UOL Notícias Internacional
 

17/05/2005

Chávez cria rede regional de TV com ajuda de governos de esquerda sul-americana

The New York Times
Juan Forero

Em Caracas
Os Estados Unidos têm a CNN e a Fox, enquanto que o mundo árabe pode assistir à Al-Jazira ou à Al-Iraqiya, financiada pelos norte-americanos, no Iraque.

Agora, uma iniciativa apoiada por Hugo Chávez, o presidente de esquerda da Venezuela, em breve dará à América Latina a Telesur, uma estação de televisão de âmbito regional que, segundo ele, tem como objetivo "contrabalançar a ditadura da mídia das grandes redes internacionais de notícias".

Um empreendimento que envolve Argentina, Cuba, Brasil e Uruguai, mas que é em grande parte financiado pela Venezuela, a Telesur terá certamente um sabor latino, garante o seu diretor, Aram Aharonian.

A estação, que deve dar início às suas transmissões em julho e que começará a testar o seu sinal no final deste mês, mostrará longos documentários sobre os camponeses sem terra no Brasil ou os movimentos indígenas nos Andes, oferecendo, ao mesmo tempo, reportagens detalhadas sobre política e esporte desde Tijuana (México) até a Terra do Fogo (Argentina).

A discussão para definir o que se constitui em notícia e a quem cabe veiculá-la, está em andamento em várias partes do mundo. Aqui, ela remete ao cerne de uma acalorada guerra de propaganda que o governo venezuelano pretende vencer, tanto na Venezuela como em toda a América Latina, onde Chávez e o seu arquiinimigo, os Estados Unidos, buscam obter apoio dos países vizinhos, enquanto procuram isolar um ao outro.

Os jornalistas da Telesur falam de uma "rede anti-hegemônica", em uma acusação não muito velada à mídia norte-americana. Dentre os âncoras da Telesur --título composto pela mistura dos vocábulos "televisão" e "sul", em espanhol-- estarão jornalistas como Ati Kiwa, uma índia colombiana que usa as túnicas tradicionais da sua tribo Arhuaco.

"Podermos ver a nossa própria realidade no ar não é apenas o meu sonho, mas o sonho de muitos jornalistas na América Latina", afirma Aharonian, 59, um jornalista uruguaio que mora em Caracas desde 1986. "Queremos nos ver pela televisão, revelando as nossas diversidade e riqueza".

Mas os críticos dizem que aqui, em uma parte do mundo que possui uma longa tradição de jornalismo independente, a intenção de Chávez é sufocar a voz da oposição, em vez de ampliar a cobertura jornalística, por meio de uma máquina propagandística financiada por um governo dotado de motivações ideológicas e financiado pelo dinheiro do petróleo.

"A Telesur é uma ordem presidencial. Chávez disse: 'Precisamos criar essa estação'", denuncia Alberto Federico Ravell, diretor de notícias da Globovision, uma estação privada que funciona 24 horas por dia e que se opõe a Chávez. "Ela será uma estação de um super-Estado".

Na Venezuela, com a popularidade de Chávez na casa dos 71% e os seus outrora poderosos opositores em grande parte vencidos, as estações privadas se constituem no único inimigo barulhento do governo que ainda está ativo.

Essas estações já difundiram horas de propaganda gratuita anti-Chávez, veicularam todas as denúncias planejadas pelos opositores do presidente, apoiaram um golpe que por um breve período o depôs e, mais tarde, aprovaram uma prejudicial greve dos petroleiros.

Chávez sobreviveu, e agora parece estar se desforrando.

Uma Lei de Responsabilidade Social da Rádio e da Televisão, assinada em dezembro passado, impõe restrições que, segundo os empresários do setor, têm por objetivo amordaçar os noticiários e impor restrições à programação. A lei estipula que os noticiários de rádio e TV não podem difundir reportagens que ameacem a segurança nacional ou incitem a quebra da ordem pública.

Emendas ao código penal venezuelano, que entraram em vigor em março último, fazem com que seja considerado crime insultar ou desrespeitar as autoridades governamentais.

As duas iniciativas já motivaram a autocensura, segundo disseram em entrevistas diretores de estações de rádio e televisão. Os noticiários adotaram um tom mais comedido. A outrora incendiária programação de rádio venezuelana foi significativamente reduzida, e vários programas cancelados.

"A estação de rádio decidiu que o meu programa não poderia ser transmitido por causa da lei", conta Ana Karina Villalba, cujo programa de rádio sobre política saiu recentemente do ar. "Eles alegaram que o meu programa era de opinião e muito político, já que eu recebia ligações dos ouvintes".

Na Venevision, que pertence ao homem mais rico do país, Gustavo Cisneros, e que antigamente se dedicava a criticar Chávez, a programação ficou nitidamente mais amena.

Napoleon Bravo, que fez uma campanha incessante contra Chávez e que saudou os golpistas no seu programa "24 Horas", quando Chávez foi deposto em 2002, foi demitido. A estação agora evita transmitir notícias de crimes de rua ou protestos, e chega a convidar membros do governo para participarem dos seus programas, dizem funcionários da Venevision.

"Temos que aplicar a lei a toda a nossa programação", explica Maria Ines Loscher, advogada da Venevision. "Todos os dias temos dúvidas".

Na Telesur, que não esconde a sua tendência esquerdista ou os seus vínculos com o governo, a diretoria diz que as restrições não representam problema algum. Em uma recente visita à sede da estação, em um grande prédio adjacente ao da televisão estatal da Venezuela, o coordenador de programação, Noel Cisneros, vestia uma camiseta de um grupo rebelde marxista colombiano enquanto avaliava se um documentário chileno sobre madeireiras atendia aos critérios da emissora. Um pôster e um calendário nas paredes traziam fotos de Chávez.

Jorge Enrique Botero, um colombiano que é o diretor de noticiário, disse que a Telesur surge em um momento perfeito, quando os governos latino-americanos se inclinam para a esquerda e os movimentos populares contra a globalização ganham força.

"Eles dizem que esse é o canal de Chávez e todas essas coisas, mas na minha opinião o projeto inclui; não é excludente", afirma. "Sei também que haverá algumas pressões".

A estação está começando com um investimento inicial de US$ 2,5 milhões, dos quais 70% são fornecidos pela Venezuela. Argentina e Uruguai fornecem o resto da verba, enquanto Brasil e Cuba entram com auxílio tecnológico. Os patrocinadores comerciais deverão fornecer mais US$ 10 milhões no primeiro ano de funcionamento da rede.

O investimento pode parecer pequeno, mas Aharonian diz que a tecnologia mais recente faz com que os escritórios da emissora, espalhados pela região e cada um deles administrado por um único funcionário, tenham um custo operacional reduzido.

Segundo ele, grande parte das imagens utilizadas pela rede consistirá de documentários e reportagens feitos pelas estações de tendência esquerdista de toda a América Latina que estão dispostas a compartilhar esse material.

"Vemos a relação entre a Telesur e nós como fraterna", afirma Eugênio Bucci, diretor da TV Brasil, uma emissora brasileira financiada pelo Estado. "Qualquer coisa que tenha como objetivo informar aos sul-americanos sobre a América do Sul é uma iniciativa irmã".

Porém, o que muita gente está perguntando é se a Telesur veiculará reportagens que façam críticas ao seu patrocinador. "Chávez estará na televisão quando ele for notícia", afirma Aharonian. "Este não será um canal onde ficaremos dizendo, 'Viva Chávez'". Telesur é vista como revanche contra impensa, que apoiou golpe Danilo Fonseca

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