UOL Notícias Internacional
 

17/05/2005

Futebol expõe diferença econômica entre Leste e Oeste na Alemanha

The New York Times
Richard Bernstein

Em Rostock, Alemanha
Eles vieram envoltos em faixas que diziam "Para Sempre Hansa" (à venda no "Fankatalog" por 13 euros) e assim que o jogo começou, o público de 21 mil pessoas cantou apaixonadamente o hino do time, aparentemente se prolongando na linha: "É aqui onde a união conta".

Victor Homola/The New York Times

Torcida do Hansa promete que vai permanecer junto com time, mesmo rebaixado na 2ª divisão
Mas uma espécie de nuvem pairava sobre o estádio de futebol no sábado (14/05), nesta cidade desgastada do norte, o principal porto comercial da antiga República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental.

Todos aqui sabiam que a menos que o time local e intensamente amado, o Hansa Rostock, vencesse o Arminia Bielefeld por uma grande margem, ele seria rebaixado da primeira divisão do campeonato nacional.

Sua queda para a segunda divisão no esporte nacional da Alemanha significaria que pela primeira vez desde a reunificação, há 15 anos, nenhum time da antiga Alemanha Oriental estaria na primeira divisão alemã.

Para as pessoas do Leste, não poderia haver exemplo mais comovente de como a desigualdade com a região ocidental do país continua crescendo.

Bem, não ocorreu nenhum milagre, apesar de o Hansa Rostock ter lutado bravamente no primeiro tempo, jogando no ataque e empolgando os torcedores com várias oportunidades.

Ainda assim, parecia um sinal dos tempos o fato de que em uma das poucas vezes em que o Bielefeld esteve no ataque, ele tenha marcado o primeiro gol do jogo. O Rostock empatou pouco depois em uma cobrança de pênalti, e o estádio, que parecia dois terços ocupado, explodiu em alegria.

Mas o segundo tempo deixou a desejar. O Bielefeld, um time alemão ocidental intermediário da primeira divisão, não tinha nada a provar, e o destino do Rostock já estava praticamente selado após uma derrota na semana anterior, que deixou os torcedores mais fanáticos do clube chorando nas arquibancadas. O jogo de sábado acabou em um empate de 1 a 1, e novamente os torcedores cantaram o hino do clube, que se ergueu no ventoso céu azul como uma despedida.

"É muito triste o fato de que nenhum time alemão-oriental estará na primeira divisão no próximo ano", disse Heiko Schliemann, um pescador comercial de 42 anos, que veio de Waren-Mueritz, a cerca de 96 quilômetros de distância, para assistir o jogo.

"O dinheiro manda no mundo", disse ele, soando como um torcedor de beisebol de Kansas City, Oakland ou qualquer cidade menor dos Estados Unidos que já viu seus melhores jogadores partirem para contratos mais ricos em outros lugares.

Para o Rostock, isto significou a saída no ano passado de vários de seus melhores jogadores, como por exemplo Oliver Neuville, que ganhou projeção nacional no início de sua carreira no Rostock, mas que poucos anos atrás se mudou para Moenchengladbach, na área densamente povoada perto da fronteira da Alemanha com a Holanda.

Para as pessoas na metade oriental do país, a ausência de até mesmo uma equipe na primeira divisão ajuda a confirmar a conclusão do amplamente divulgado relatório de uma comissão especial, no ano passado, de que a reunificação tem sido um fracasso econômico, apesar dos US$ 110 bilhões por ano que a Alemanha investe no seu lado oriental.

Uma comparação entre Rostock e Dortmund, uma cidade ocidental na região do Ruhr e lar de um time da primeira divisão, conta a história. Há 460 mil habitantes e muito poucas grandes corporações em Rostock e arredores, em comparação aos 9 milhões de habitantes e numerosas sedes de grandes empresas em Dortmund.

A população nos ex-Estados orientais está diminuindo à medida que a população, especialmente os jovens, partem em busca de melhores perspectivas em outros lugares. As escolas estão fechando por falta de alunos; poucos negócios estão sendo abertos e, em algumas áreas, o desemprego já passa de 25%.

Alguns dos patrocinadores do Hansa Rostock foram deixando o time à medida que se tornava mais provável que cairia para a segunda divisão. Schliemann notou que cada vez menos torcedores têm dinheiro para comprar carnês de ingressos para toda a temporada.

"Estamos felizes por ainda termos dinheiro para comprar os ingressos do jogo", ele disse.

A perspectiva de eliminação da primeira divisão contribui para um ciclo vicioso: o orçamento do clube de 25 milhões de euros por ano será reduzido em 50%, em grande parte porque os times da segunda divisão não recebem dinheiro da televisão. Dezessete pessoas perderão emprego entre os 60 membros da equipe de apoio do time.

"Isto foi um acidente, não a ruína", argumentou Manfred Wimmer, o presidente do Hansa Rostock, colocando o declínio da equipe sob a melhor luz possível. O Rostock poderá voltar à primeira divisão; todo ano as melhores equipes da segunda divisão sobem para a primeira, enquanto as últimas três da primeira caem para a segunda.

Mas o ciclo vicioso financeiro, com os principais jogadores ganhando mais dinheiro do que antes, parece pior do que quando a desigualdade Leste-Oeste não parecia tão grande e impermeável às soluções tentadas como agora.

De fato, tendo isto em mente, Schliemann foi indagado se achava que as condições no Leste eram melhores sob o comunismo, pelo menos no futebol.

"Não", ele disse. "Na época tínhamos problemas diferentes, porque na época o BFC tinha os melhores jogadores." Ele se referia ao Berlin Football Club, cuja equipe, o Dynamo, era controlado pelo todo poderoso e amplamente odiado Estado de Segurança do Estado Alemão, a Stasi.

"Assim, não é realmente diferente agora", disse Schliemann. "Na época os melhores jogadores eram transferidos por motivos políticos, e agora eles são transferidos por motivos econômicos."

Sua esposa, Annette, que é dona de uma mercearia em Waren-Mueritz, transformou a situação em uma declaração de moda. Ela vestia uma camiseta toda preta, que dizia "Para Sempre Hansa".

"Mas amanhã vou vestir esta", disse ela, tirando uma camiseta azul de sua bolsa. De um lado ela diz, "Nós voltaremos para a primeira divisão", e do outro, "Meu coração bate pelo Hansa". Nenhum time da ex-Alemanha Oriental estará na primeira divisão George El Khouri Andolfato

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