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19/05/2005

Quando um rico se casa com um pobre, dinheiro não é a única diferença

The New York Times
Tamar Lewin

Em Northfield, Massachusetts
Quando Dan Croteau conheceu Cate Woolner há seis anos, ele estava vendendo carros na concessionária da Mitsubishi em Keene, New Hampshire, e ela fingia ser uma cliente, fazendo o test drive de um Montero preto enquanto ela e seu filho de 11 anos, Jonah, esperavam pelo serviço no carro deles.

Monica Almeida/The New York Times

Cate e Dan preparam a mesa: ele admite que ela chefia o relacionamento por ser a rica do casal
O test drive durou uma hora e meia. Croteau e Woolner se deram bem e ela posteriormente lhe enviou um bilhete, sugerindo que, se ele não estivesse envolvido com alguém, não fosse republicano ou uma forma de vida alienígena, talvez eles poderiam se encontrar para um café.

Quando Croteau respondeu, eles conversaram no telefone das 10 das noite até às 5 horas da manhã. Eles tinham muita coisa em comum. Ambos vinham de dois casamentos fracassados e tinham dois filhos. Ambos gostavam de dançar, de motos, Bob Dylan, trocadilhos ruins, política liberal e da Rádio Pública Nacional.

Mas quando começaram a sair juntos, eles descobriram diferenças. A diferença religiosa --ele é católico, ela é judia-- não representava problema. A verdadeira diferença entre eles, eles disseram, era mais sutil: Croteau vem de uma família operária, Woolner de uma família de dinheiro.

Croteau, que completará 50 anos em junho, cresceu em Keene, uma antiga cidade operária. Seu pai foi um operário de fábrica cuja educação terminou na oitava série; sua mãe também trabalhou em fábricas. Croteau deixou a escola aos 16 anos, saiu de casa, entrou para a Marinha e passou por uma série de empregos sem encontrar qualquer vocação. Ele se casou com sua namorada grávida de 19 anos e já tinha duas filhas, Lael e Maggie, aos 24 anos.

"Eu fui criado em uma família onde minha avó era nossa vizinha, meus tios moravam na rua de cima, os dois irmãos do meu pai viviam perto um do outro, e eu adorava brincar com meus primos", disse ele. "Todo o conceito de vida era de que você devia tentar encontrar um bom emprego em uma fábrica."

Ele sempre sentiu que as pessoas ricas na cidade, "aquelas com seus nomes nos prédios", como ele colocou, viviam em outro mundo.

Woolner, 54 anos, vem deste outro mundo. Filha de um médico e uma dançarina, ela cresceu confortavelmente em Hartsdale, Nova York, com acampamentos de verão, férias e ensino superior.

Mas ela não se sentia à vontade com seu dinheiro; quando ela recebeu uma modesta herança aos 21 anos, ela ignorou os extratos bancários mensais por vários anos, até que começou a canalizar seu desconforto para a filantropia. Ela tinha 30 e poucos anos quando se casou com um psicoterapeuta, quando Isaac e Jonah nasceram.

"O pai da minha mãe tinha um Rolls-Royce, um mordomo e uma segunda casa na Flórida", disse Woolner, "e até onde consigo me lembrar, eu sempre tive consciência de que tinha mais do que as outras pessoas, e me sentia desconfortável com isso porque não parecia justo".

Casamentos que cruzam as divisões de classe podem não exibir um conjunto de desafios tão óbvios quanto aqueles que cruzam as divisões de raça ou nacionalidade.

Mas de uma forma discreta, quem se casa com pessoas de outra classe também sai de sua zona de conforto, entrando em um território não mapeado de parceiros com um nível diferente de riqueza e formação e, freqüentemente, um conjunto diferente de suposições sobre coisas como modos, alimentação, criação dos filhos, presentes e como passar as férias.

Em casamentos de pessoas de classes diferentes, um parceiro geralmente terá mais dinheiro, mais opções e, quase inevitavelmente, mais poder no relacionamento.

Não é possível dizer quantos casamentos deste tipo existem. Mas a ponto da escolaridade servir como substituto de classe, eles parecem estar em declínio.

Mesmo em um momento em que mais pessoas se casam com pessoas de outra raça ou religião, freqüentemente com parceiros que se assemelham a eles em outros aspectos, menos pessoas estão escolhendo parceiros com um grau diferente de escolaridade.

Se a maioria destes casamentos costumava envolver homens se casando com mulheres com menor escolaridade, estudos revelaram que ultimamente tal padrão se inverteu, de forma que em 2000, a maioria envolvia mulheres, como Woolner, se casando com homens de menor escolaridade --a combinação que apresenta maior probabilidade de terminar em divórcio.

"É definitivamente mais complicado, dados os modelos culturais com os quais todos nós crescemos", disse Woolner, que tem um mestrado em Direito. "Nós todos fomos ensinados que supostamente é o homem que tem o dinheiro, o status e o poder."

Quando Woolner contou a Croteau, logo após começarem a sair juntos, que ela tinha dinheiro, isto não foi recebido como uma boa notícia.

"Eu gostaria que ela tivesse esperado um pouco", disse Croteau.

"Quando ela me disse, meu primeiro pensamento foi, uh oh, isto é uma complicação. Daquele momento em diante eu tive que começar a questionar minhas motivações. Você não quer se sentir como um interesseiro. Você precisa dizer a si mesmo, aqui está esta pessoa que amo, e aqui está esta qualidade que vem com o pacote. Cate é muito generosa, e ela pensa muito no que é justo e se esforça arduamente para igualar as coisas, mas ela também tem muita bagagem em torno desta qualidade. Ela tem todos os tipos de opções que não tenho. E ela fica com a parcela maior da tomada de decisão."

