UOL Notícias Internacional
 

12/05/2005

Falta de espaço faz Japão criar dezenas de classificações para o lixo

The New York Times
Norimitsu Onishi

Em Yokohama, Japão
Quando esta cidade dobrou recentemente o número de categorias de lixo para 10, ela distribuiu aos moradores um manual de 27 páginas sobre como separar o lixo. Os destaques incluíam instruções detalhadas sobre 518 itens.

Ko Sasaki/The New York Times

Masaharu Tokimoto tenta descobrir se uma lata é feita de alumínio ou ferro ao separar seu lixo
Batom entre em incineráveis; os tubos de batom, "após o conteúdo ter sido usado", em "metais pequenos" ou plásticos. Pegue sua fita métrica antes de jogar fora sua chaleira: com menos de 30 centímetros, ela vai junto com os metais pequenos, mas acima disto com o refugo grande.

Meias? Se apenas uma, é incinerável; um par vai em roupa usada, mas apenas se as meias "não estiverem furadas, e o pé esquerdo e direito combinarem". Jogue gravatas em roupa usada, mas apenas depois de terem sido "lavadas e secadas".

"Era muito difícil no começo", disse Sumie Uchiki, 65 anos, cujo bairro começou a lidar com as 10 categorias em outubro passado, como parte de um teste inicial. "Nós não estávamos acostumados com aquilo. Eu até mesmo precisava dos meus óculos de leitura para separar as coisas corretamente."

Para os americanos que têm dificuldade em separar o lixo em menos categorias, o Japão pode oferecer uma amostra do que virá. Em um esforço nacional para reduzir o lixo e aumentar a reciclagem, os bairros, prédios comerciais e as megalópoles estão aumentando o número de categorias de lixo --às vezes de forma alucinante.

De fato, Yokohama, com 3,5 milhões de habitantes, parece frouxa em comparação a Kamikatsu, uma cidade de 2.200 habitantes nas montanhas de Shikoku, a menor das quatro principais ilhas do Japão. Não contente com as 34 categorias de lixo que definiu quatro anos atrás, como parte de um grande esforço para reduzir o lixo, Kamikatsu gradualmente aumentou o número para 44.

No Japão, o esforço de longo prazo para separar e reciclar visa reduzir a quantidade de lixo que termina nos incineradores. No Japão carente de terras, até 80% do lixo é incinerado, enquanto uma proporção semelhante termina em aterros nos Estados Unidos.

O processo ambientalmente mais amigável de separar e reciclar pode ser mais caro do que aterrar, disseram os especialistas, mas é comparável em custo à incineração.

"Separar lixo não é necessariamente mais caro do que a incineração", disse Hideki Kidohshi, um pesquisador de lixo do Centro para Estratégias de Emergência do Instituto de Pesquisa do Japão. "No Japão, separar e reciclar ajudará no progresso."

Para Yokohama, a meta é reduzir o lixo incinerado em 30% ao longo dos próximos cinco anos. Mas a meta de Kamikatsu é ainda mais ambiciosa: eliminar totalmente o lixo até 2020.

Nos últimos quatro anos, Kamikatsu reduziu a quantidade de lixo destinada ao incinerador e aumentou seu lixo reciclado para 80%, disseram autoridades municipais. Cada lar agora tem uma unidade de despejo de lixo subsidiada que recicla o lixo bruto em composto.

Na única Estação de Lixo para onde os moradores devem levar seu lixo, 44 recipientes coletam de tudo, de caixas de tofu até embalagens de ovos, tampas de garrafa plástica até pauzinhos descartáveis, lâmpadas fluorescentes até colchonetes.

Em uma recente manhã, Masaharu Tokimoto, 76 anos, dirigiu sua picape até a estação e habilmente colocou as garrafas marrons no recipiente apropriado, as garrafas transparentes no delas. Ele olhou nos rótulos das latas para determinar se eram de alumínio ou aço. Confuso sobre um item, ele ficou paralisado por um minuto antes de resmungar para si mesmo: "Isto deve estar dentro".

Cerca de 15 minutos depois, Tokimoto tinha acabado. A cidade ficou bem mais limpa com a nova política de lixo, disse ele, apesar de ter acrescentado: "É uma encheção, mas não posso despejar o lixo nas montanhas. Seria uma violação".

