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17/05/2005

CSN vive tensão com a cidade de Volta Redonda

The New York Times
Todd Benson

Em Volta Redonda, Brasil
Quando Washington Luiz de Lima era um menino nos anos 60, a Companhia Siderúrgica Nacional, a maior empresa nacional de aço do Brasil, era a principal provedora desta cidade operária, fornecendo de tudo, de habitação e atendimento de saúde até água e eletricidade para grande parte da população.

John Maier/The New York Times

A empresa e a cidade foram criadas em 1941 e iniciaram uma relação conflituosa a partir do final dos anos 80, com demissões generalizadas
Privatizada em 1993, a companhia, amplamente conhecida como CSN, é atualmente uma operação enxuta com um foco estreito: produzir aço e manter os custos baixos.

Apesar de a mudança ter tornado a CSN uma das produtoras de aço mais lucrativas do mundo e uma empresa favorita em Wall Street, ela estremeceu seriamente as relações com Lima e outros em Volta Redonda, uma cidade a 145 quilômetros ao noroeste da cidade do Rio de Janeiro, que a empresa ajudou a criar e que ainda é altamente dependente dela para sua sobrevivência.

"Todos costumavam pensar na CSN como a mãe da cidade", disse Lima, um ex-operário que disse ter se aposentado recentemente, por problemas nas costas, após 25 anos na empresa. Atualmente, ele disse, a empresa claramente deixou de ser maternal.

A tensão, que data do final dos anos 80, quando o governo demitiu milhares de trabalhadores aqui para preparar a empresa para o leilão de privatização, ressurgiu com força nos últimos meses, em uma acalorada disputa de terras.

A CSN tem discretamente buscado a reintegração de terras por toda cidade, que herdou do governo federal há mais de 50 anos. Isto não apenas irritou os moradores e as autoridades municipais, como também reacendeu um debate feroz sobre os termos da privatização da empresa e acentuou as preocupações sobre a capacidade da cidade de atrair novas indústrias.

O mais recente ocorreu em fevereiro, quando a CSN notificou cinco clubes atléticos, que foram construídos décadas atrás em terras da empresa, que estava considerando a retomada das áreas. Anteriormente ela cercou vários campos de futebol comunitários, fechou uma reserva ambiental e reintegrou áreas utilizadas por operários aposentados para plantação de verduras e legumes --terrenos incluídos como propriedade da empresa quando a CSN foi colocada à venda.

Marcos Barreto, um assistente sênior do executivo-chefe da CSN, Benjamin Steinbruch, disse que a CSN está simplesmente revendo suas propriedades para ver se os terrenos podem ser mais bem utilizados, e na maioria dos casos pretende eventualmente reabrir as áreas para o público.

Ele disse que a empresa não tem planos imediatos para despejar os clubes, apesar de querer negociar formas de assegurar que atenderão a um interesse público mais amplo. E em alguns casos, ele disse, ela poderá começar a cobrar aluguel ou pedir uma participação nas taxas de filiação dos clubes.

"A cidade ainda sofre desta estranha relação com a empresa, que é típica de cidades que giram em torno de uma empresa, onde há um senso de direitos e esta noção de que a empresa pode fazer tudo", disse Barreto. "Nós queremos mudar isto e estabelecer um relacionamento mais moderno com a cidade."

Mas é mais fácil dizer do que fazer.

Apesar de vários anos terem se passado desde que a maioria das estatais do Brasil foram privatizadas, o ressentimento ainda é grande e disseminado por todo o país, em ambos os lados do espectro político.

Isto é particularmente verdadeiro em Volta Redonda, onde um grupo de cidadãos e a Igreja Católica Romana começaram a circular uma petição pedindo à prefeitura para desapropriar os terrenos disputados para garantir seu uso público.

"Quando eles privatizaram a empresa, eles privatizaram a cidade", disse Waldyr Calheiros, o bispo emérito da Igreja Católica daqui e um antigo defensor do sindicato dos metalúrgicos local.

