UOL Notícias Internacional
 

22/05/2005

Entre astros, amor é sempre uma incógnita

The New York Times
Mireya Navarro

Em Los Angeles
Ele se beijam e abraçam enquanto as câmeras disparam. Os amigos relatam entusiasticamente: "É verdade! Eles se amam!" Seus relações-públicas confirmam que é real. Mas quando revistas de celebridades pediram para o público avaliar o último casal de alta octanagem de Hollywood - Tom Cruise e Katie Holmes, a ex-estrela de "Dawson's Creek" -, os cínicos arrasaram os românticos. "É golpe publicitário", disseram 62% dos entrevistados em uma pesquisa da revista "People". "Relações-públicas", disseram 65% das pessoas questionadas aleatoriamente pela "US Weekly" no Rockefeller Center.

Cruise e Holmes podem estar mesmo apaixonados, mas não devem estranhar que até os fãs mais ardorosos parecem ter dificuldade para engolir o romance, segundo cronistas de Hollywood e outros que trabalham na indústria do entretenimento. Através de todas as mudanças que varreram Hollywood ao longo dos anos, uma coisa permanece: o amor estratégico.

A união de astros e estrelas para gerar sensação em torno de um filme, lustrar a imagem de um ator, criar um nome ou distrair a atenção de outros relacionamentos talvez não seja tão comum hoje quanto na época em que os estúdios controlavam rigidamente as carreiras de seus astros, na década de 1950, segundo publicitários e especialistas no setor. Mas ainda é a maneira mais fácil de se conseguir publicidade elogiosa.

E, quando se trata de notícias sobre celebridades, dificilmente há algo melhor que uma relação amorosa envolvendo um superastro como Cruise. Depois de aparecer juntos em público pela primeira vez no final do mês passado, abraçando-se e beijando-se na cerimônia de um prêmio de cinema na Itália, o casal instantâneo - eles tinham se conhecido semanas antes - saiu na capa das Três Grandes: "US Weekly", "Star" e "People". As reportagens mencionavam que cada um ia lançar um filme em breve: "A Guerra dos Mundos" de Cruise e "Batman, o Início", de Holmes.

Essa coincidência, juntamente com a enxurrada de detalhes sobre a ligação que surgiu nas revistas de celebridades - Cruise, 42, tinha telefonado para Holmes, 26, sem qualquer pretexto; em seu primeiro encontro ele lhe ofereceu sushi em seu jato particular voando sobre Los Angeles -, atiçou o ceticismo de um público escolado para esperar segredo de astros apaixonados, sem falar nas celebridades que participam de programas de TV-realidade para se promover.

"Katie Holmes e Tom Cruise é algo repentino e estranho", disse Janice Min, editora-chefe da "US Weekly". "Mas eu acho que é real, e algumas pessoas do escritório riram de mim."

Mesmo que o fã mais experiente de hoje consiga farejar um truque, é difícil resistir à tentação de estar informado. Nos casos de total conveniência romântica, segundo Stephen M. Silverman, um biógrafo de diretores de cinema que é editor de notícias da People.com, "a base para fazer isso continua sendo a mesma: conseguir publicidade. Mas hoje você tem a atração extra de que o público é louco por celebridades, seja com cinismo ou adoração."

Um namoro geralmente supera qualquer outra iniciativa como notícia, segundo Silverman. "Angelina Jolie está fazendo um sério trabalho humanitário", ele disse, "mas sua ligação com Brad Pitt recebe mais cobertura. Eu vou a jantares com pessoas muito sofisticadas, que perguntam: 'Então, o que está acontecendo entre Angelina Jolie e Brad Pitt?'"

Chris Doherty, presidente da agência de fotos INF de Nova York, que lida com paparazzi e fotógrafos de eventos de celebridades, disse que com os inúmeros canais que utilizam imagens os astros que desejam publicidade não precisam mais aparecer em eventos oficiais; um casal pode simplesmente caminhar por uma rua de mãos dadas. "Se eles quiserem que aconteça, não é difícil."

É difícil avaliar se o casal é verdadeiro ou falso, disse Doherty. As publicações muitas vezes perguntam "as circunstâncias em que as fotos foram tiradas", ele explicou. "Parecia que eles estavam encenando? Eles nos perguntam se viram o fotógrafo. Se não viram o fotógrafo, você pode interpretar que as fotos são autênticas."

Mas ele disse que no caso de casais quentes como Pitt e Jolie o questionamento é quase irrelevante. "Todo mundo queria uma foto depois do rompimento dele com Jennifer Aniston", disse Doherty.

Segundo historiadores do cinema, os estúdios costumavam criar casais fictícios para promover um filme. Na época do "sistema dos estúdios", por exemplo, a máquina publicitária muitas vezes ajudava a convencer os fãs de que os casais que apareciam na tela eram reais. O filme "Singin' in the Rain" brincou com isso, fazendo a atriz acreditar na publicidade apesar de seu ardente parceiro na tela a detestar. Em outros casos, pares foram forjados para ocultar um segredo - talvez adultério - e, em casos como o de Rock Hudson, esconder sua homossexualidade. Tab Hunter, um galã romântico da década de 50, me disse que saiu várias vezes com Natalie Wood a pedido da Warner Brothers, que tinha contrato com os dois. Eles participavam de festas para promover filmes, apesar de ele ser gay - não publicamente na época - e ela ainda ser uma adolescente.

