UOL Notícias Internacional
 

17/05/2005

Política divide igreja batista nos Estados Unidos

The New York Times
Shaila Dewan

Em Waynesville, Carolina do Norte
Do púlpito da Igreja Batista East Waynesville, o pastor temporário ofereceu uma mensagem incomum ao seu rebanho adotado no último domingo (15/05): "Não me importo de lhes dizer antes de começar nesta manhã que não é aqui que eu gostaria de estar".

No decorrer das duas últimas semanas, a modesta igreja de tijolos com cestos de lírios artificiais nas portas viu-se mergulhada na polêmica nacional a respeito da mistura de política e religião.

O reverendo Chan Chandler, o jovem pastor que liderou a congregação de cerca de 100 pessoas nos últimos três anos, foi embora, tendo renunciado ao cargo sob fortes críticas na semana passada. Nove freqüentadores antigos da igreja disseram que o expulsaram porque não concordavam com os seus sermões de cunho cada vez mais político.

Quando Chandler, 33, renunciou em 10 de maio, alguns disseram que a batalha foi vencida. Mas a congregação que se reagrupou no domingo, após um êxodo dos membros mais jovens e conservadores, era menor e mais grisalha, com os olhos lacrimejantes e sem liderança.

"Todos os indivíduos e casais jovens partiram", disse no domingo Ernestine Parton, uma mulher de cabelos brancos tingidos com cores que combinavam com as janelas da igreja, durante a primeira reunião que não conta com Chandler como chefe da congregação. "É isso o que realmente dói".

A balbúrdia aqui começou em outubro passado --quando se aproximava o fim de uma disputada corrida presidencial que dividiu a nação, as famílias, os amigos, e até mesmo a Igreja Batista East Waynesville-- quando Chandler disse aos membros:

"A questão se apresenta à Igreja Batista: Como vou votar? Deixem-me dizer isto neste momento. Se vocês votarem em John Kerry neste ano terão que manifestar arrependimento em público ou deixar a igreja. Vocês têm contido por tempo demasiado a igreja de Deus".

Segundo uma gravação do seu sermão, Chandler acrescentou: "E eu sei que posso me encrencar por dizer tal coisa, mas que assim seja".

A divisão causada pelos seus comentários foi mais do que as divergências congregacionais comuns. Ela envolveu rachaduras críticas que jogou os conservadores, e geralmente mais velhos, democratas do Velho Sul, contra os mais novos republicanos, que pareciam olhar para o púlpito em busca de orientação tanto espiritual quanto política.

Até mesmo os oponentes de Chandler admitem que ele trouxe vida nova e atraiu novos membros para a igreja de 52 anos. "Ele os estava energizando", afirmou David Wijewickrama, advogado dos membros expulsos. "Mas ele não os energizava com religião, e sim com ódio".

Os membros expulsos pensaram em processar a igreja, mas acabaram decidindo não fazê-lo. Dois membros da congregação dizem que algumas pessoas que deixaram a igreja devido aos sermões de Chandler retornaram no domingo.

Um dos membros expulsos, que já foi diácono, Lewis Inman, saudou os 50 fiéis e disse que gostaria de homenagear a mãe mais velha e a mais nova presentes na igreja, uma tradição anual do Dia das Mães que tinha sido esquecida em meio a toda a confusão.

A mais velha tinha 81 anos. E a mais nova --ela apareceu após um episódio parecido com um leilão, do tipo, "Começarei com 25, temos uma mãe com 25 anos ou menos?"-- tinha 42.

O pastor convidado, Jack Sammons, chefe da Associação Batista de Waynesville, falou bastante sobre o conflito, dizendo: "Satã atacou a igreja".

"É hora de tomar partidos", disse Sammons. "E o único partido que vale a pena tomar aqui é o de Jesus".

Ele pediu aos presentes que telefonassem aos que deixaram a igreja e os convidassem a retornar.

Apesar dos seus apelos, algum rancor ainda era evidente. Um fiel se referiu a um membro que não retornou como "confuso" e disse que cedo ou tarde as pessoas que deixaram a igreja "acordarão".

Mas muitos se recusaram a falar sobre o problema.

"Acabou, conseguimos a nossa igreja de volta, e ele foi embora", disse Edith Nichols, filiada ao Partido Republicano. "Isso é tudo o que considero apropriado falar".

