UOL Notícias Internacional
 

19/05/2005

Irã quer incentivos da União Européia para resolver impasse nuclear

The New York Times
Neil MacFarquhar

Em Teerã
A União Européia e o Irã não vão resolver o impasse das negociações de restrição do programa de desenvolvimento nuclear do Irã se os europeus não oferecerem incentivos significativos, como um acordo para 10 reatores nucleares, disse um alto negociador iraniano nesta quarta-feira (18/05).

No entanto, nenhum incentivo vai persuadir o Irã a abandonar seus projetos de enriquecimento de combustível, disse Hossein Mousavian, do Conselho Superior de Segurança Nacional do Irã. Essa é uma demanda central dos EUA, que temem que o Irã desvie o combustível resultante para produzir armas nucleares.

Em entrevista na quarta-feira, Mousavian acusou os europeus de criarem um impasse, dizendo: "O máximo anunciado foi a disposição americana de dar peças de reposição para aviões usados, o que é simplesmente uma piada, depois de três meses de negociações."

O alto negociador iraniano, Hassan Rowhani, deve se reunir em Paris na terça-feira com os ministros de relações exteriores da França, Reino Unido e Alemanha para tentar resolver o impasse na última rodada de negociações no dia 29 de abril.

Apesar de o Irã ter suspendido o enriquecimento de combustível durante as negociações, Mousavian enfatizou que a total suspensão só poderia durar mais alguns meses.

"Estaríamos dispostos a manter a suspensão do enriquecimento por mais dois ou três meses, ou alguns meses, para buscar um resultado das negociações", disse ele.

O Irã se compromete a fornecer as garantias ou inspeções necessárias para provar que não está desviando combustível para fazer armas nucleares, disse Moussavian.

"O Irã é 100% flexível, aberto, pronto a negociar, a ceder em qualquer mecanismo, com exceção da cessação completa" do programa, disse ele.

Por exemplo, Teerã propôs completar um ciclo total de enriquecimento em quatro fases durante dois anos, para que o Ocidente sinta-se confiante de que o país tentando produzir armas atômicas. "Em termos das diferentes fases e o tempo de cada fase, não fechamos as portas para os Europeus", disse ele.

O ciclo de combustível começa com a conversão do sal de urânio, chamado yellowcake, em gás, que depois é alimentado às centrífugas para enriquecimento.

O nível do enriquecimento depende de quantas vezes o gás passa pela centrífuga. Em níveis baixos, o combustível pode ser usado para energia nuclear; o nível mais alto produz material para a produção de bombas nucleares.

Não está claro como a programação de enriquecimento em dois anos constituiria qualquer sacrifício, já que alguns dos aspectos mais técnicos do ciclo, inclusive a fabricação das 3.000 centrífugas que o Irã quer, demorariam esse tempo de qualquer forma.

Em troca de permitir os inspetores internacionais a monitorarem cada estágio do processo, o Irã espera um grande pacote de incentivos envolvendo sua segurança, estabilidade política e desenvolvimento econômico, observou Mousavian.

As autoridades iranianas, cientistas e acadêmicos entrevistados nos últimos dias insistiram que o Irã nunca ia desistir de seu direito como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear de enriquecer combustível para propósitos pacíficos.

O Irã precisa da energia nuclear para ter uma fonte de eletricidade, desenvolver tecnologias médicas e avançar tecnologicamente, disseram.

Os EUA e a União Européia alegam que Teerã perdeu o direito a ter tecnologia nuclear para propósitos pacíficos quando tentou esconder do resto do mundo as atividades, instalações e materiais de seu programa nuclear por duas décadas.

O Irã quer usar a questão nuclear para por fim ao isolamento internacional ao qual foi submetido em graus variados desde a sua Revolução Islâmica de 1979, dizem os analistas. Assim, dá maior importância a um acordo do que ao cronograma.

No entanto, até agora nada que indica que o trio europeu, com o respaldo americano, esteja pensando em dar os incentivos que Teerã espera. "O outro lado ainda está em ponto morto", disse Mousavian.

Os negociadores estão cogitando adiar negociações até depois das eleições de 17 de junho no Irã, para ver qual tipo de governo emergirá. No entanto, os iranianos acreditam que o país deve ter permissão de desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos.

Estão sendo discutidos acordos que permitam que o Irã tenha um número limitado de centrífugas para enriquecer o urânio.

Alguns especialistas acreditam que é melhor permitir que o Irã tenha um programa aberto, que possa ser monitorado, do que um programa clandestino, que provavelmente desenvolveria de qualquer forma.

"É muito melhor ter 500 centrífugas sob os olhos de todo mundo do que 50 clandestinas no deserto", disse um especialista em não proliferação, que não quis dizer seu nome ou país.

São necessárias de 1.000 a 1.500 centrífugas para gerar o material físsil necessário para a produção de uma bomba por ano. Então, com 500 centrífugas, o Irã não conseguiria reunir o urânio enriquecido necessário para uma bomba.

O país, entretanto, propôs fazer passo a passo os estágios do enriquecimento do urânio e instalar 3.000 centrífugas em sua planta em Natanz. Isso certamente geraria material suficiente para uma bomba e também serviria de início para os planos iranianos eventuais de construir 50.000 centrífugas.

Alguns temem, porém, que a partir de um programa menor, o país possa construir um sistema secreto paralelo, em uma base militar desconhecida dos inspetores internacionais.

O Irã nega qualquer interesse em desenvolver uma bomba. Autoridades e cientistas entrevistados disseram que o movimento para negar ao Irã a tecnologia nuclear é particularmente difícil porque, antes da Revolução Islâmica, o Ocidente tinha oferecido ajudar o país a desenvolver energia nuclear.

Os EUA estavam dispostos a vender 23 usinas nucleares ao Irã. A Alemanha estava construindo o reator nuclear de Bushehr --que os russos ajudarão a completar no ano que vem, e a França assinou contrato para fornecer combustível atômico.

Quando os repórteres pediram um exemplo específico do tipo de incentivo que o Irã quer, Mousavian disse: "A Europa pode concordar, em princípio, com um contrato de 10 usinas nucleares para o Irã".

Como grandes empresas americanas detêm as licenças das usinas nucleares mais avançadas e o investimento significativo no Irã é proibido pelas sanções americanas, tal acordo seria impossível sem aprovação dos EUA. Mas o Irã considera as sanções um problema a ser resolvido pelos negociadores europeus, não o Irã, disse Mousavian.

O trio europeu, com o apoio americano, procurou convencer o Irã a abandonar seu programa nuclear em troca de fornecimento garantido de combustível do exterior.

No entanto, nas últimas semanas, o Irã ameaçou recomeçar o primeiro passo no processamento de urânio em sua planta de conversão em Isfahan, mas não o próprio enriquecimento, se as negociações continuarem suspensas.

A União Européia disse que qualquer medida iraniana no sentido de iniciar o ciclo de produção do combustível, mesmo os passos anteriores ao seu enriquecimento, levaria à suspensão das negociações e transferência do caso para o Conselho de Segurança da ONU, para possíveis penalidades.

O Irã admite ter escondido elementos significativos de seu programa de desenvolvimento nuclear da Agência Internacional de Energia Atômica, que supervisiona o setor há quase duas décadas.

Ele alega que tal subterfúgio foi necessário por causa de sanções contra o país. Alguns especialistas em proliferação nuclear suspeitam que o governo esteja escondendo um programa secreto de desenvolvimento de armas nucleares. País rejeita a suspensão integral de projeto de usinas atômicas Deborah Weinberg

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