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15/05/2005

Açúcar é o mais recente demônio do supermercado

The New York Times
Melanie Warner
No verão passado, à medida que a mania de dieta de baixo carboidrato começava a desaparecer, executivos da Stonyfield Farms decidiram que precisavam mudar seu iogurte Moove Over Carbs.

O que apresentaram era simples e indolor: em janeiro, eles tiraram o Moove Over Carbs das prateleiras, e neste mês o Moove Over Sugar tomou seu lugar. Com exceção do nome, o produto permanece exatamente o mesmo -afinal, os açúcares também são carboidratos. Ambos os iogurtes contêm um substituto para o açúcar e contêm cerca de 40% menos calorias do que as variedades regulares da Stonyfield Farm.

O baixo açúcar se tornou o novo baixo carboidrato. Os fabricantes de alimentos estão correndo para atender a demanda dos consumidores, preocupados com a cintura e com alimentos mais saudáveis, oferecendo uma série de novos produtos, alguns deles voltados para crianças. Mas os cientistas estão divididos em torno de quanto isto é positivo, questionando se a mudança ajudará as pessoas a perderem peso, e quão saudáveis são os adoçantes artificiais.

Segundo uma pesquisa feita pela Associação dos Fabricantes de Alimentos, um grupo setorial, quase 50% de todos os compradores de alimentos dizem que estão procurando por produtos com menos açúcar.

"Carboidratos foram uma moda, mas a preocupação com a açúcar veio para ficar", disse Cathleen Toomey, vice-presidente de comunicações da Stonyfield Farms, que é de propriedade do Groupe Danone da França.

Quase toda empresa do setor alimentício está pensando desta forma. Entre os novos produtos que estão sendo oferecidos estão os cookies Milano sem açúcar da Pepperidge Farm, o pão sem açúcar da Arnold Smart & Healthy, e o Cocoa Puffs com 75% menos açúcar da General Mills.

Estimulada em parte pela popularidade do substituto de açúcar sucralose, ou Splenda, a indústria alimentícia lançou no ano passado 2.225 produtos sem açúcar ou com menos açúcar nos Estados Unidos, segundo a firma de pesquisa Productscan Online. Este número é mais do que o dobro do que o de dois anos atrás e representa 11% de todos os novos produtos em 2004.

Em comparação, em 2004, no auge do boom do baixo carboidrato, foram lançados 3.375 produtos, representando 19% de todos os produtos daquele ano, segundo a Productscan. Neste ano, os lançamentos de produtos de baixo carboidrato de janeiro até abril caíram 25% em relação ao mesmo período no ano passado.

Na semana passada, a ACNielsen identificou orgânico e sem ou com pouco açúcar como os dois segmentos de alimentos "bom para você" que fazem os produtos serem notados pelo consumidor e geram maior crescimento de vendas. Muitos destes novos produtos com baixo açúcar não são apenas produtos já conhecidos como refrigerantes dietéticos e gomas de mascar sem açúcar, mas alimentos e bebidas como cereais, sucos de fruta, biscoitos, pão, sorvete, leite com sabor, molhos para massa, coberturas e até mesmo água engarrafada.

Alguns poucos destes produtos, como os cereais Froot Loops e Frosted Flakes com um terço a menos de açúcar da Kellogg, e suco de maça Healthy Harvest da Mott's, simplesmente têm menos açúcar adicionado e têm gosto menos doce. Mas a maioria é produzida com um ou mais da meia dúzia de adoçantes artificiais sem calorias existentes no mercado e visam manter o mesmo sabor do original.

Apesar de muitos nutricionistas defenderem os adoçantes artificiais como uma forma de reduzir calorias e açúcar, outros dizem que estes produtos não são a resposta para os problemas de peso e saúde dos americanos. Alguns críticos expressaram preocupação com o aumento do consumo do que são basicamente adoçantes químicos, especialmente entre as crianças. Novos produtos com baixo açúcar - como cereais matinais e sucos de fruta adoçados com Splenda e leite de baunilha com neotame, um novo substituto do açúcar altamente doce - estão sendo consumidos em peso pelas crianças.

A dra. Susan Schiffman, um especialista em adoçantes e professora de psicologia médica do Centro Médico da Universidade Duke, disse que ela tem preocupações de segurança com a sucralose, que é o substituto de açúcar que mais cresce no país, segundo o Freedonia Group, uma firma de pesquisa. Ela aponta que o relatório de 1998 da Food and Drug Administration (FDA), o órgão regulador de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos, que aprovou a sucralose, disse que o composto é "um mutagênico fraco no teste de mutação do linfoma do rato", o que significa que causou pequenos danos genéticos nas células dos ratos.

O relatório também disse que uma das substâncias produzidas quando a sucralose é decomposta no corpo é "um mutagênico fraco no teste Ames". O teste Ames é o método padrão utilizado para detectar possíveis carcinógenos.

"O pessoal da sucralose continua dizendo: 'É só um pouquinho mutagênico'", disse Schiffman. "Ora, eu não quero um pouquinho de mutagênico no meu alimento. Como você pode saber o que acontecerá em um tempo de vida longo, na próxima geração ou nos óvulos e esperma? Eu não sinto que tais questões foram respondidas."

A McNeil Nutritionals, uma divisão da Johnson & Johnson que vende Splenda, disse que a segurança da sucralose foi confirmada em mais de 100 estudos realizados ao longo dos últimos 20 anos, e que foi aprovada para uso por agências regulatórias de todo o mundo. Ao longo dos anos, adoçantes como a sacarina e o aspartame também provocaram várias preocupações de saúde.