Vários daqueles que partiram eram democratas, mas o conflito não pode ser reduzido a linhas partidárias. O condado de Haywood, assim como várias localidades do sul dos Estados Unidos, possui mais democratas do que republicanos registrados, que, entretanto, votaram no presidente Bush por uma margem significativa.

"Os democratas daqui são democratas porque são a favor dos trabalhadores, e não porque defendem o aborto", frisou Wijewickrama. Mas, assim como em grande parte do sul, as gerações mais jovens daqui se inclinam para o Partido Republicano.

Chandler, que cresceu na área, se tornou pastor de East Waynesville há três anos. Os membros da igreja dizem que ele é um pregador dinâmico, mas que os seus sermões contra o aborto e aquilo que o seu advogado chama de "a agenda gay" pareciam, para alguns, terem cruzado uma linha invisível entre moralidade e política.

John J. Pavey Jr., advogado de Chandler, disse que o seu cliente estava falando segundo um ponto de vista cristão e apartidário, e que ele também condenava a postura de dois republicanos favoráveis ao direito ao aborto --o senador John McCain, do Arizona, e o governador Arnold Schwarzenegger, da Califórnia.

Chandler se recusou a ser entrevistado, e os telefonemas dirigidos a vários dos seus aliados não tiveram resposta. "A sua posição é que as questões da igreja devem ficar dentro da igreja", disse Pavey.

O conflito se desenrolou até 2 de maio, quando Chandler convocou uma reunião e, segundo os seus oponentes, declarou que a igreja seria política e que quem não gostasse disso poderia partir.

"Ele simplesmente se levantou e nos disse que se conteve pelo período que desejou, que nos colocaria na linha, e que haveria uma limpeza na igreja", disse Nichols em uma entrevista na semana passada.

Nove membros da igreja abandonaram a reunião. Eles disseram que após terem agido dessa maneira, houve uma votação no sentido de expulsá-los da igreja. Pavey disse na semana passada que essas pessoas não foram expulsas.

Mas na sexta-feira, ele apresentou uma versão um pouco diferente dos acontecimentos. Segundo ele, as nove pessoas desejavam que Chandler saísse, mas quando não obtiveram um número suficiente de votos para isso, ficaram furiosas e saíram xingando. "Quando essas pessoas saíram praguejando, houve uma decisão unânime em expulsá-las da igreja", contou ele.

No domingo seguinte, a história ganhou as manchetes nacionais. Após o culto daquele dia, Chandler divulgou um comunicado dizendo: "Ninguém nunca foi expulso desta igreja devido ao fato de apoiar ou não um partido político ou um candidato".

No entanto, alguns líderes religiosos questionaram a expulsão dos nove membros. Um funcionário da Convenção Estadual Batista da Carolina do Norte, a qual a East Waynesville é filiada, chamou a ação de "altamente irregular" em uma declaração publicada no site da organização. E um grupo nacional que defende a separação entre igreja e Estado pediu à receita federal norte-americana que investigasse o status fiscal da East Waynesville, que está isenta do pagamento de impostos.

Na terça-feira, Chandler convocou outra reunião e pediu a um pastor aposentado que liderasse o encontro nas orações. Pavey disse que durante essas orações Chandler saiu, acompanhado por 30 seguidores. Um deles, Misty Turner, disse: "Não vou servir onde há tanta gente desvinculada de Deus".

Um ex-membro da igreja East Waynesville que retornou para o culto do domingo foi Harry Buchanan, 67, que veio acompanhado da mulher, Lolita, 47. Ambos disseram ser cristãos renovados e que se opõem ao aborto. Mas, eles acrescentaram que é errado se concentrar na malignidade do aborto e deixar de condenar a guerra e a pena de morte.

Lolita Buchanan disse que votou contra Bush porque o seu filho acabara de ingressar no Corpo de Fuzileiros Navais, e que quando disse isso aos seus colegas no trabalho estes lhe disseram que ela devia manifestar arrependimento público.

Para Harry Buchanan, tudo se reduz àquilo que segundo ele é o princípio cristão de acordo com o qual uma pessoa não pode julgar outra. "As pessoas tentam separar os pecados, mas não se pode separar os pecados. Eles são os mesmos, seja o aborto ou tratar o seu vizinho como lixo. Tudo o que nos separa de Deus é pecado", afirmou. "Não posso dizer quem é e quem não é servo de Deus". Reverendo que condenou voto em John Kerry renuncia ao cargo Danilo Fonseca

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