UOL Notícias Internacional
 

12/05/2005

Mulheres comandam a indústria têxtil no Camboja para fugir da pobreza e da prostituição

The New York Times
Elizabeth Becker

Em Phnom Penh, Camboja
Ao final de um dia longo e quente costurando camisas masculinas, centenas de jovens cambojanas esperavam ansiosamente. Elas temiam que seu chefe britânico anunciasse demissões.

Michael Nagle/The New York Times

Trabalhadoras com Sina Phin (à direita) são ajudadas por acordos do camboja com os EUA
Mas em vez das más notícias, o gerente, Adrian Ross, disse que a empresa ia fazer um piquenique para celebrar o Ano Novo cambojano, no dia 15 de abril, em uma nova fábrica construída pela empresa na mesma rua. "Foi um ano de muito trabalho", disse Ross. "Agora é hora de diversão".

Graças a um programa trabalhista não ortodoxo patrocinado pelos EUA para melhorar as condições de trabalho, grande parte das confecções cambojanas tem conseguido se manter depois da suspensão do sistema de quotas que reservava fatias do setor para cada país.

A maioria das empresas cambojanas manteve os negócios com os maiores revendedores em torno do mundo. Seu apelo não é apenas a produção de baixo custo, mas também o desejo dos clientes de evitar o estigma de explorar operários em fábricas distantes.

O sistema de quotas --que depois de 30 anos foi abolido no dia 1º de janeiro-- não apenas segurava os empregos no setor em nações industriais avançadas, mas também ajudava alguns países pobres dando-lhes entrada garantida no comércio global de US$ 400 bilhões (em torno de R$ 1 trilhão) de roupas e têxteis.

Mas agora, muitos países pobres estão procurando formas de manter suas confecções funcionando em um mundo de competição irrefreada --em que a China foi liberada e está tentando abocanhar maior fatia.

O Camboja, apesar da ainda ser um lugar barato para se produzir roupas, preferiu adotar um sistema de inspeções e sindicatos extraordinariamente fortes, que se tornaram uma força política independente em um país mergulhado em corrupção e nepotismo. Seus esforços talvez apontem um caminho para outras nações que buscam evitar a decadência e defender seu espaço na economia global.

Apesar de perder o acesso especial ao mercado americano com o final das quotas, o Camboja --o governo, as fábricas e sindicatos-- está mantendo seus altos padrões. Todos concordam que esses fatores ajudaram o país a escapar de grande parte da convulsão que está varrendo a indústria global.

Cham Prasith, ministro cambojano de comércio que fechou um acordo com Washington em 1999, disse que os benefícios tinham ultrapassado suas expectativas.

"Estamos estendendo nossos padrões trabalhistas porque sabemos que é por isso que continuamos a ter compradores", disse em entrevista. "Se não respeitássemos os sindicatos e os padrões trabalhistas, estaríamos matando a galinha dos ovos de ouro".

Apesar das mortes inexplicadas no ano passado do líder carismático do sindicato dos trabalhadores em vestuário e de um de seus braços direitos, a aposta nos direitos trabalhistas parece estar conseguindo manter a indústria de US$ 1,5 bilhão (em torno de R$ 3,75 bilhões) no azul. Este ano, serão inauguradas dezesseis grandes plantas, que superarão a dúzia que faliu.

O aumento das exportações de roupas chinesas roubou negócios de países pobres e ricos. Nos EUA e na Europa, os lobbies das indústrias têxtil e de vestuário foram poderosos o suficiente para instar seus governos a considerarem a imposição de limitações temporárias a produtos chineses.

No entanto, países menores em desenvolvimento como o Camboja não têm essas defesas diante do rolo-compressor chinês. Então, Camboja, Bangladesh e 11 outros países pobres estão pedindo ao Congresso americano que remova os impostos sobre suas exportações de vestuário aos EUA, o que lhes daria uma leve vantagem contra a China e maior esperança de se manter no ramo.

Muhammad Yunus, banqueiro bengalês que criou o micro-crédito, apelou pessoalmente aos legisladores em Washington para que aprovassem a lei. Segundo ele, para muitas jovens asiáticas, a escolha no mundo de hoje seria um emprego em uma confecção ou uma vida de prostituição nas ruas.

Neb Vicheka, 31, que trabalha na fábrica da Sportex, sabe da verdade por trás da advertência de Yunus. Ela é uma das 250.000 operárias das fábricas de roupas do país e viu jovens serem demitidas das fábricas e acabarem como recepcionistas em bares de karaokê em Phnom Penh, uma variante de prostituição.

Veterana no jovem movimento trabalhista do Camboja, Neb representa uma alternativa moderna. Ela trabalha na indústria desde que as primeiras fábricas foram abertas, em 1998, e agora recebe US$ 90 (cerca de R$ 225) por mês em um país onde US$ 45 são considerados um salário.

Neb e a irmã são proprietárias da palafita em que moram, que conta até com um pequeno jardim. Ela vai trabalhar de motocicleta e tem pequenos luxos como brincos de diamante.

"É raro duas mulheres sozinhas terem sua casa no Camboja", disse ela, sentada na varanda na frente da casa, depois de um dia na fábrica. "Mas quero mais. Quero ter meu próprio negócio e voltar para o campo."

Somente na indústria de roupas Neb poderia ter esses sonhos. Nos outros setores da economia, os pobres estão perdendo terreno. Em 1991, um acordo de paz internacional foi assinado em Paris, que formalmente pôs fim a duas décadas de violência no Camboja --depois de ser zona de batalha da guerra da Indochina, veio o pesadelo da revolução do Khmer Vermelho, a invasão vietnamita de 1979 e outro ciclo de guerra civil.

Desde o acordo, as nações estrangeiras e organizações internacionais gastaram mais de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 17,5 bilhões) para ajudar a colocar o país em pé novamente.

Mas todo esse dinheiro não conseguiu impedir a deterioração dos índices de analfabetismo e saúde. Exceto pela indústria de roupas, a epidemia de corrupção oficial mitigou quase todos os esforços de melhoria, segundo novos estudos do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA.

"O programa trabalhista na indústria têxtil é mais importante para o Camboja do que qualquer outro, porque sabemos que os salários vão diretamente para os trabalhadores e aumentam seu padrão de vida", disse Roland Eng, embaixador cambojano responsável por questões de desenvolvimento.

Charles Ray, embaixador americano no Camboja, disse que as conseqüências do ativismo trabalhista da indústria foram tanto políticas quanto econômicas. O movimento sindical, que agora inclui professores e trabalhadores da indústria do turismo, está rapidamente se tornando o grupo mais democrático e independente do país.

"Os sindicatos dos trabalhadores têxteis são algumas das melhores instituições que esse país já teve", disse Ray. "A exploração de trabalhadores não pode ser um caminho para o desenvolvimento --pelo contrário, os trabalhadores têm que ser tratados com respeito para que haja desenvolvimento." Jovens têm duas opções para trabalhar: confecções ou prostíbulos Deborah Weinberg

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