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18/05/2005

Salvando o submarino San Francisco, a 150 metros de profundidade

The New York Times
Christopher Drew

Em Apra Harbor, Guam
Havia sangue em toda parte. Os marinheiros estavam jogados pelo barco, muitos inconscientes, outros simplesmente confusos. Até mesmo o capitão estava se perguntando: "O que acabou de acontecer?"

U.S. Navy, Mark Allen Leonesio via NYT

Imagem da marinha mostra extensão dos danos na proa do submarino San Francisco após colisão
Todos sabiam com certeza que o submarino nuclear de ataque tinha se chocado contra algo sólido e grande, e que tinha que voltar à superfície, e rápido.

Na sala de controle, um oficial ligava os interruptores, jogando ar de alta pressão para os tanques de lastro para forçar a embarcação para cima.

Normalmente, o submarino responderia na mesma hora. Mas enquanto o comandante Kevin G. Mooney e altos oficiais vigiavam o visor de profundidade, a agulha se recusava a se mexer.

Momentos antes, estavam navegando silenciosa e rapidamente pelo Pacífico. Agora, estavam empacados, a mais de 150 metros de profundidade.

Dez segundos se passaram, depois 20, 30.

"Pensei que ia morrer", lembra-se Mooney.

Um minuto se passou com torturante lentidão antes da proa deformada do submarino começar a subir, antes de toda sala de comando suspirar aliviada, antes do oficial Danny R. Hager começar a ler uma sucessão de números indicando cada vez menos profundidade.

"Não sei quanto tempo demorou", disse Hager, "mas pareceu uma eternidade".

Na semana passada, investigadores da Marinha informaram que uma série de erros no mar e em terra levou o submarino de 7.000 toneladas, o San Francisco, a colidir com um morro no fundo do mar, que não constava de seus mapas de navegação.

Um membro da tripulação morreu, 98 ficaram feridos e o capitão e três outros oficiais foram demitidos como resultado do acidente de 8 de janeiro, um dos piores envolvendo um submarino americano.

Mas o que está ficando claro agora, depois das primeiras entrevistas com Mooney e 15 outros oficiais e marinheiros, assim como uma análise dos relatórios da Marinha, é como poderia ter sido muito pior, como por pouco não se perdeu o San Francisco.

O submarino colidiu com o morro em alta velocidade, 33 nós, ou quase 60 km/h, a cerca de 580 km de Guam. O impacto criou buracos enormes nos tanques de lastro anteriores. Assim, o ar jogado dentro deles não se equiparava à força da água do oceano entrando. As válvulas se fecharam, e o submarino perdeu propulsão. Ele estava caindo, com a proa para baixo.

Por sorte, o grosso casco interno que protege o reator nuclear e as salas da tripulação não foi rompido. Havia dentro dele, porém, um pandemônio --as pessoas foram jogadas, cabeças bateram contra superfícies letalmente afiadas em espaços altamente apertados. Havia tanto sangue nos instrumentos e no chão da sala de controle que o lugar "parecia um matadouro", disse Hager.

Então o caos deu lugar a um heroísmo improvisado e um esforço perigoso --e fútil-- de salvar o marinheiro mais ferido.

Os meramente machucados cuidaram dos profundamente feridos. As salas de missa e de oficiais instantaneamente viraram clínicas, os marinheiros rasgaram suas camisas para usar como torniquetes e criaram tipóias com vassouras.

Quando entenderam que a única esperança para o rapaz moribundo, um jovem maquinista chamado Joseph A. Ashley, era levá-lo a um hospital, eles cortaram corrimões e outros obstáculos para passar sua maca por áreas estreitas. Depois, tentaram elevá-lo do alto do submarino para um helicóptero.

Para evitar sua detecção, os submarinos viajam em silêncio e em grande parte no escuro, baseando-se em mapas do território submarino. O encontro do San Francisco com o morro no fundo do Pacífico foi, de muitas formas, um golpe de má sorte espantosamente raro: apesar de terem vários mapas, todos usaram um único, que não incluía nem sombra do perigo. No entanto, o destino do submarino também foi resultado de uma confluência de simples erros de navegação.

A Marinha culpou o capitão e a tripulação. Mooney diz: "Aceito inteira responsabilidade." Ele admitiu vários erros críticos, inclusive excesso de velocidade, testes de profundidade insuficientes e falta de cruzamento de informações com outros mapas.

Mesmo assim, o fato desses erros terem acontecido em um barco com um comandante respeitado gerou questões sobre o estado relativamente primitivo dos mapas dos leitos marinhos e o treinamento e apoio dos submarinos.

O pai de Ashley, Daniel L. Ashley, veterano da Marinha, recusa-se a desculpar a Marinha. Sentado em sua casa na periferia de Akron, Ohio, em manhã recente, com fotografias de seu filho e uma bandeira da marinha no órgão da família, Ashley disse que tinha desculpado Mooney e a tripulação.

"Sei que esses homens terão que viver com isso para o resto de suas vidas", disse ele. "Sinto a mesma dor."

Mas, se os sistemas da Marinha para apoio aos submarinos também não tivessem falhado, disse ele, "isso não teria acontecido, e meu filho estaria vivo hoje." Embarcação colidiu com morro submarino ausente nos mapas Deborah Weinberg

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