UOL Notícias Internacional
 

14/05/2005

Série da TV iraquiana reflete a realidade do país

The New York Times
Robert F. Worth

Em Bagdá, Iraque
Em certa manhã do mês passado, Qasim Al Malakh, um dos mais famosos atores iraquianos, estava em um terreno baldio poeirento, em uma parte perigosa do sul de Bagdá. Ele vestia um imaculado terno escuro com gravata; ao seu lado, a atriz Nagham Al Sultani estava vestida de noiva.

Era a filmagem do último episódio de "Amor e Guerra", o drama mais popular da televisão iraquiana. Seus personagens, Fawzi e Fatin, tinham acabado de se casar, depois de um longo e complicado romance.

Chegara a hora da cena final e de uma pequena dose de realidade iraquiana. As câmeras focaram no carro que levava os recém casados para a lua de mel. Com um sinal do diretor, o carro explodiu em chamas, lançando nuvens de fumaça negra.

Fawzi e Fatin, como muitos iraquianos de verdade, foram vítimas de um homem-bomba.

O episódio, que será transmitido em junho, é o final de uma série que cativou os iraquianos desde que estreou no ano passado. "Amor e Guerra" é uma comédia de humor negro que só poderia ter sido feita no Iraque.

É uma mistura de pastelão com números musicais estilo Bollywood e um retrato brutalmente franco da violência iraquiana. Vários de seus principais personagens morrem em atentados, outros são seqüestrados; tanques e helicópteros aparecem constantemente no cenário.

"Queríamos refletir o ambiente daqui. Você pode ser seqüestrado a qualquer momento. Ou uma bomba pode te matar. Essa é nossa vida", disse o diretor e autor do programa, Jamal Abed Jassim.

De certa forma, "Amor e Guerra" presta testemunho às novas liberdades conquistadas pelos artistas iraquianos. Sob Saddam Hussein, a televisão e o cinema eram estritamente controlados. Os diretores evitavam filmar qualquer coisa que sugerisse uma crítica ao sistema, disse Jassim, que começou a fazer televisão e cinema em 1980.

Desde então, foram filmados vários dramas de televisão, apesar da dificuldade de se filmar ao ar livre em Bagdá. Como vários outros programas, "Amor e Guerra" é produzido pelo canal de televisão via satélite Al Sharqiya, aberta no ano passado por um iraquiano de Dubai, Saad Al Bazzazz.

O programa, porém, não esconde o preço que o Iraque pagou por sua liberdade. A primeira temporada começou com uma cena lenta de Fawzi e Fatin na ponte Jadriya, em Bagdá, horas antes do início dos bombardeios americanos, em março de 2003.

"Será possível que a bela Bagdá será queimada?" diz Fatin. "E o nosso amor?"

Fawzi segura sua mão. "Sobreviverá, mesmo que haja guerra", diz ele, com a música crescendo. Segue uma montagem dos bombardeios em Bagdá e suas ruínas, enquanto uma voz melancólica canta as glórias da cidade.

Até os momentos cômicos do programa às vezes são violentos. Em um episódio, Fawzi está tão ocupado flertando com Fatin que não vê que seu carro está descendo uma ladeira. Eles se aproximam de uma barreira militar americana, os soldados acham que é um carro-bomba e cobrem-no de tiros.

"Amor e Guerra" nem sempre apresenta os padrões das produções ocidentais. A maior parte é filmada ao ar livre em Bagdá e tem o visual improvisado de um filme de estudante. Mas a improvisação faz parte do charme.

Várias vezes durante as filmagens, soldados americanos vinham ver o que estava acontecendo, alarmados com o movimento de câmaras, atores e extras. Quase sempre, Jassim virava a câmara aos soldados --ou helicópteros-- e os integrava ao episódio.

"Quando você monta um microfone, os pilotos de helicóptero acham que é um foguete ou uma arma", diz o elegante Al Malakh, que com 60 anos faz personagens de 45. As interrupções constantes muitas vezes atrasam as filmagens, disse ele. Mas têm seu lado positivo.