Outros críticos dos adoçantes artificiais concentram suas preocupações em se estes alimentos e bebidas de fato ajudam as pessoas a perder peso ou a melhorar suas dietas. Segundo uma pesquisa de consumidor realizada no ano passado pelo Conselho de Controle de Calorias, um grupo setorial que representa a indústria de comidas e bebidas com baixa caloria e gordura reduzida, as pessoas usam produtos com menos açúcar principalmente para se "manterem com uma saúde melhor" e "reduzir calorias".

O dr. Stuart Fischer, que trabalhou por nove anos com o dr. Robert Atkins - especialista em dieta de baixo carboidrato - e que agora dirige seu próprio consultório de nutrição em Manhattan, argumenta que os adoçantes artificiais não ajudam em nada a "saúde geral" das pessoas, porque perpetuam o desejo por alimentos doces.

"Eles fazem as pessoas se lembrarem do sabor do fruto proibido", disse Fischer. "Os Alcoólicos Anônimos recomendam cerveja sem álcool? É claro que não." Fischer disse que aconselha os pacientes a cortarem todos os alimentos doces de sua dieta para eliminar o desejo por açúcar, que ele disse que pode estabelecer a base para a diabete tipo 2.

O dr. David Katz, um especialista em nutrição e professor de saúde pública da Escola de Medicina da Universidade de Yale, disse que em seus 15 anos de tratamento de pacientes ele observou que as pessoas que consomem muitos alimentos adoçados artificialmente também acabaram comendo um excesso de alimentos repletos de açúcar comum, compensando qualquer redução de calorias. "Se você está exposto a alimentos e bebidas doces com freqüência, o limiar para a satisfação aumenta", disse Katz.

Como em muitas áreas da ciência, as conclusões de pesquisa sobre a questão são ambíguas. Enquanto alguns estudos, como o feito no ano passado pela Universidade Purdue, apóiam as idéias de pessoas como Katz e Fischer, outras pesquisas de longo prazo mostraram que pessoas que consomem bebidas com adoçantes artificiais, sem calorias, perdem mais peso do que aqueles que bebem refrigerantes comuns, repletos de calorias.

Mas quase todos estes estudos investigaram bebidas dietéticas com zero caloria, não alimentos com baixo açúcar como os cookies Milano sem açúcar, e farinha de aveia Quaker com 50% menos açúcar, que ainda têm calorias.

Alguns destes produtos, na verdade, têm o mesmo número de calorias que o original, o que torna as coisas confusas para o consumidor. Segundo informação exibida nos rótulos e caixas, Frosted Flakes e Froot Loops com um terço a menos de açúcar, Cocoa Puffs e Trix com 75% menos açúcar, e o cereal Fruity Pebbles com 50% menos açúcar, não apresentam diminuição significativa de calorias em relação aos originais. O mesmo vale para o Milano sem açúcar ou o pão livre de açúcar Arnold Smart & Healthy.

Christine M. Homsey, uma cientista sênior de pesquisa de alimentos da Food Perspectives, uma firma de consultoria em Plymouth, Minnesota, explicou que como o açúcar fornece volume, os fabricantes colocam farinha adicional e outros grãos para compensar a perda, devolvendo as calorias.

Em março, uma mulher em San Diego, que disse que achava que os cereais com menos açúcar que comprava para seus filhos tinham menos calorias, processou a Kellogg, General Mills e Kraft Foods, dizendo que as empresas usaram marketing enganador para vender os produtos.

A confusão em torno da contagem de calorias e se alimentos sem açúcar realmente ajudam os indivíduos a perder peso não impediram os consumidores de comprar US$ 1 bilhão em produtos com baixo açúcar no ano passado. Segundo a ACNielsen LabelTrends, as vendas de cereais prontos para comer, sem açúcar, saltaram 63% nas últimas 52 semanas, e a receita do universo em expansão de todos os produtos com baixo açúcar subiu 133% em comparação a um ano atrás.

Ansiosas para atender esta demanda crescente, as empresas de alimentos estão trabalhando furiosamente para conceber formas ainda melhores para copiar o gosto e a função do açúcar nos alimentos. Todos os atuais substitutos de açúcar têm ressaibo e outras falhas que os distinguem do açúcar, disseram cientistas de alimentos. Muitos especialistas de alimento atribuem o sucesso do Splenda ao seu gosto parecido com o açúcar, mas eles também dizem que ele também fica aquém.

"Nós ainda não encontramos o Santo Graal", disse Kantha Shelke, uma cientista de alimentos que trabalha para fabricantes de alimentos como Pillsbury e Interstate Bakeries. "O adoçante perfeito seria algo que parece açúcar e age como açúcar em todos os sentidos, exceto quando você o metaboliza."

Apesar das preocupações de alguns médicos e cientistas sobre adoçantes artificiais, a tendência de alimentos e bebidas de baixo açúcar não mostra nenhum sinal de estar diminuindo. Apesar de lojas como a Whole Foods não estocarem produtos com adoçantes artificiais, a maioria dos consumidores aprova alimentos com estes aditivos em suas dietas.

Katherine Tallmadge, uma dieteta registrada em Washington, disse que não encoraja seus pacientes a usarem adoçantes artificiais, mas alguns o fazem assim mesmo. "As pessoas são ligadas em doces, e elas querem comer alimentos doces sem as calorias", disse Tallmadge. "É um caso clássico de querer o melhor dos dois mundos." George El Khouri Andolfato

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