigadas pela Força Aérea.

"Devido ao fato de termos nos comprometido a examinar todas as alegações, descobriremos o que realmente ocorreu naquele momento e avaliaremos os incidentes", disse o brigadeiro Baldwin.

"A tensão sempre reside em definir quando uma pessoa está cruzando a linha limítrofe, ou quando está agindo como um indivíduo positivamente imbuído de fé, como o nosso presidente".

Os críticos, incluindo a capitão Morton, atribuem o problema em parte à localização da academia, em Colorado Springs, sede de dezenas das maiores igrejas evangélicas do país.

Segundo eles, há uma interação significativa entre a diretoria da academia e as igrejas na região de Colorado Springs, incluindo a Focus on the Family, a Navigators e a Officers' Christian Fellowship.

Um relatório enviado à Força Aérea no final de abril pela Americans United for Separation of Church and State (Americanos Unidos pela Separação entre Igreja e Estado), um grupo com sede em Washington, disse que oficiais e membros da direção da academia fazem a abertura de eventos obrigatórios na instituição com orações, enviam mensagens de e-mail para toda a academia com notas religiosas, e divulgam propagandas no jornal da instituição pedindo aos cadetes que entrem em contato com eles para "discutirem Jesus".

O relatório se baseou em entrevistas com funcionários, professores e cadetes, tanto atuais quanto antigos.

Panfletos com propaganda da exibição do filme "A Paixão de Cristo" foram colocados em todas as cadeiras do refeitório, com a nota: "Esse é um evento oficialmente patrocinado pela Academia da Força Aérea dos Estados Unidos".

No verão passado, uma equipe da Escola Yale Divinity foi convidada a passar uma semana no programa de treinamento básico da academia, avaliando o trabalho pastoral dos capelães, especialmente em relação a vítimas de assédio sexual. Em vez disso, a equipe do Yale descobriu aquilo que chamou em um relatório de "desafios ao pluralismo".

"Pessoas na academia estão fazendo com que os cadetes sintam-se obrigados a servir à vontade de Deus se estiverem engajados em atividades evangélicas, e estão dizendo a eles que tal fato se harmoniza com o serviço militar, além de ser uma extensão deste", denuncia Morton.

A coronel Vicki Rast, que comanda a divisão de "ambiente e cultura" da academia, disse em uma entrevista na quarta-feira (11/05) que o problema na instituição é uma "falta de sensibilidade".

"Estamos encorajando as pessoas a, quando forem submetidas a algo que faça com que se sintam desconfortáveis, procurar determinados indivíduos e falar sobre o problema", diz ela.

Ela contesta a alegação da capitão Morton de que o programa RSVP foi minado. E diz que a academia está desenvolvendo agora mais duas fases do programa RSVP, e que a primeira delas educará os cadetes a respeito das "religiões mundiais".

As entrevistas com funcionários e cadetes precisam ser aprovadas pelo departamento de relações públicas da academia, e quase todos os alunos e professores que foram abordados independentemente nesta semana disseram ter medo de falar porque isso poderia prejudicar as suas carreiras.

O departamento de relações públicas vetou os pedidos de entrevistas com o capelão chefe, coronel Michel Whittington, porque ele foi entrevistado nesta semana por investigadores da Força Aérea.

Com a condição de que o seu nome não fosse divulgado, um funcionário disse: "Há certamente uma impressão por parte dos evangélicos daqui de que a direção está do lado deles. E existe a sensação entre alguns indivíduos que são ateus ou que professam outras variedades de cristianismo de que essa direção não os aceita de fato".

A capitão Morton explica por que decidiu se pronunciar sem autorização do departamento de relações públicas: "Estamos falando aqui sobre a Constituição. É a Constituição e não uma pequena regra que pode ser seguida ou não. Todos nós erguemos as nossas mãos e dissemos que seguiríamos a Constituição, e isso inclui a Primeira Emenda, que prevê que ninguém utilize a força para impor a sua posição religiosa".

"Eu percebi que isso é o fim da minha carreira na Força Aérea", conclui. Religiosos impõem suas crenças aos cadetes de academia militar Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h59

    0,08
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h08

    -0,25
    64.697,07
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host