UOL Notícias Internacional
 

24/05/2005

Plantadores de cana do Brasil transformam-se em produtores de combustível

The New York Times
Todd Benson
Em Catanduva, Brasil
Há não muito tempo, os moradores desta exuberante região produtora de cana no Sudeste do Brasil precisavam ficar de olho atento no preço do açúcar nos mercados mundiais para saber se os fazendeiros locais contratariam ou demitiriam.

Paulo Fridman/The New York Times

Demanada do etanol beneficia os plantadores de cana em São Paulo
Mas, atualmente, a maioria das pessoas nesta pequena cidade rural parece mais preocupada com o preço do petróleo. E por um bom motivo: desde que os preços mundiais do petróleo começaram sua enorme escalada no início do ano passado, a demanda por combustíveis alternativos mais baratos como o etanol derivado de cana-de-açúcar disparou, ajudando a encher o bolso dos produtores brasileiros de cana ao mesmo tempo em que os tornava menos vulneráveis às oscilações do mercado de açúcar.

"O etanol está caminhando para se tornar um commodity como o petróleo, e o preço do petróleo é um dos principais motivos", disse José Fernandes Rio, diretor da Usina Cerradinho, uma das oito usinas de açúcar e destilarias de etanol espalhadas por Catanduva, que está investindo de forma pesada para aumentar a produção.

A demanda crescente por etanol --ou álcool, como a maioria dos brasileiros o chama-- está alimentando um boom de investimento na indústria de cana-de-açúcar do Brasil não vista desde a crise do petróleo dos anos 70.

Naquela época, a ditadura militar do país buscou reduzir a dependência do caro petróleo estrangeiro oferecendo ricos subsídios e incentivos fiscais para os usineiros refinarem a cana em etanol, ao mesmo tempo em que financiavam a construção de uma rede nacional de distribuição para o combustível.

Apesar de o nervosismo do petróleo estar novamente ajudando a estimular a nova onda de investimento na indústria de cana do Brasil, desta vez o governo não está pagando a conta. Cheios de dinheiro devido à recuperação dos preços mundiais do açúcar nos últimos anos, muitos usineiros estão gastando seus próprios recursos e fazendo empréstimos bancários para melhorar o atendimentos aos mercados estrangeiros.

Segundo uma recente pesquisa da ProCana, um grupo de pesquisa em Ribeirão Preto que monitora a indústria do açúcar e do etanol, R$ 12,5 bilhões já foram reservados para 40 novas usinas e destilarias ao longo dos próximos cinco anos.

Grande parte do dinheiro será gasto aqui no Oeste do Estado de São Paulo, uma região que já abriga dezenas de usinas de açúcar, gerando perto de 100 mil empregos em um setor que emprega mais de 1 milhão de pessoas.

"De todas as diferentes ondas de investimento que o setor já experimentou, esta é claramente a mais sólida de todas", disse Maurílio Biagi Filho, um executivo da CrystalSev, um grande conglomerado de açúcar e etanol que está dando os retoques finais em um terminal de etanol de US$ 10 milhões no porto de Santos.

"As pessoas têm dinheiro para investir, e tanto a demanda doméstica quanto externa está em alta", acrescentou Biagi, cuja família está no ramo de açúcar desde 1920. "Todos os ingredientes estão lá."

Há não muito tempo, o futuro do etanol não parecia tão brilhante.

No auge da campanha pró-álcool do governo em meados dos anos 80, carros movidos apenas a etanol representavam quase 90% das vendas de carros novos no Brasil. Mas o consumo doméstico de etanol começou a cair de forma constante nos anos 90, quando fracas safras de cana e os altos preços do açúcar provocaram uma escassez de álcool que enfureceu os motoristas, levando muitos a voltarem a carros movidos a gasolina.

