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17/05/2005

Líder mais importante do mundo decepciona

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Em Pequim
NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
A pessoa mais importante no mundo atualmente pode ser Hu Jintao, o presidente chinês. E começamos a ter uma idéia melhor do tipo de líder que ele é --uma decepção.

Mais que qualquer outra pessoa, Hu irá determinar se a China poderá continuar a emergir, e se seu crescimento será estável e pacífico. Desde que ele galgou posições até chegar aos píncaros do Partido Comunista em 1992, acontecem debates vigorosos, com polêmicas sobre se ele é um reformista enrustido ou um linha-dura enrustido.

Mas agora que ele já vem sendo o líder comunista por dois anos e meio, podemos chegar a uma conclusão incerta: a segunda opção parece ser a mais correta.

Hu parece ser um autoritário intuitivo, que acredita no incremento do aparato da repressão, e não na distensão. O que é mais perturbador é que Hu fez a China retroceder em termos políticos. Ele é o responsável por uma tomada de posição dura em relação aos dissidentes, à mídia de informação, à religião, à circulação de idéias pela Internet e em relação aos nichos do livre-pensar.

A China atualmente mantém encarcerados muito mais jornalistas do que qualquer outro país.

No The New York Times, pudemos observar esse retrocesso em primeira mão. Zhao Yan, um colega que trabalha para a sucursal do jornal em Pequim, foi detido em setembro do ano passado e lançado na prisão.

Por quê? Não sabemos ao certo, porque Zhao nunca foi julgado, e nem seu advogado nem seus familiares tiveram o direito de vê-lo.

Da mesma forma, o mais corajoso e audacioso jornal chinês era o Nanfang Dushi Bao. Até este jornal noticiar que a polícia havia espancado um estudante universitário até a morte, só porque ele não portava seu documento de identidade.

Duas pessoas da equipe do jornal foram enviadas para cumprir longas penas na prisão no ano passado, e o resultado é que os jornais da China agora estão mais dóceis.

Hu também tem uma habilidade especial para reciclar frases de propaganda no velho estilo, que o fazem parecer saído de uma cápsula do tempo, que veio lá do passado mais comunista.

Mas os intelectuais chineses ficaram horrorizados quando Hu emitiu um comunicado interno dizendo que a Coréia do Norte cometeu erros econômicos, mas que tinha as idéias corretas em termos políticos.

Mesmo assim, esse radicalismo de Hu teve apenas um efeito limitado, porque agora a China está porosa demais e complexa demais para qualquer um exercer o controle com sucesso absoluto. Cidadãos comuns estão contratando advogados para fazer valer os seus direitos, e a letra da lei está efetivamente encurralando os líderes do partido.

"Eles não conseguem mais controlar tudo", diz um chinês que tem amplas conexões com os líderes do país. "Eles são como uma brigada de incêndio, correndo para enfrentar os incêndios mais graves, e deixando as fogueiras para lá."

Seja qual for o caso, enquanto Hu é uma grande decepção por sua visão política, ele está se revelando mais sólido em outras áreas, como a política externa. Hu se saiu bem gerenciando as relações externas com outros países, com exceção do que houve com o Japão e o Sudão, e já envolveu a Coréia do Norte de maneira mais significativa na questão nuclear do que seus antecessores.

Hu pelo menos conseguiu empreender uma política coerente em relação à Coréia do Norte, o que o governo Bush ainda não conseguiu.

Os instintos econômicos de Hu vão para o lado do planejamento centralizado comunista, mas ele também é pragmático. E em termos pessoais ele tem uma aposta no futuro capitalista --a única filha dele, Hu Haiqing, tem experiência no mundo dos negócios high-tech e é casada com um magnata da Internet educado em Stanford, Daniel Mao.

Talvez o passo mais importante tomado por Hu tenha sido enfrentar a pobreza rural e os problemas ambientais, em vez de focar apenas no crescimento econômico e em novas reformas do mercado para atingir esses objetivos. Essa mudança no sentido de um crescimento mais equilibrado é sábia, e já tem sido adiada há algum tempo.

Ao mesmo tempo, o ritmo das reformas econômicas também chegou a um impasse, e sente-se que já passou aquela leve sensação de que grandes e novas reformas estariam a caminho.

Se essa pausa fosse uma oportunidade para a China tomar fôlego, estaria tudo bem --mas parece que é mais do que isso.

O problema básico de Hu é que ele tenta alcançar a estabilidade mantendo as tampas bem fechadas sobre as panelas de pressão. Mas a lição de Taiwan e da Coréia do Sul indicam que é preciso expandir liberdades para dar vazão a essas pressões. Se não for assim, como mostraram a Ucrânia e a Indonésia, as panelas de pressão podem explodir.

Sendo assim, a ênfase de Hu na estabilidade a curto prazo no final das contas pode estar criando grande instabilidade para a China, num ponto mais adiante de sua trajetória. E nesse sentido, as vítimas da linha-dura de Hu não são apenas os indivíduos que estão agora na prisão, mas também todo o povo chinês. Presidente chinês, Hu Jintao, mostra ser um linha-dura enrustido Marcelo Godoy

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