UOL Notícias Internacional
 

21/05/2005

Publicação de fotos de Saddam Hussein na prisão enfurece a Casa Branca

The New York Times
David E. Sanger e Alan Cowell

Em Washington
A publicação, nesta sexta-feira (20/05), de fotografias de Saddam Hussein de cuecas em sua cela no Iraque levou o governo Bush a instaurar uma investigação sobre como as imagens chegaram aos tablóides de Londres e Nova York, aparentemente fornecidas por alguém no exército americano.

Os jornais, "The Sun" de Londres e "The New York Post", ambos parte do império da mídia de Rupert Murdoch, disseram que os retratos tinham sido fornecidos por fontes militares americanas para minar a rebelião iraquiana.

O presidente Bush falou sobre as fotos na sexta-feira pela manhã, dizendo que não achava que iam agravar a insurgência iraquiana, mas não disse nada que condenasse sua publicação.

Menos de duas horas depois, após membros da Casa Branca discutirem as possíveis repercussões das imagens, o subsecretário de imprensa de Bush, Trent Duffy, disse que a divulgação das fotos violava os regulamentos militares americanos e provavelmente as Convenções de Genebra.

"Acho que isso pode ter um sério impacto", disse Duffy na tarde de sexta-feira, comparando o incidente com as revelações de abusos de prisioneiros no ano passado. Ele prometeu que "haverá uma investigação detalhada do episódio" e disse que o presidente Bush estava zangado com a divulgação e "quer esclarecê-la imediatamente".

Membros do governo claramente temiam ser acusados de deliberadamente mostrarem Saddam sob uma ótica humilhante, um imperador caído com poucas roupas.

"Essas fotos foram erradas; são uma clara violação das diretrizes do Departamento de Defesa e possivelmente da Convenção de Genebra para o tratamento humano de presos", disse Duffy.

"As forças multinacionais no Iraque, assim como o presidente, ficaram muito desapontadas com a possibilidade de alguém responsável pela segurança, bem estar e detenção de Saddam Hussein tirar e oferecer essas fotos para divulgação."

Sob a manchete "Tirano de cuecas", a primeira página do "Sun" desta sexta-feira mostrou Saddam vestido apenas com uma samba-canção branca, dobrando outra peça de roupa. O cenário por trás parecia uma porta sem janelas e uma parede de madeira. As fotografias ofereciam "um vislumbre fascinante em sua vida patética por trás das grades", dizia o jornal.

Outras imagens dentro do jornal mostravam Saddam aparentemente dormindo e andando de roupão. A página três, normalmente dedicada a fotos de jovens seminuas, mostrava Saddam com um roupão árabe branco, enquanto lavava sua roupa à mão. A legenda o descrevia como "uma figura patética, lavando suas calças na prisão".

"Saddam antes sentava em tronos e era tratado como rei. Agora, ele se senta em uma cadeira de plástico cor de rosa enquanto desempenha as tarefas de uma lavadeira", dizia o texto.

Não ficou claro como os sunitas no Iraque e outros no mundo islâmico reagirão às fotos. Um site islâmico com laços com a insurgência e o movimento salafista, Al Qalaa, mostrou brevemente o retrato e condenou sua publicação. Depois, porém, tirou-o do ar, quando os administradores do site aparentemente concluíram que era proibido pela lei islâmica.

A julgar pela aparência de Saddam, as fotografias parecem ter sido tomadas há mais de um ano, de acordo com Bryan Whitman, porta-voz do Pentágono. Isso significaria que Saddam ainda era considerado prisioneiro de guerra sob custódia dos EUA, o que lhe conferia a proteção das Convenções de Genebra.

As convenções proíbem expor os detentos "à curiosidade pública", como divulgando fotografias humilhantes. Mas autoridades do Pentágono observaram que as convenções proíbem os governos de divulgar essas fotografias. Os retratos, porém, parecem ter vazado sem permissão dos EUA, disseram as autoridades.

Os EUA já divulgaram fotografias de Saddam em sua cela uma vez, imediatamente após sua captura, em dezembro de 2003. Nessas fotos ele parecia descabelado e estava sendo examinado por um médico. Em uma declaração emitida na sexta-feira à noite, a Casa Branca disse que as imagens eram de outra natureza:

"Aquelas fotos foram divulgadas por necessidades de segurança --para demonstrar ao povo iraquiano e aos insurgentes que Saddam estava de fato preso, que acreditávamos ser importante para ajudar a deter a insurgência. As fotos recém divulgadas não tinham tal justificativa."

Saddam manteve o status de prisioneiro de guerra até julho, quando foi transferido ao controle legal iraquiano, disse Whitman. Apesar de as autoridades do Pentágono não descreverem as condições específicas sob as quais o ex-ditador está sendo mantido, admitem que ele continua sob custódia física das forças americanas. Elas não quiseram dizer se guardas iraquianos ou de outros países também estariam presentes.

Mesmo que os retratos tenham sido tirados depois de Saddam perder seu status de prisioneiro de guerra, as diretrizes que governam seu tratamento teriam proibido sua divulgação, disse Whitman.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha condenou a publicação das fotografias. "Tirar e usar fotografias dele é claramente proibido", disse a porta-voz do setor relativo ao Oriente Médio, Dorothea Krimitsas.

Em uma declaração na noite de sexta-feira, Graham Dudman, editor do Sun, disse: "O Sun obteve essas fotos usando métodos jornalísticos profissionais. Foram, de qualquer maneira, um furo extraordinário, como fica claro pela forma como o episódio tem sido acompanhado pela mídia mundial."

"Essas são imagens icônicas do criminoso de guerra mais notório do mundo", acrescentou. "Estamos chocados que algumas pessoas estejam preocupadas com Saddam Hussein lavando sua roupa quando ele foi responsável pelas mortes de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes."

Bush foi perguntado se acreditava que as fotografias inflamariam os insurgentes ou gerariam sentimentos contrários aos EUA no Oriente Médio. "Você sabe, não acho que uma foto inspire assassinos", respondeu. "Acho que são inspirados por uma ideologia tão bárbara e retrógrada que é difícil para muitos no Ocidente entenderem como pensam."

Ziad Khasawneh, membro do time de defesa de Saddam, chamou a publicação das fotografias de uma "violação dos acordos internacionais e da dignidade humana". Ele disse também que "os responsáveis devem ser processados", segundo a agência Reuters de Amã, Jordânia.

"Isso é considerado outro Abu Ghraib e tomaremos as medidas legais necessárias que já iniciamos", disse Khsasawneh.

Algumas autoridades árabes disseram que as fotografias podem distrair a atenção da enormidade das acusações contra Saddam.

"Fiquei um pouco desapontado com a imprensa, que está insistindo em uma questão que não tem grande relevância", disse na CNN o ministro de Relações Exteriores do Kuwait, Al Sabah. O Iraque invadiu o Kuwait em 1990.

O que queria que acontecesse com Saddam? "Um julgamento justo, que ficasse gravado na história que os que cometem atrocidades contra seu próprio povo e contra sua região pagam um preço por isso." Jornais de Londres e NY mostram a intimidade do ex-ditador preso Deborah Weinberg

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