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17/05/2005

Dieta de baixa gordura reduz reincidência de câncer de mama, aponta pesquisa

The New York Times
Gina Kolata e Lawrence K. Altman

Em Nova York
Pacientes de câncer de mama que seguem dietas de baixa gordura podem reduzir a chance de volta de seus tumores, informaram cientistas nesta segunda-feira (16/05).

Foi a primeira vez, disseram os pesquisadores, que um estudo grande e rigoroso mostrou que uma dieta pode ter um impacto em um câncer.

As mulheres no estudo que foram instruídas a seguirem uma dieta de baixa gordura apresentaram uma redução de mais de 20% na taxa de recorrência ao longo de cinco anos, os pesquisadores encontraram. Das 975 mulheres que se submeteram a uma dieta de baixa gordura, 96, ou 9,8%, apresentaram recorrência. Mas 181 das 1.462 mulheres, ou 12,4%, que mantiveram suas dietas normais apresentaram retorno de seu câncer.

O principal investigador do estudo, o dr. Rowan T. Chlebowski, do Instituto Los Angeles de Pesquisa Biomédica, em Torrance, Califórnia, descreveu os dados na segunda-feira, em um encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, em Orlando.

Em uma entrevista por telefone, Chlebowski explicou que as mulheres já contavam com o tratamento médico padrão --tumorectomia ou mastectomia, seguida por radiação e então terapia hormonal ou quimioterapia quando apropriado.

Apesar de os tratamentos variarem, os dois grupos eram equivalentes porque as mulheres foram distribuídas aleatoriamente para seguir a dieta de baixa gordura. O benefício adicional da dieta, disse Chlebowski, foi equivalente a acrescentar um novo medicamento ao regime.

"Este é o primeiro teste clínico aleatório a mostrar que uma dieta pode ter um impacto sobre o resultado de um câncer de mama, ou qualquer resultado de câncer", disse Chlebowski.

Mas ele e especialistas independentes no encontro e de outros lugares disseram que as conclusões do estudo, que são apenas marginalmente significativas estatisticamente, devem ser confirmadas antes que se possa recomendar às mulheres com câncer de mama que sigam tal dieta.

"Esta é uma notícia potencialmente muito boa", disse o dr. David Hunter, um professor de prevenção de câncer da Escola de Saúde Pública de Harvard. "Qualquer coisa que possa ser feita para reduzir a recorrência de câncer de mama será enormemente valiosa."

O dr. Larry Norton, um especialista em câncer de mama do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, um dos centros que participaram do estudo, disse que os resultados o fizeram mudar suas orientações para as mulheres.

"Antes eu dizia que não havia motivo para não fazer uma dieta de baixa gordura", ele disse. Ele substituiu a declaração por uma mais afirmativa. "Agora estou dizendo que há um motivo para se fazer uma dieta de baixa gordura."

Norton disse que como sabe que não há revés em uma dieta de baixa gordura, "eu não vejo motivo para que se faça um estudo para confirmação".

As conclusões surgem após um estudo divulgado na semana passada, que apontou que mulheres de meia-idade, com um estágio inicial de câncer de mama e que se submeteram a quimioterapia ou tratamento hormonal, podem reduzir pela metade seu risco de morte por câncer de mama por pelo menos 15 anos.

A dieta de baixa gordura no mais recente estudo não é fácil, disse uma das participantes, Mary Ann Napier de Rancho Palos Verdes, Califórnia. Napier, 57 anos, foi diagnosticada com câncer de mama há cinco anos e meio e se juntou ao estudo há cerca de um ano, quando lhe foi designada uma dieta de baixa gordura.

Ela sempre adorou bacon, disse Napier, "e enchia meus sanduíches com maionese". Não mais.

Ela também parou de comer o pão de avelã que é o favorito de seu marido e agora come apenas baguetes, que são livres de gordura. Ela também prepara seu próprio tempero de salada --uma colher de chá de azeite em uma galheta-- e o leva junto sempre que sai para comer fora. Ela adora queijo, mas agora apenas corta umas pequenas tiras para dar sabor ao sanduíche.

"No início, às vezes eu me sentia um pouco ressentida", disse Napier. "Mas eu superei." E, ela acrescentou, ela perdeu 5 quilos e seu câncer não voltou.

"Eu ainda estou de dieta", disse ela.

Mas Hunter e outros cientistas mesclaram seu entusiasmo com o resultado do estudo com dúvidas sobre os resultados e o que significam.