Então, três anos atrás, uma grande montadora começou a vender carros no Brasil movidos tanto a gasolina ou etanol, ou qualquer combinação dos dois. Atraídos pelo baixo preço do álcool --que custa pouco mais da metade do preço da gasolina-- os brasileiros têm comprado estes chamados carros "flex fuel" (bicombustível) aos montes, ajudando a reviver o mercado doméstico de etanol.

Hoje, todas as grandes montadoras no Brasil oferecem estes veículos híbridos, que agora representam 33% das vendas de carros novos, um número que alguns analistas prevêem que poderá chegar a 80% até o final do próximo ano.

Graças à popularidade do motor flex fuel, o consumo doméstico de etanol deverá saltar 50% nos próximos cinco anos, o que fará com que um crescente percentual da safra anual de cana do país será usada para produzir combustível.

Neste ano, por exemplo, um número recorde de 57% da safra será destinada à produção de etanol, em comparação a menos da metade em anos recentes, segundo a Datagro, uma firma de consultoria de açúcar e cana com sede em São Paulo.

"As pessoas costumavam dizer que nossa única chance de vender mais etanol seria aumentando as exportações", disse Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Unica, a maior associação do país de produtores de açúcar/etanol. "Isto mudou do dia para a noite com os carros flex fuel."

Como nenhum outro país possui uma rede de distribuição de etanol tão ampla quanto a do Brasil, é improvável que os carros flex fuel venham a se tornar uma tendência internacional tão cedo. Mas com os preços mundiais do petróleo se aproximando de US$ 50 o barril, governos de todo o mundo estão à procura de formas de substituir a gasolina pelo etanol.

Quase uma dúzia de países, incluindo o Canadá, Suécia e os Estados Unidos, já começaram a misturar etanol com a gasolina, uma prática que foi obrigatória no Brasil por anos.

Isto ajuda a colocar um freio nos preços nas bombas ao mesmo tempo em que reduz as emissões de combustível, uma exigência para os países que assinaram tratados ambientais como o Protocolo de Kyoto.

Outros países, como a Austrália e a Tailândia, estão se voltando para o Brasil para ajudá-los a desenvolver suas próprias indústrias de etanol, para alimentar a demanda por energia mais barata na Ásia, especialmente por parte da China.

A Índia, a segunda maior produtora mundial de açúcar do mundo, atrás do Brasil, também está se esforçando para disseminar o uso do etanol, para reduzir sua dependência de petróleo estrangeiro à medida que sua frota de automóveis cresce juntamente com sua classe média.

Por ora, o Brasil, com seus baixos custos de produção, abundância de terras e setor de etanol já estabelecido, é quem mais está se beneficiando.

Apenas no ano passado, suas exportações de etanol triplicaram para quase US$ 500 milhões, à medida que os preços do petróleo aumentavam, com os Estados Unidos e a Índia no topo da lista de importadores.

E à medida que cresce a pressão sobre a União Européia para cumprir a ordem da Organização Mundial do Comércio para acabar com os subsídios ao açúcar, conseqüentemente tornando a produção de açúcar menos lucrativa lá, mais produtores estrangeiros de açúcar e empresas de comércio se voltarão para o Brasil para manter seus negócios vivos.

Theo Spettman, executivo-chefe da Suedzucker da Alemanha, a maior produtora de açúcar da Europa, disse em um seminário em São Paulo, neste mês, que a empresa está à procura de oportunidades de investimento no Brasil. Se ela se arriscar, a Suedzucker seguirá os passos de empresas francesas como Louis Dreyfus, Tereos e Sucden, que se estabeleceram no Brasil nos últimos anos.

"Os principais membros da indústria do açúcar na Europa não vão deixar de ser grandes apenas devido ao fim de seus subsídios", disse Josias Messias, presidente da ProCana, o grupo de pesquisa que estuda o açúcar e o etanol.

"Eles sabem que terão que investir aqui." Etanol reduz dependência do petróleo e movimenta a economia George El Khouri Andolfato

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