No verão passado, disse Croteau, quando estavam na casa da mãe de Woolner em Martha's Vineyard, sua sogra confessou a ele que inicialmente tinha ficado embaraçada por ele ser um vendedor de carros e preocupada com a possibilidade de sua filha ter escolhido ele como uma espécie de projeto de caridade.

Croteau conheceu Woolner no final de 1998 e mudou-se para a casa confortável dela em Northfield na primavera seguinte, após atender a condição imposta por ela de que venderia sua arma. Eles se casaram em agosto de 2001.

Mesmo antes de Croteau se mudar, Woolner lhe deu dinheiro para comprar um carro novo e pagar algumas dívidas. "Eu queria lhe dar o dinheiro", disse ela. "Eu não hesitei. Eu lhe disse que este foi um dinheiro que veio de mim apenas por ter nascido em uma classe social, enquanto ele nasceu em outra."

E quando Croteau perdeu seu emprego pouco depois, Woolner começou a lhe pagar um salário, que continuou até novembro passado, quando ela pediu demissão de seu antigo emprego em uma agência antipobreza local. Ela também concordou em lhe pagar um curso de informática de US$ 10 mil que o ajudou a se preparar para seu atual emprego, como analista de software, no Centro Médico Cheshire, em Keene.

Foi aceito dentro do lar que o status de Woolner lhe dá a vantagem no casamento. Quando Isaac, o filho dela, disse certa vez diretamente, "eu acho que minha mãe é quem manda no relacionamento", Croteau não se encolheu. Ele está ciente de que neste relacionamento, a vida dele é que mudou mais.

Os filhos

O lar Woolner-Croteau fica próximo da escola preparatória Northfield Mount Hermon --um constante lembrete local para Croteau de quão diferentemente os filhos de sua esposa e suas filhas foram educados.

Jonah agora está no último ano lá. Isaac, que também freqüentou a escola, agora voltou para a Lewis & Clark College em Oregon, após se afastar por alguns semestres para estudar na Índia e freqüentar um curso de massagem enquanto trabalhava perto de Déli.

Em comparação, as filhas adultas de Croteau --que nunca viveram com o casal-- freqüentaram escolas públicas em Keene.

"Eu às vezes acho que Jonah e Isaac precisam de uma dose de realidade, que uns dois anos em uma escola pública lhes teria mostrado algo diferente", disse Croteau.

"Por outro lado, eu às vezes gostaria de ter podido dar a Maggie e Lael o que eles tiveram. Minhas filhas não tiveram o mesmo tipo de privilégio e o mesmo tipo de escola. Elas não tiveram professores preocupados em cuidar dos crescimento de seus egos. Foi um vire-se como puder para elas, e isto ainda transparece em suas personalidades."

Croteau e Woolner não são os únicos cientes da divisão de classe dentro da família; os quatro filhos também estão.

Dinheiro é um problema constante para Lael Croteau, 27 anos, que está fazendo doutorado em administração de educação na Universidade de Vermont, e Maggie, 25 anos, que trabalha em três empregos enquanto faz a faculdade de direito na Universidade Americana. Nos restaurantes, elas pedem que as sobras sejam embrulhadas para levarem para casa.

Nenhuma delas pode imaginar se afastar por um semestre para fazer um curso de massagem, como fez Isaac. As filhas de Croteau são as únicas entre os 12 primos de primeiro grau que chegaram à universidade. A maioria dos outros se casou e teve filhos logo após o ensino médio.

As filhas andam em uma linha estreita. Elas têm uma ligação profunda com a mãe, que foi responsável por grande parte de sua criação, mas também são atraídas pelo mundo de Woolner e suas possibilidades. Nos feriados e nas férias em Vineyard, eles passaram a se sentir próximas não apenas dos filhos de sua madrasta, mas também dos filhos das irmãs de Woolner.

A vida das filhas foi mudada pela presença constante e calorosa de Woolner, assim como seus presentes, como dinheiro para pneus de neve, livros e férias em família.

Para os filhos de Woolner, a chegada de Croteau não fez muita diferença. Eles praticamente ignoram o restante da família Croteau, e mal conheceram os primos Croteau, que têm idade parecida e vivem nas proximidades, mas que levam vidas diferentes. Mas nas raras ocasiões em que todos estão juntos, as filhas se dão bem com os filhos.

Woolner e Croteau continuam conscientes das diferenças de classe entre eles, e das formas como suas vidas foram moldadas por experiências diferentes.

Em uma visita a Nova York, Woolner perdeu seu cartão de crédito e se sentiu ansiosa por não poder fazer uso, mesmo que brevemente, de seu dinheiro. Para Croteau, foi um momento estranho.

"Ela ficou realmente desconfortável, apesar de estarmos a uma esquina da mãe dela, e ela tinha dinheiro suficiente para fazermos o que estávamos planejando, desde que ela não estivesse planejando comprar um carro ou um diamante repentinamente", disse ele.

"Assim, eu não entendi o problema. Eu sei como me virar sem uma rede de proteção. Eu fiz isto por toda minha vida." Um dos parceiros acaba tendo muito mais poder nessas relações George El Khouri Andolfato

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