Não está claro, ele disse, o que fez a diferença. Pode ser a pequena quantidade de gordura ingerida pelas mulheres ou pode ser a perda de peso. Outros estudos revelaram que o câncer de mama tem menos probabilidade de recorrer em mulheres que perderam peso após o tratamento inicial. Ou o efeito pode ser devido a outra mudança na dieta que ocorreu quando as mulheres procuraram alimentos para substituir a gordura.

"Este é o problema com estudos de dietas em geral", disse o dr. Barnett Kramer, diretor associado do escritório para prevenção de doenças dos Institutos Nacionais de Saúde. "Independente do quem você acha que é o culpado na dieta, mudança de dieta pode ser muito complexa."

Os pesquisadores também perguntaram se os efeitos eram válidos.

O problema, disse Hunter a estatísticos que também não estiveram envolvidos com o estudo, foi que a redução de risco, apesar de estatisticamente significativa, foi apenas marginal.

"É sugestiva mas definitivamente não dramática em termos de certeza estatística", disse o dr. Steven Goodman, um professor de oncologia e bioestatística da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

O dr. Donald Berry, presidente do departamento de bioestatística do M.D. Anderson Cancer Center, em Houston, disse que caso o estudo envolvesse um medicamento, ele questionaria se a evidência era forte o suficiente para adotá-lo.

Mas uma dieta, ele disse, é diferente; os pacientes têm pouco a perder com dietas de baixa gordura. "Se eu fosse um paciente de câncer, eu certamente levaria isto a sério", disse Berry.

E Hunter alertou que mesmo se uma dieta puder reduzir o risco de retorno do câncer, o estudo não significa que uma dieta de baixa gordura previne o câncer de mama.

"Os fatores que causam a recorrência e morte muito freqüentemente são muito diferentes dos fatores que causam a doença", disse ele. Por exemplo, com o câncer de mama, a idade da primeira menstruação, a idade do nascimento do primeiro filho e o número de filhos que uma mulher teve afetam o risco de desenvolvimento de câncer de mama, mas não sua chance de sobreviver a ele.

O estudo nacional enfrentou um caminho longo e espinhoso. Havia indícios de que as mulheres com dietas de baixa gordura apresentavam melhor índice de sobrevivência.

As mulheres japonesas, por exemplo, não apenas apresentam menor risco de desenvolvimento de câncer de mama, mas também apresentam melhores taxas de sobrevivência do que as americanas. Mas outros estudos que acompanharam as mulheres após seus diagnósticos não encontraram nenhum efeito da dieta sobre a recorrência do câncer.

E não ficou claro qual é a influência da gordura na dieta, disse Chlebowski, acrescentando que não há nenhuma teoria que explique por que a gordura que a mulher ingere leva a uma recorrência do câncer na mama.

A melhor forma de descobrir se a gordura faz diferença na dieta seria designar aleatoriamente milhares de pacientes de câncer a seguirem, ou não, uma dieta de baixa gordura.

Mas muitos pesquisadores questionaram se seria possível fazer tal estudo. Será que as mulheres realmente seguiriam a dieta designada por muitos anos e, em particular, manteriam uma dieta com tão pouca gordura?

Começando em 1983, o instituto do câncer iniciou estudos piloto que perguntavam se um estudo de dieta era viável. Eles descobriram que as mulheres seguiriam a dieta de baixa gordura e o estudo formal aleatório teve início em 1994.

Ele inscreveu 2.437 mulheres no pós-menopausa com estágio inicial de câncer de mama. Delas, 975 foram orientadas a seguirem uma dieta de baixa gordura que, disse Chlebowski, era a mais baixa possível sem que se tornasse vegetariana.

Elas consumiam em média 33,3 gramas de gordura por dia. As 1.462 mulheres do grupo de controle, que foram instruídas a seguir suas dietas habituais, consumiam 51,3 gramas de gordura por dia.

Não apenas ocorreu uma redução das taxas de recorrência com a dieta de baixa gordura como também, para surpresa deles, os pesquisadores notaram que as mulheres cujos tumores não eram alimentados pelo estrogênio pareciam apresentar melhor resposta à dieta do que aquelas cujos tumores eram alimentados pelo estrogênio. Mas os estatísticos questionaram se a diferença entre os dois grupos era significativa.

Todavia, disse Kramer, o resultado foi "biologicamente importante", porque indicou que a dieta pode fazer diferença na recorrência de câncer e que se fizer, ela afeta ambos os grupos de mulheres da mesma forma. Isto significa que seu efeito, se real, não tinha nada a ver com o estrogênio, levantando a questão do por que ocorreu. Pela primeira vez, um estudo amplo relaciona um regime a tumores George El Khouri Andolfato

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