"Quando a máquina começa a rodar, é muito poderosa, e a imprensa leva tudo um passo adiante", ele disse em uma entrevista na semana passada. "Eles deram várias reportagens: 'Natalie está apaixonada', 'Natalie tem muitos namorados, mas Tab é o número um'. Tudo besteira. Ela realmente amava Robert Wagner."

Hunter, que aos 73 anos pretende lançar uma autobiografia neste outono, "Tab Hunter Confidential: The Making of a Movie Star" [Tab Hunter Confidencial: a Fabricação de um Astro], em que ele fala sobre sua homossexualidade e seu romance com Anthony Perkins, disse que aceitava as armações porque considerava parte de seu trabalho.

Hoje as celebridades são responsáveis por seu próprio marketing, e algumas vão mais longe que outras no uso de sua vida pessoal como material de divulgação.

"Muitas pessoas acham que é bom sair na capa das revistas, e a maneira mais saudável de conseguir isso é um namoro", disse um publicitário de Hollywood que não quis ser identificado. "Você não quer sair na capa por um ato criminoso ou um divórcio."

Mas outros relações-públicas insistem que jamais tentariam chamar atenção para a vida pessoal de um cliente. Depois que você abre essa porta, "não consegue recuperar a privacidade", disse um profissional.

A exposição não ocorre sem riscos. Com a concorrência da mídia noticiosa, há menos controle sobre a cobertura ou a capacidade de proteger os astros como os estúdios faziam, dizem alguns especialistas.

Veja Katie Holmes, por exemplo. Três semanas atrás as fotos a mostravam radiante e linda com Cruise em Roma. Na semana passada os tablóides e revistas a mostraram em closes nada lisonjeiros, com uma vermelhidão ao redor da boca. ("Problemas no lábio de Katie", dizia o título da "US Weekly".)

Hoje as celebridades também correm o risco de atingir o ponto de saturação com o público tão depressa quanto nos romances. "Não existem mais muitos segredos", disse A. Scott Berg, que escreveu livros sobre Katharine Hepburn e o magnata do cinema Samuel Goldwyn.

Nos velhos tempos "o público nunca se cansava de um astro", ele disse. Ou pelo menos demorava mais. "Clark Gable pareceu fascinante durante toda a sua vida porque não havia muita informação sobre ele", disse Berg, que ganhou o prêmio Pulitzer de biografia. "Hoje você está na televisão o tempo todo."

Os estúdios não adoram casais superexpostos fora das telas, disse Peter Sealey, ex-presidente de marketing da Columbia Pictures e professor-adjunto na Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo ele, as relações amorosas não afetam significativamente as bilheterias e podem interferir com a suspensão da descrença, que ainda é o objetivo da maioria dos filmes.

"Se você mistura realidade externa e fantasia, a fantasia perde", ele disse, citando as intermináveis histórias sobre Jennifer Lopez e Ben Affleck antes do lançamento de seu filme "Gigli", que foi um fracasso.

Sealey explicou que enquanto os astros podem se beneficiar pessoalmente da exposição que pode trazer um novo amor - fictício ou não -, os filmes vivem ou morrem pelo boca-a-boca, e "você quer o foco para o filme". "Você tem de vê-lo" deveria ser a reação das platéias, ele disse, e não "Eles parecem felizes juntos".

Muitas estrelas se apaixonam durante as filmagens, formando casais legendários como Humphrey Bogart e Lauren Bacall, Richard Burton e Elizabeth Taylor. "São pessoas maravilhosas, que têm libido e que passam meses viajando, em locações", disse Sealey. "O que você queria que acontecesse?"

E alguns relacionamentos improváveis - Ashton Kutcher e Demi Moore - também parecem brotar. Mas Cruise e Holmes parecem ter causado muita desconfiança. Além de sua diferença de idade e de aparentemente terem pouco em comum - uma reportagem notou que ela se sentiu atraída por ele quando assistiu "Risky Business" quando criança -, eles parecem estar correndo atrás dos paparazzi, em vez de buscar privacidade.

"O romance não é uma espécie de foco exclusivo em uma pessoa, excluindo o mundo exterior?", perguntou Leo Braudy, autor de "The Frenzy of Renown: Fame and Its History" [O frenesi do sucesso: a fama e sua história] e professor de história do cinema na Universidade do Sul da Califórnia. "Se você expõe seu romance em público, haverá um certo cinismo sobre seus motivos."

Publicitários do casal não retornaram as ligações, mas em entrevistas a "Access Hollywood" que irá ao ar no dia 23 (com trechos disponíveis no site do programa), Cruise, o ex-marido de Nicole Kidman, explicou por que está menos inibido do que costuma ser. "Não vou esconder isso", ele disse. "Estou muito feliz, e não vou fingir, esconder ou ser tímido. Essa mulher é magnífica."

As pessoas podem rir baixinho, mas vão assistir ao programa. "Isso não significa que elas não queiram ver fotos deles se beijando", disse Doherty, o executivo da agência de fotografia. "Tudo faz parte do show." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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