"Eles deixaram todas estas terras nas mãos da empresa, terras que têm sido usadas pela comunidade há anos. Mas em vez de deixar a comunidade a continuar usando, a empresa está sendo absolutamente insensível."

Reinventar o futuro

Como outras antigas cidades industriais por todo o planeta, Volta Redonda tem lutado para se reinventar.

"Algumas entraram em total decadência, mas outras, como Pittsburgh, conseguiram se redefinir com sucesso", disse Germano Mendes De Paula, um especialista em siderurgia da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais. "Volta Redonda ainda está buscando alternativas."

Volta Redonda surgiu como cidade em 1941, quando a CSN foi criada lá pelo presidente Getúlio Vargas para dar início à industrialização do Brasil. A empresa e a cidade passaram a ser praticamente a mesma coisa desde então.

Em seus primórdios, a empresa pavimentava ruas, construía sistemas de água e esgoto e até mesmo fornecia o policiamento local, enquanto empregava a maioria da população em suas fábricas e escritórios.

De 1973 a 1985, a ditadura militar do país designou Volta Redonda como área de segurança nacional, garantindo um fluxo constante de dinheiro federal para a empresa e, conseqüentemente, estabilidade de emprego para seus funcionários.

Mas no final dos anos 80, a CSN estava mergulhada em dívidas e à beira da falência. O governo, que sucedeu o regime militar, considerou o fechamento da empresa, mas acabou optando por vendê-la.

Demissões em massa se seguiram. Volta Redonda se tornou um campo de batalha nacional para o movimento trabalhista organizado, que culminou com a morte de três operários em 1988, em um confronto com o Exército.

A CSN finalmente foi vendida para um grupo de investidores brasileiros liderados por Steinbruch, um proeminente empreendedor que fez seu nome no setor têxtil.

Ao longo da década seguinte, os proprietários gastaram mais de US$ 4 bilhões para atualizar a empresa. Em 2004, eles tinham aumentado a produção em mais de 30%, para 5,5 milhões de toneladas por ano e a colocaram dentro do código ambiental.

Eles também mudaram a sede da empresa para São Paulo, apesar de Volta Redonda continuar sendo a base para as operações de aço, e começou a vender ações para o público.

A CSN é uma empresa de peso no setor global de aço, exportando para mais de 50 países. Ela é auto-suficiente em energia e minério de ferro e possui seu próprio porto e ferrovia. Como resultado, ela também possui um dos menores custos de produção do mundo, o que a ajudou a mais do que dobrar seu lucro no primeiro trimestre, para R$ 717 milhões.

"A CSN passou de empresa estatal clássica, que é mal administrada, para uma empresa de aço de nível internacional", disse Luiz Caetano, um analista de aço do Banco Brascan, em São Paulo. "É uma história de sucesso."

Mas tal sucesso tem sido uma bênção ambígua para os 260 mil habitantes de Volta Redonda. Apesar de a CSN ainda ser a principal empregadora da cidade e contribuir com grande parte da receita de impostos local, ela tem apenas 8 mil funcionários aqui, em comparação a 15 mil quando foi privatizada e 23 mil antes das demissões em massa do final dos anos 80.

Ela também é proprietária de 20% das terras disponíveis em Volta Redonda, o que dificulta para a cidade atrair novas indústrias.

"Ninguém está pedindo para que a empresa seja reestatizada", disse o prefeito Gothardo Lopes Netto. "Mas atualmente a CSN é proprietária de praticamente todos os pontos estratégicos da cidade que poderiam ser usados para atrair novas empresas. Isto é algo que precisa ser negociado."

Barreto, o executivo da CSN. disse que a empresa planeja fazer isto assim que os vereadores da cidade elaborarem as novas leis de zoneamento neste ano.

"As terras são nossas", disse ele, "mas estamos dispostos a negociar". Privatização mudou relacionamento entre a empresa e a população George El Khouri Andolfato

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