UOL Notícias Internacional
 

12/05/2005

Pelo menos 79 morrem em atentados no Iraque

The New York Times
John F. Burns*

Em Bagdá, Iraque
Os insurgentes atacaram no norte e no centro do Iraque, nesta quarta-feira (11/05), numa série atentados com bombas que mataram pelo menos 79 pessoas em três cidades diferentes, e feriram pelo menos 120 outras pessoas.

Os números foram fornecidos por funcionários da polícia e da rede hospitalar. Estes atentados representaram uma intensificação dos ataques que vêm ocorrendo há duas semanas, perpetrados por insurgentes árabes sunitas que, ao que tudo indica, parecem estar tentando desestabilizar o recém-formado governo do Iraque, de maioria xiita.

No mais letal destes atentados, pelo menos 38 pessoas morreram e mais de 80 foram feridas quando um terrorista-suicida detonou a bomba que transportava dentro do seu veículo na rua principal de Tikrit, a cidade de origem de Saddam Hussein, onde a maioria dos habitantes é de árabes sunitas, situada a cerca de 177 quilômetros ao norte de Bagdá.

Os sobreviventes contaram que o terrorista dirigiu o seu carro-bomba até um local muito movimentado deste que é um dos distritos mais pobres da região central xiita, no sul do Iraque, onde trabalhadores desempregados estavam reunidos, à procura de tarefas temporárias, que costumam ser remuneradas em valores da ordem de US$ 5 (R$ 12,5) por dia.

O desconhecido prometeu trabalho para alguns deles, e então lhes pediu para vigiar o seu carro e foi embora. O carro explodiu logo depois.

Na pequena cidade de Hawija, perto de Kirkuk, a cerca de 240 quilômetros ao norte de Bagdá, um homem-bomba que carregava explosivos amarrados no corpo passou sem ser notado por uma barreira onde estavam guardas dos serviços de seguranças encarregados de proteger o centro de recrutamento das novas forças do exército e da polícia do Iraque, treinadas pelos americanos. Após ter penetrado no recinto, o terrorista detonou os explosivos, segundo contou um oficial da polícia.

Neste atentado, ao menos 32 pessoas foram mortas e 34 foram feridas, segundo informaram funcionários do hospital local. Essas baixas aumentaram para cerca de 250 o número de soldados, policiais e recrutas que foram mortos em função da nova onda de ataques perpetrados pelos insurgentes, os quais concentraram as suas ações essencialmente contra alvos das forças de seguranças iraquianas.

Além disso, esse número deve ser somado aos cerca de 150 mortos em meio à população civil iraquiana. Por fim, desde sábado passado (07/05), pelo menos 14 soldados norte-americanos morreram, seja em função dos atentados dos insurgentes, seja durante uma ofensiva desfechada pelos Marines ao longo da fronteira com a Síria.

Quatro outros atentados foram perpetrados em Bagdá, matando pelo menos três soldados iraquianos, dois policiais e quatro civis. Alguns funcionários do ministério iraquiano de Interior disseram que os atentados incluíram um ataque-suicida com bomba, no qual o terrorista detonou os explosivos que ele levava no seu carro perto de uma delegacia de polícia, no distrito de Darwa, de maioria sunita, matando três civis.

Um outro homem-bomba atacou uma patrulha de polícia no bairro residencial abastado de Mansour, matando dois policiais e um civil, enquanto homens armados montaram uma emboscada contra uma patrulha do exército iraquiano num subúrbio situado na região oeste de Jamiya, matando três soldados.

Um outro atentado, desta vez com morteiro, atingiu o edifício do ministério do petróleo, mas os funcionários deste ministério informaram que não houve nenhuma baixa.

No deserto da região noroeste, ao longo da fronteira do Iraque com a Síria, Marines, que conduziram uma ofensiva de grandes proporções contra os insurgentes durante o fim de semana, pareciam ter encerrado as suas operações.

O coronel Bob Chase, o chefe das operações da 2ª Divisão da Marinha, baseada em Ramadi, explicou que foram conduzidas "muito poucas ações realmente significativas" durante a quarta-feira, após dias de ataques contra várias rotas de passagem por onde os insurgentes costumavam se infiltrar, seguindo nas ribanceiras do rio Eufrates, a leste da cidade fronteiriça de Husayba.