Em cidades pequenas e aldeias onde todos se conhecem, não separar o lixo pode ser impensável. Mas nas grandes cidades, nem todos o fazem, e talvez mais do que qualquer outro ato, separar o lixo adequadamente é considerado como prova de que se é um cidadão adulto, responsável.

Os jovens, especialmente os solteiros, são notórios por não separarem. E senhorios relutantes em alugar para não japoneses, freqüentemente explicam que os estrangeiros não podem --ou não vão-- separar seu lixo.

Em Yokohama, após alguns bairros terem começado a separar o lixo no ano passado, alguns moradores deixaram de jogar lixo em casa. As latas de lixo de parques e lojas de conveniência começaram a ficar misteriosamente cheias com lixo não separado.

"Assim nós paramos de colocar latas de lixo nos parques", disse Masaki Fujihira, que supervisiona a promoção da separação de lixo na divisão de lixo doméstico da prefeitura de Yokohama.

E então entraram em cena os guardiões do lixo, o exército de voluntários atentos por todo o Japão, que reviram os sacos de lixo ofensores em busca de, digamos, uma conta de gás delatora, para então cutucar o seu proprietário para que faça o certo.

Um dos mais tenazes por aqui é Mitsuharu Taniyama, 60 anos, dono de uma pequena seguradora e que dirige pelo seu bairro toda manhã e início de noite à procura de lixo não separado. Ele deixa bilhetes nos locais de coleta: "Sr. tal e tal, sua prática de separação do lixo está errada. Por favor, corrija-a".

"Eu checo dentro dos sacos e levo os particularmente errados até a porta da frente de seus donos", disse Taniyama.

Ele parou diante de um local desarrumado, onde cinco sacos estavam espalhados, e corvos estavam pegando cascas de laranja de um deles.

"Este é um exemplo típico de lixo ruim", disse Taniyama, com revolta. "O problema neste local é que não há nenhum líder comunitário. Se não há um líder forte, há o caos."

Ele se encontrou com seus subalternos em campo. Na esquina de uma rua com casas grandes, onde a nova política entrou em vigor em outubro passado, Yumiko Miyano, 56 anos, estava esperando com alguns vizinhos.

Miyano disse que ela já conseguiu 90% de adesão, acrescentando que, para sua surpresa, os que resistiam tendiam a ser "intelectuais", como um certo professor universitário ou um executivo da Japan Airlines rua acima.

"Mas o marido é o problema --a mulher separa devidamente o lixo", disse um vizinho sobre a família da companhia aérea.

Se acostumar ao novo sistema não ocorreu sem seus momentos embaraçosos.

Shizuka Gu, 53 anos, disse que no início, um líder comunitário lhe enviou uma carta a repreendendo por não ter escrito seu número de identificação no saco com "pincel atômico". Ela foi repreendida por ter usado uma caneta de traço "muito fino".

"Foi um grande choque ser informada de que tinha feito algo errado", disse Gu. "Assim não consegui mais jogar o lixo pessoalmente aqui e pedi ao meu marido que o levasse ao seu escritório. Nós fizemos isso por um mês."

Em um conjunto de apartamentos de 100 famílias não muito distante, Sumishi Kawai mantinha seus olhos treinados no lixo antes de ser recolhido. Separação errada era fácil de ser avistada, dado o uso obrigatório de sacos de lixo transparentes com números de identificação. A separação era perfeita --quase.

Um jovem casal fracassava constantemente em separar devidamente seu lixo. "Desculpe! Seremos cuidadosos!" eles diziam toda vez que Kawai batia à porta deles segurando evidência de suas transgressões.

Finalmente, mesmo Kawai --um senhor pequeno de 77 anos com cabelo grisalho, um sorriso suave e jeito de avô-- não conseguiu mais suportar.

"Eles estavam alugando o apartamento, de forma que pedi ao proprietário: 'Seria possível obrigá-los a se mudar?'" disse Kawai, lembrando, com evidente satisfação, de que o casal foi despejado dois meses atrás. Como japoneses jogam coisas fora? Vamos contar muitas formas George El Khouri Andolfato

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