UOL Notícias Internacional
 

21/05/2005

Bush promete manter restrições a células-tronco

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

Em Washington
Armando um confronto com o Congresso controlado pelos republicanos em torno da questão espinhosa da pesquisa de células-tronco embrionárias, o presidente Bush prometeu nesta sexta-feira (20/05) vetar uma medida, à espera de votação na Câmara, que expandiria o financiamento federal para os estudos --uma ameaça pessoal extremamente rara de um presidente que nunca exerceu seu poder de veto.

"Eu sou um forte defensor da pesquisa de células-tronco, mas deixei muito claro ao Congresso que sou contra o uso de dinheiro federal do contribuinte para promover ciência que destrói vida para salvar vida", disse Bush, falando no Escritório Oval durante uma breve aparição conjunta com o primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen, ao seu lado.

"Portanto, se o projeto de lei fizer isto, eu o vetarei."

O presidente também expressou preocupação com o relatório de que pesquisadores sul-coreanos aperfeiçoaram um método de clonagem de embriões humanos para extração de células-tronco que, teoricamente, poderiam ser usadas para desenvolver tratamentos geneticamente compatíveis com os pacientes.

O projeto da Câmara, que tem abrangência limitada, não trata da clonagem. "Eu estou muito preocupado com a clonagem", disse Bush. "Eu me preocupo com um mundo em que a clonagem se torne aceitável."

A incomum ameaça de veto, feita poucos dias antes da votação prevista para terça-feira na Câmara, está acirrando as tensões entre a Casa Branca e a liderança republicana em um momento em que Bush já enfrenta obstáculos no Capitólio.

Sua proposta para a Previdência Social está tendo dificuldade para conseguir apoio, e seu indicado para embaixador na ONU, John R. Bolton, está enfrentando forte oposição.

Agora o debate das células-tronco está criando divisões entre os republicanos, colocando Bush em uma posição difícil e revivendo uma questão polêmica que dominou os primeiros dias de sua presidência.

Em um discurso televisionado para todo o país há quatro anos, Bush anunciou que permitiria o financiamento federal apenas para pesquisa das linhagens de células-tronco embrionárias já existentes.

O projeto da Câmara expandiria a política de Bush ao permitir o financiamento federal para estudos em embriões que sobraram de tratamentos de fertilidade e conta com o apoio de mais de 200 deputados, incluindo duas dúzias de republicanos.

Seu principal defensor republicano, o deputado Michael N. Castle de Delaware, previu na sexta-feira que o projeto será aprovado, apesar de não com a maioria de dois terços necessária para derrubar um veto. Castle disse que alertou Bush sobre a medida dois meses atrás, quando foi convidado para a área privada da Casa Branca com outros republicanos para um coquetel e conversa sobre a Previdência Social.

O deputado lembrou da conversa desta forma: "Eu disse: 'Senhor presidente, eu aprecio sua convicção em relação ao Seguro Social, mas antes que possa responder qualquer coisa sobre o Seguro Social, eu quero que o senhor saiba que há aqueles entre nós no Congresso que sentem o mesmo sobre a pesquisa de células-tronco embrionárias. Eu só queria que soubesse que nós temos um projeto, e nós o defenderemos o mais fortemente que pudermos'".

O projeto de lei de Castle não permite o financiamento federal para o tipo de estudo de "clonagem terapêutica" que está sendo feito na Coréia do Sul, mas uma medida na Senado, apresentada pelo senador Orrin Hatch, republicano de Utah, permitiria.

O debate em torno das células-tronco não está dividindo apenas os republicanos em Washington. Com Estados como a Califórnia --onde o governador Arnold Schwarzenegger, um republicano, apóia a pesquisa-- desenvolvendo ambiciosos programas de células-tronco, e outros países seguindo em frente, alguns legisladores alertam que os americanos estão em uma desvantagem econômica e científica.

"Os Estados Unidos a cada dia estão sendo deixados mais para trás, nesta manhã pela Coréia do Sul", disse o senador Arlen Specter, republicano da Pensilvânia e co-patrocinador de um projeto de lei no Senado idêntico ao da Câmara, na sexta-feira.

Specter, que dirige o subcomitê que controla o financiamento federal para pesquisa médica, prometeu colocar a questão em evidência neste ano. "Eu não gosto de ameaças de veto, e não gosto de comentários sobre derrubada de veto", disse ele, "mas esta questão será um ponto central do projeto de lei de apropriações do meu subcomitê".

As células-tronco embrionárias, que podem gerar qualquer tipo de célula ou tecido no corpo, são consideradas os blocos de construção da medicina regenerativa; cientistas e defensores dos direitos dos pacientes acreditam que elas representam uma grande promessa para um grande número de males, incluindo diabete e mal de Alzheimer.

Mas como embriões humanos são destruídos quando as células são extraídas, os estudos provocaram intensas objeções morais, particularmente por parte de religiosos conservadores e oponentes do aborto.

Assim, quando abriu a porta para o financiamento federal da pesquisa em agosto de 2001, Bush fez um compromisso: o governo pagaria apenas pelos estudos envolvendo as colônias de células-tronco, ou linhagens, que já tinham sido criadas.

Os cientistas e defensores dos direitos dos pacientes têm tentado expandir tal política desde então, e têm recrutado vários republicanos para a causa, incluindo alguns ardorosos adversários do aborto.

Entre eles está o deputado Dana Rohrabacher, republicano da Califórnia, cuja esposa deu à luz no ano passado a trigêmeos concebidos por fertilização in vitro. Rohrabacher disse em uma entrevista que apesar de ter "um histórico de votação rigidamente pró-vida", sua experiência o convenceu de que não seria imoral realizar experiências com os embriões descartados.

"Estes óvulos fecundados descartados nunca terão o potencial de se tornarem um ser humano a menos que sejam implantados no corpo de uma mulher, de forma que não acredito que experiências com estes óvulos fertilizados sejam o equivalente a um aborto", disse ele. "Eu acho que este é um pensamento errado."

Mas alguns proeminentes republicanos na Câmara, incluindo o presidente, Dennis Hastert de Illinois, e o líder da maioria, Tom DeLay do Texas, são contrários à medida. Nesta semana, DeLay disse que era "veementemente contrário".

Hastert, que geralmente se recusa a colocar legislação em votação no plenário da Câmara a menos que conte com o apoio da maioria da bancada republicana, disse não saber quão amplo era o apoio. "Eu não tenho certeza de quais são os números verdadeiros. Nós não saberemos até votarmos", disse ele.

Se a medida for aprovada, ele irá para o Senado, onde conta com apoio considerável. O senador Bill Frist do Tennessee, o líder da maioria, disse nesta semana que deseja consultar seus colegas antes de colocar a medida em votação, mas Hatch disse que mesmo se Frist não apresentar a medida, ele forçará uma votação a anexando como uma emenda a outro projeto de lei.

Apesar da ameaça de veto de Bush, os defensores do projeto de Câmara disseram na sexta-feira que acreditam que a medida não viola a posição do presidente contra ciência que "destrói vida para salvar vida".

A deputada Diana DeGette do Colorado, que é sua principal defensora democrata na Câmara, disse que espera que a medida deixe Bush aberto a negociações, apesar dele não ter dado nenhum indício de que mudará de posição.

"Nós estamos cientes da ameaça de veto", disse DeGette. "Todos sabiam que ela viria. Eu não acho que isto mudará os votos. O que eu espero que ocorra, em caso de aprovação da medida, é que isto force a Casa Branca a discutir conosco." Presidente ameaça vetar o projeto de custeio público de pesquisas George El Khouri Andolfato

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