Anteriormente, o comando deste grupo de batalha integrado por 1000 homens informara que havia matado cerca de 100 insurgentes, com três baixas entre os próprios Marines, mas o coronel Chase acrescentou que havia pouquíssimos homem com idade para ações militares sobrando na região. "Nós achamos que o inimigo entendeu a situação e optou por recuar e esconder-se dentro das cidades", disse.

Os oficiais das forças americanas esperavam que o advento de um governo eleito, legitimado por uma mandato atribuído por cerca de 9 milhões de iraquianos que votaram nas eleições de janeiro, teria persuadido os elementos hesitantes da insurgência liderada pelos sunitas a se juntarem às forças apoiadas pelo exército americano no esforço para estabelecer uma democracia no estilo ocidental.

Contudo, até agora, estas esperanças foram por água baixo em função de uma erupção de violência que foi desfechada pelas forças da insurreição, em níveis raramente vistos ao longo dos 25 meses que se passaram desde que as tropas americanas tomaram Bagdá.

Além disso, estes ataques em série deixaram o novo governo do primeiro-ministro Ibrahim Al-Jaafari numa situação de aparente vulnerabilidade, nove dias apenas depois de ele ter prestado juramento ao assumir as suas funções.

O novo governo, dirigido por dois partidos religiosos xiitas que possuem fortes vínculos com o Irã, simbolizou uma guinada importante na história do Iraque, caracterizada pela transferência do poder para a maioria xiita, após o domínio ao longo de gerações da minoria árabe sunita, o qual chegou ao fim com a derrubada de Saddam Hussein.

Mas, enquanto alguns grupos sunitas que garantem ter laços com as forças da insurreição deram início a negociações com os líderes xiitas, para pleitear cargos no novo gabinete do governo, as suas tentativas fracassaram por causa das recriminações dos eleitos xiitas a respeito dos vínculos que alguns dos indicados pelos sunitas teriam com Saddam e o seu Partido Baath.

No fim de semana passado, Ibrahim Al-Jaafari concluiu a formação do seu gabinete com a inclusão de candidatos sunitas que não tivessem relação nem com a corrupção, nem com a repressão que caracterizaram o regime de Saddam --mas também, conforme temem muitos iraquianos, que tenham uma credibilidade junto aos sunitas que poderia transformá-los em intermediários efetivos nesta guerra.

Al-Jaafari, um médico afável de 58 anos que fugiu da perseguição promovida por Saddam contra ele, permanecendo durante mais de 20 anos no exílio, teve um início de mandato como primeiro-ministro que não se revelou tão bem sucedido quanto o do seu predecessor de maneiras bem mais rudes, Ayad Allawi, um xiita secular que dirigiu durante os últimos dez meses o governo interino indicado pelas forças de ocupação americanas, e que construiu uma reputação negativa, de quem teria sido favorável ao prosseguimento agressivo da guerra.

Os altos-funcionários americanos haviam esperado que Allawi pudesse ocupar um cargo importante no novo governo, possivelmente numa função relacionada com a segurança, mas ele preferiu ficar de fora do novo gabinete depois de os líderes xiitas terem rejeitado aquilo que eles viam como uma tentativa do líder do governo em final de mandato de tentar obter poderes desproporcionados na nova administração.

Durante o período de violência que tomou conta do país nos últimos dias, o gesto mais visível de Al-Jaafari visando a tranqüilizar os iraquianos ocorreu durante um encontro com três mulheres trajando a tradicional burka preta, vindas da cidade de Mosul (norte).

Elas haviam ficado viúvas em conseqüência de atentados das forças da insurreição. Elas ainda estavam acompanhadas por um menino cujo pai havia sido assassinado na frente dele por rebeldes.

Durante o encontro, que foi difundido pela televisão iraquiana na noite de terça-feira (10) e reprisado no dia seguinte, o menino, Ayman, de cerca de 10 anos, disse a Al-Jaafari, com a voz embargado pelo choro: "Se você não matar o homem que matou o meu pai, é só enviá-lo para mim, e eu juro por deus que eu o matarei".

O primeiro-ministro, que segurava o menino com uma mão, lutando aparentemente para segurar a sua própria vontade de chorar, respondeu-lhe: "Não, eu quero que você ajude a reconstruir o Iraque, e que você deixe a justiça seguir o seu curso".

*Colaborarou Richard A. Oppel Jr., em Bagdá. Rebeldes revidam ação dos EUA com piores ataques em 25 meses Jean-Yves de Neufville

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