"Em outros países, custa milhares de dólares filmar um tanque ou um helicóptero", disse Al Malakh. "Aqui, temos de graça." A produção da primeira temporada de "Amor e Guerra" custou cerca de US$ 150.000 (aproximadamente R$ 375.000), disse ele.

O programa se concentra em Fawzi, um iraquiano comum que luta para fazer a coisa certa sob circunstâncias difíceis. Com seu rosto bonito e preocupado e seu fusca azul, ele demonstra uma gentileza inata e uma tendência a entrar em enrascadas.

Em um dos primeiros episódios, Fawzi descobre em seu trabalho, em uma central telefônica, que um grupo planeja seqüestrar um menino que mora ali perto. Ele corre para a casa do menino para advertir a mãe que, assustada, manda-o embora.

Quando os seqüestradores chegam e levam o menino, a mãe levanta suspeitas contra Fawzi. Só depois de prendê-lo que a polícia acredita em sua história e, com sua ajuda, encontra os verdadeiros criminosos.

A amada de Fawzi, Fatin, também é uma pessoa boa enfrentando obstáculos. Ela trabalha em um hospício, mas a maior parte dos profissionais fugiu depois da invasão de 2003, e ela luta para cuidar dos pacientes com poucos assistentes. Ela vem de uma família rica e grande parte do enredo gira em torno dos esforços da mãe de impedi-la de se casar com Fawzi, que é pobre.

Parte do atrativo do programa, para muitos iraquianos, são esses heróis de bom coração, em um mundo de brutalidade e violência.

"Os iraquianos são verdadeiramente como Fawzi e Fatin, mas todo mundo fala sobre os criminosos", disse Al Malakh. "Isso é importante para nós."

"Amor e Guerra" não é a única série a dar um vislumbre da realidade iraquiana. Há também "Al Hawasim", ou "Os Decisivos", um termo que os iraquianos começaram a usar quando vândalos pilharam a cidade depois que Saddam chamou a invasão de 2003 de "A Batalha Decisiva". Na série, alguns dos vândalos ficaram ricos.

Outro programa é "A Partida", sobre pessoas que roubam antiguidades iraquianas, disse Jassim.

Ao todo, cerca de 10 séries foram filmadas desde a guerra, e metade delas foi ao ar, disse Jassim. Os programas são uma grande oportunidade para os atores, que podem ganhar acima de US$ 1.000 (cerca de R$ 2.500) por episódio, muito mais do que recebiam antes de 2003, acrescentam.

Nenhum outro, porém, recebeu a mesma resposta apaixonada que "Amor e Guerra", disse Jassim. O programa é popular não só no Iraque, mas em muitos outros países com populações iraquianas, graças aos canais de satélite que pagam o direito de transmitir a Al Sharqiya.

Depois de um determinado episódio no ano passado, no qual a mãe de Fawzi foi morta em um atentado suicida, Balkes Razzak, uma dona-de-casa iraquiana viu-se em prantos. Ela ligou para sua irmã România, que também estava acompanhando o programa e estava chorando.

A primeira temporada, filmada no início do ano passado e transmitida no final da primavera, recebeu pouca atenção no Ocidente, porque coincidiu com levantes armados no Sul do Iraque e com a primeira aparição de Saddam em tribunal, que também foram transmitidos.

A segunda temporada, terminada em meados de abril, é mais sombria, mas há alguns momentos leves. Ahmad, um amigo de Fawzi, um anão que tentava conquistar uma bela vizinha, encontra a felicidade. Ele e a menina, Lubna, se casam e têm gêmeos.

A mesma felicidade não aguarda Fawzi e Fatin. Jassim disse que matou seus principais personagens porque queria partir para outros projetos, inclusive uma adaptação de "O Avarento", de Molière, ambientada na Bagdá de antes da guerra.

Al Malakh, no entanto, disse que a tragédia era a única forma apropriada de terminar a série. "Essa é a nossa vida", disse ele. "Estou rindo com você agora, mas minha casa pode ter explodido. Essa é a comédia negra em que vivemos."

*Colaboraram Thaier Al Daami e Layla Isitfan, em Bagdá. "Amor e Guerra" é uma tragicomédia que só poderia ser do Iraque Deborah Weinberg

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