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13/05/2005

Hillary forma casal esdrúxulo na política dos EUA

The New York Times
Raymond Hernandez*

Em Washington
O que Newt Gingrich e Hillary Rodham Clinton querem um do outro?

Nos anos 90, esses dois rivais se situavam em pólos opostos do espectro político. Ele liderava o ataque contra a presidência de Bill Clinton e ajudava a inviabilizar o ambicioso plano para o setor de saúde que ela defendia.

Mas, por mais estranho que isso seja, algo mudou desde então, e está dando o que falar.

Gingrich, o republicano ex-presidente da Câmara, está trabalhando em conjunto com a ex-primeira dama em uma série de questões, e chegou até a aparecer com ela em uma entrevista coletiva à imprensa na última quarta-feira (11/05) para promover exatamente uma legislação para o setor de saúde.

Porém, mais surpreendente do que isso é o fato de Gingrich estar falando favoravelmente das perspectivas presidenciais de Hillary para 2008, para o desgosto dos conservadores leais que já o tiveram como uma figura icônica.

No mês passado, ele chegou a sugerir que ela poderia chegar à presidência, afirmando: "Qualquer republicano que achar que será fácil derrotá-la está sofrendo de total amnésia quanto à história dos Clinton".

Para Hillary, estar ao lado daquele que já foi o inimigo número um do seu marido dá-lhe uma chance de polir as suas credenciais junto aos moderados que ela vem cortejando durante o seu período no Senado.

Mas, em comentários feitos nesta semana, ela deu a entender que a reaproximação é fruto de interesses políticos comuns, e não de uma estratégia política calculada.

"Sei que essa parece ser uma mistura um pouco estranha", disse ela. "Mas Gingrich e eu temos conversado sobre o setor de saúde e a segurança nacional por vários anos, e acredito que ele e eu temos muita coisa em comum com relação à forma como enxergamos o problema".

De sua parte, Gingrich, que ajudou a liderar o movimento pelo impeachment do presidente Clinton, chamou a senadora por Nova York de "muito prática" e de "bastante inteligente e trabalhadora", acrescentando: "Fiquei muito surpreso ao trabalhar com ela".

A aproximação entre Hillary e Gingrich ocorre no momento em que a senadora vem assumindo posições cada vez mais moderadas em várias áreas.

No setor de saúde, ela tem adotado uma abordagem mais gradual para garantir atendimento médico a um número maior de norte-americanos, uma mudança em relação às suas iniciativas nos anos 90, quando críticos republicanos como Gingrich a acusaram de advogar uma tomada do sistema de saúde pública por parte de um governo hipertrofiado.

Ela conta que as suas recentes posições quanto ao assunto foram bem recebidas por Gingrich.

"Newt Gingrich me telefonou e disse 'Você está absolutamente certa'", diz Hillary.

Conforme se pode perceber, Gingrich e Hillary têm atualmente bem mais coisas em comum do que tinham durante a década de 90, quando ela era vista como um símbolo dos excessos liberais da Casa Branca de Clinton e ele era um furibundo porta-voz de um ressurgente movimento conservador em Washington.

Além da questão da saúde, Hillary e Gingrich forjaram um relacionamento relativamente estreito trabalhando em um comitê criado pelo Pentágono para avaliar maneiras de melhorar a prontidão militar do país, segundo pessoas próximas a ambos.

O comitê se reuniu várias vezes a portas fechadas no Comando das Forças Conjuntas, em Norfolk, Virginia, onde os dois desenvolveram uma relação tão cordial que "às vezes chegam a finalizar a sentença proferida pelo outro", disse um assessor político que viu ambos trabalhando juntos.

Gingrich diz ter ficado impressionado com a forma como Hillary se mostrou favorável às medidas militares quando outros democratas criticaram a decisão do presidente Bush de lançar uma guerra contra o Iraque.

Ele atribuiu o fato à experiência da senadora no seu período na Casa Branca, quando o marido, como comandante-em-chefe, precisou lidar com questões graves relativas à segurança nacional.

Gingrich disse que ficou nitidamente impressionado com o fato de ela ter sido a única representante de Nova York a ter participado do Comitê do Senado sobre Serviços das Forças Armadas.

"Ao contrário da maioria dos membros da legislatura, ela esteve na Casa Branca", explica Gingrich. "Ela tem sido consistentemente coerente ao apontar a necessidade de se fazer a coisa certa no que se refere à defesa nacional".

Foi, na verdade, durante uma dessas reuniões do comitê em Norfolk que Gingrich sugeriu a ela que unissem esforços para fazer pressão em favor de uma legislação em uma área de preocupação mútua: a necessidade de promover maior troca de informação médica online entre pacientes, médicos, seguradoras de saúde e outros especialistas da área.

Isso, por sua vez, culminou em uma entrevista coletiva à imprensa da qual ambos participaram no início desta semana.

Apesar de toda a sensação que essa dupla inesperada está gerando no momento, o aquecimento da relação entre os dois remonta pelo menos a dezembro de 2003, quando Gingrich apareceu no programa "Meet the Press", logo após Hillary ter falado, e previu que ela tinha tudo o que era necessário para ser a candidata democrata à presidência --um comentário que foi percebido pelo grupo político da senadora.

Na quinta-feira (12/05), ele reiterou a sua crença em que Hillary será uma adversária formidável para os republicanos caso decida concorrer à presidência em 2008. "Qualquer republicano que acredite que será fácil derrotá-la em 2008 não compreende realmente os Clinton".

O motivo exato pelo qual Gingrich tem se mostrado tão efusivo com relação a Hillary é uma questão em aberto. Ele diz ter ficado impressionado com o trabalho que ela vem fazendo desde que se elegeu senadora.

Mas outros dizem os ganhos políticos de Gingrich são tão grandes quanto os de Hillary, quando divide o palco com ela, em um momento no qual se diz que ele estuda a possibilidade de concorrer à presidência em 2008.

"É algo que beneficia a ambos", opina Hank Sheinkopf, estrategista político democrata. "Ele aparece como uma figura inserida na vertente política predominante e ela como alguém que se dispõe a trabalhar com qualquer um, independentemente da ideologia".

Mas Gingrich pode terminar pagando um preço politicamente caro por ter se engajado naquilo que vários conservadores vêem como uma heresia.

"Ele está tentando mudar a sua imagem, aparentando ser um Newt mais maleável e gentil", acusa Michael Long, presidente do Partido Conservador do Estado de Nova York.

"Esse é um grande erro de sua parte. O que o torna atraente aos olhos do eleitorado é o fato de ter provocado uma mudança muito importante na política norte-americana. Ele não deveria abrir mão disso para agradar Hillary Clinton".

*Colaborou Patrick D. Healy. A senadora aproxima-se de conservador que combateu Clinton Danilo Fonseca

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